Quem Conta um Conto...

Criação coletiva:
Marcelo Coelho
Lygia Fagundes Telles
João Ubaldo Ribeiro
Ziraldo
Nélida Piñon
Luis Fernando Veríssimo



"Clara nasceu no dia 1º de janeiro de 2000..." Com essa frase como ponto de partida, seis autores aceitaram o desafio proposto pela "Revista", suplemento dominical da "Folha de São Paulo",  e escreveram um conto coletivo, em uma espécie de corrente.

A história mostra a aventura do nascimento de Clara, que chega ao mundo durante um dos revéillons mais esperados, em um Brasil tomado por blecautes, corrupção, desemprego, falta de verbas para a saúde pública, mas também muita solidariedade entre estranhos.

Encarregado de dar o pontapé inicial na história, Marcelo Coelho, criou a fascinante figura do Almeidinha, motorista de ambulância que transporta Débora, mãe de Clara, uma moderna mãe solteira.

Lygia Fagundes Telles, colocou um complicador a mais no tumultuado parto do Bebê 2000: um blecaute, que fez lembrar o fim do mundo.

O terceiro na corrente, João Ubaldo Ribeiro, trancou Débora e Almeidinha num elevador e coube a Ziraldo, finalmente "parir" a menina.

Mas as complicações continuam, com o surgimento de Miguel, que nas mãos de Nélida Piñon, transformou-se em um homem inescrupuloso e, com um estranho diálogo entre pai e filho, escrito por Luis Fernando Veríssimo, que terminou a história com um.... bom, leiam a seguir.


Clara nasceu no dia primeiro de janeiro do ano 2000 ...


POR MARCELO COELHO


...no Hospital e Maternidade Vasco da Gama: um dos melhores do país, segundo o ranking dos hospitais que a revista "Viva a Vida'' publica anualmente.

"Padrão dez estrelas", concordava o Almeidinha, motorista de ambulância veterano, de plantão naquele reveillon. "Aqui, no Vasco da Gama, até dá gosto ficar doente'', dizia ele a viúvas e órfãos virtuais.

Ele próprio, Avelino Boschi de Almeida, ia cultivando uma úlcera no duodeno, com doses regulares e pouco homeopáticas de torresminho com cerveja nos fins de semana. "O segredo é mastigar devagarinho'', declarava, com base nos resultados de recentes pesquisas que o dr. Roberto lhe transmitira entre uma e outra operação de urgência.

O dia seguinte era de batente, "dia preto na folhinha'': mais um passo no progresso médico, mais vidas ganhando alento na UTI, mais crianças neste mundo, mais quilômetros rodados na ambulância do Almeidinha. Que, a despeito de sua admiração pelo HMVG (Hospital e Maternidade Vasco da Gama), tinha uma reclamação a fazer, aliás muitas vezes repetida ao dr. Roberto. A ambulância estava "no limite da aposentadoria, dr. Roberto"; "sem condições, dr. Roberto''.

O dr. Roberto estava plenamente consciente da necessidade de uma renovação da frota ambulatorial de emergência; pelo menos tinha dito isso ao Almeidinha, que gostou de ouvir a promessa assim formalizada, e tentou decorá-la enquanto o dr. Roberto olhava vagamente, como se acometido de catarata, em frente; para o infinito; para a radiografia do duodeno do mesmo Almeidinha, onde perspectivas de cura, como fantasmas, se esfumavam e fundiam com evidências de agravamento; mas disso o Almeidinha não queria nem saber, interessado que estava na nova ambulância. 

Podemos concluir pela presença de dois fatores na constituição psíquica do Almeidinha; dois fatores de resto contraditórios: a calma e a pressa. Calma com relação ao duodeno, órgão discreto, quase subserviente ao poderoso (ou fraco) estômago, apenas um pouco mais insigne que o piloro, esse injustiçado da anatomia; e pressa, pressa com relação à ambulância, que devia transportar, naquele réveillon, a menina Clara que nem tinha nome ainda.

A pressa de Almeidinha se justifica. Pois, na frente do Vasco da Gama, já se acumula uma multidão de repórteres. Comportam-se como espermatozóides esperançosos, frustrados e estéreis diante do fato consumado, do zigoto amadurecido, inchado e triunfal daquilo que será o Bebê 2000.

Almeidinha sabe disso. Acelera a ambulância. Um pouco de glória haveria de merecer; transportaria o primeiro bebê do milênio. "Essa eu traço''. O relógio marcou cinco para a meia-noite. Dentro da ambulância, Débora nem sabe do Almeidinha e de suas opiniões sobre o futuro. Olhou a própria barriga numa espécie de despedida, num transe dolorido e terminal. Aquilo, aquele volume, era sua propriedade; ia livrar-se dela. Fato injusto, pensando bem. Fixou-se no nome, como uma escritura lavrada em cartório: Clara. Clara. Clara. Era uma forma de esterilizar-se: pois o que seu corpo dizia era outra coisa. "Gema''. Entregou-se com prazer feminino às simetrias do vocabulário e à dor do parto. Sentia-se excitada e sofredora.

Ex-publicitária de sucesso, confiava no filho que iria nascer. O pai não existia: ou melhor, existira numa noite em Porto Seguro, numas férias que depois se tornaram definitivas: "chega, não dá mais, estou virando o milênio, parei, viu, de fazer publicidade''.

Débora voltou grávida da Bahia. Não teve ânimo para contatar o surfista/vendedor de sandalinhas que ria branco depois do orgasmo, que ria doce depois do meio-dia, que ria para ela, confiante, engravidada e só; Miguel, o nome dele: prazer assim, melhor esquecer. Sentia-se feminina e abandonada na ambulância que sacolejava como o diabo.


POR LYGIA FAGUNDES TELLES


— Danada de buraqueira! — resmungou o Almeidinha. Acionou a sirene pedindo passagem em meio à noite congestionada, acelerou a marcha: — Saiam da frente porque aqui vou eu!

Estendida na padiola da ambulância, Débora contraiu-se de dor. Ah, se pudesse gritar assim como a sirene: "Aqui vou eu! Aqui vou eu!, anunciava também aquela coisa que avançava lá no fundo das suas entranhas, essa coisa que parecia tão natural e que na verdade era tão misteriosa, a coisa exigindo passagem e se avolumando por entre os caminhos fechados. Ô!, Deus, tão fechados. Mas é o mundo que vai passar por entre as minhas pernas? É o mundo?

— Ele não vai conseguir! — gemeu Débora.

— Não vai conseguir o quê? — perguntou o enfermeiro.

— Sair! — gritou a jovem encolhendo as pernas.

Contornou o ventre com as mãos quando a ambulância sacolejou numa curva mais demorada. E esse daí, que dirige com perfeição, hein?

— Esta avenida está inteira esburacada — disse o enfermeiro, que estava em pé e precisou agarrar-se a uma trave para não perder o equilíbrio. — Vamos, respire fundo, você não está respirando direito, relaxe e respire fundo! "Estou exausta", ela pensou, puxando o lençol até o queixo. Fechou os olhos inundados de lágrimas.

— Laborioso demais, não? — disse e enxugou os olhos na ponta do lençol. Uma trabalheira que não tinha fim, as entrevistas na televisão, no rádio. "Será uma honra e uma glória!", repetiu mil vezes, disfarçando o cansaço. Ah, as perguntas idiotas das revistas frívolas e tudo gratuito. Só aquele lá de peruca loira é que prometeu um bom cachê, mas teria então que posar nua, assim meio de perfil e ajoelhada na relva, o barrigão inteiro lustroso de óleo, as mãos pousadas docemente sobre os seios e segurando um frouxo ramo de flores. O olhar suave. Casto, mais respeito com a mãe do Bebê 2000!

E aquele jornaleco anunciando em manchete que no ano 2000 nasceria o "Bêbe-Diabo", Ô! Deus.

Estava desempregada, tudo bem, com o dinheiro poderia comprar um pequeno apartamento, pois então vou posar com a barrigona mística. E justo na manhã das fotos acordou vomitando tanto que nem conseguiu sair da cama, a náusea. A náusea. 

— Pois —, ela disse baixinho. Chegou a sorrir, a mãe tão amada era portuguesa e costumava começar assim uma conversa, pois. Gostava de cantarolar fado e tinha paixão pelo marido, morreram ambos de mãos dadas num desastre de ônibus.

— Minha mãe também foi cesariada quando nasci, esta não vai ser um parto natural, não vai , não. Ô, Deus! Falta muito, moço?

— Estamos chegando! Vamos, respira, fundo...

Ela obedeceu. Na sua natureza mais profunda, era submissa e agora, então, em pleno jogo do milênio, tinha que ir mesmo até o fim.

— As horas, que horas são? — ela perguntou, voltando o olhar suplicante para o enfermeiro, que, por sua vez, olhava a rua pela fresta do vidro da janela. Por essa fresta cresceu a onda ardente das buzinas e dos sinos anunciando a chegada do grande réveillon.

— As horas! — ela repetiu mais alto.

— Estamos quase em cima, agora respire, respire mais fundo e relaxe, estamos quase chegando, calma! Teve que se apoiar de novo para não cair, enquanto a ambulância repentinamente desacelerou e parou num solavanco. Pronto, chegamos, cruzes! Que tourada, um alívio!

— E o doutor Roberto?! — ela perguntou e cobriu a cara com o lençol para esconder a careta em meio a uma contração mais forte.

— E esse doutor, meu Deus!

— Não foi encontrado, nenhum telefone está funcionando, nenhum. Ele deve estar no hospital ou se perdeu no trânsito, cruzes, parece o fim do mundo! E essa multidão aí esperando? - disse e abriu a porta da ambulância para deixar passar um homem muito alto e magro, que chegou resfolegante. Fechou depressa a porta quando viu aparecer um microfone que foi erguido em triunfo feito um troféu.

Débora ficou olhando o recém-chegado, outro enfermeiro? Que se queixou em voz baixa, tinha pedido uma nova ambulância, não tinha? — Que esta daqui deve servido na Segunda Guerra —, resmungou e voltou-se para a padiola. Inclinou-se e falou com brandura para Débora, analisando-lhe com a mão em concha os cabelos desgrenhados.

— E então, está pronta? Tem um monte de repórteres aí fora. Ela estendeu-lhe a mão, que ele apertou.

— O senhor parece muito com uma pessoa tão querida. É médico?

— Quase, quase - ele disse sorrindo enquanto lhe ajeitava o lençol em dobras ao redor do pescoço. — Faço de tudo um pouco, também sou motorista, vim guiando esta geringonça. O importante é apenas isto, pensar que tudo vai dar certo —, acrescentou e com a ponta do lençol enxugou as últimas lágrimas que ainda escorriam na face lívida da moça.

— Está com medo?

— Muito, ela sussurrou e encolheu-se. E esse homem que o outro chamava de Almeidinha? Muito parecido com o pai que tinha aquele mesmo ar triste de homem bonito, mas fracassado. E de fala mansa.

— Mas onde estão os seguranças, festejando? Almeidinha, veja bem, a gente não pode ficar aqui desse jeito, vamos nessa?

Como resposta, fez-se, de repente, a escuridão. O susto. E o silêncio que foi crescendo num sonoro Ahhhh!... pasmado.

— Blecaute! — alguém avisou em pânico. É o blecaute! E diante da novidade maior ninguém mais pensou no Bebê 2000 porque mais importante ainda era a treva universal anunciando o fim do mundo, era mesmo o fim? Aos poucos, aqui e ali, foram se acendendo os faroletes, os isqueiros que rompiam o escuro já animado pelas risadinhas, piadas, tamanha vontade de alegria, de vida.

— Feliz Ano Novo! —, alguém ousou desejar.

Almeidinha ajoelhou-se ao lado da padiola e enxugou o suor que brotava intenso da testa de Débora.

— Não se assuste, tudo bem, o hospital tem geradores próprios, já vamos entrar sem problema, é preciso dar um tempo, temos que subir de elevador. Pode agüentar mais um pouco? Pode?

— Posso, sim. E as estrelas, ainda estão no céu?

— Estão todas firmes, já vamos sair aproveitando esse escurinho. Esqueceram de mim, você vai dizer. Vamos sair em paz, Nossa Senhora da Conceição vai ajudar, ela ajudou minha mulher.

— Você tem filhos?

— Três. Vai correr tudo bem, confia em mim. Segurou-a fortemente pelos ombros. — Está com frio?

— Diz que o mundo vai acabar com fogo, os astros todos despencando...

— Bobagem, vai acabar com água, mas ainda demora. Vou fazer uma grande arca que nem aquela outra, a gente pode navegar gostoso, combinado? Agora vamos, está pronta?

— Não largue da minha mão.


POR JOÃO UBALDO RIBEIRO


— Pode deixar — respondeu ele, e estava começando a pensar em algo mais para dizer, quando o mundo todo se iluminou de novo e voltou a se encher de caras e figuras irrequietas.

— Os geradores já estão funcionando! Depressa para o elevador!

Mas, assim que a padiola chegou à porta ampla e cinzenta do elevador, as luzes piscaram como fogos de artifício e, depois de um clarão cegante que durou menos que um segundo, a escuridão voltou.

— Merda de gerador! — revoltou-se Almeidinha. — É pior que a ambulância, deve ser do tempo de D. Pedro, esse desgraçado.

— Ai, meu Deus, quer dizer que a gente não vai subir?

— Claro que a gente vai subir, eu nunca fui homem de deixar de cumprir minha obrigação por causa de uma máquina safada. Nós vamos na marra, vamos pela escada mesmo!

— Pela escada? Quantos andares são?

— Só quatro, é moleza, nada que uns dois homens fortes não resolvam.

Evidente, não ia ser aquele gerador que impediria Almeidinha de participar do grande evento que já vinha antecipando desde que entrara na ambulância. A ardência em torno do estômago aumentou, mas ele não prestou atenção, depois pediria um remedinho esperto na enfermaria, já estava acostumado com as manhas de sua úlcera de estimação. Usando os mesmos gestos dos policiais americanos que via em filmes na televisão, arrebatou com decisão a lanterna que estava na mão de um baixote que não conhecia, mas que não ousaria reagir naquela situação, e lançou o facho de luz em redor.

— Três homens aqui! Três homens dispostos, imediatamente! O gerador pifou, o elevador não funciona, vamos ter que carregar esta senhora para a sala de parto, já rompeu o bolsa d'água, a criança está para sair! Três homens, três homens, será que não há três homens aí?

Havia, sim, até mais de três. Almeidinha, mantendo as mesmas atitudes que admirava nos policiais americanos e se sentindo um general, organizou o contingente de emergência com presteza. Você aí segura pelas pernas, dois pela cintura, um de cada lado, eu pelos ombros, cuidado aí, coordenação, coordenação, tudo rápido, mas com calma, vamos lá, assim, aí...

— Pilhas fortes para iluminar a escada, isqueiro, qualquer coisa, vão na frente, que nós seguimos!

A equipe, como se ensaiada previamente, entrou em ação e Débora, suando muito e procurando sem sucesso recordar as palavras da Salve-Rainha, chegou carregada à soleira da escada e já começavam a subir, quando novo alarido eclodiu e outra vez as luzes se acenderam, desta feita com apenas uma piscadela, para logo permanecerem firmes como holofotes.

— Agora é pra valer! Elevador!

Em rápida manobra, o grupo de salvamento regressou à padiola, sob aplausos e a trilha sonora dos primeiros foguetes do Ano Novo, depositou Débora em cima dela e finalmente a embarcou.

— Não precisa mais ninguém, podem deixar que nós dois mesmo cuidamos disso - instruiu Almeidinha. 

Ouviram-se palmas, que imediatamente cessaram, porque, no momento exato em que a porta se fechou à frente da pequena multidão, as lâmpadas tornaram a piscar, brilharam fugazmente outra vez e a escuridão se restabeleceu, mais negra do que antes, entre as paredes sólidas do elevador.

— Minha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro! — disse Almeidinha. 

— Meu Deus do céu, o que é que vai acontecer?

— Não vai acontecer nada — respondeu ele, logo recuperando a firmeza do detetive da TV.  Essa criança é uma predestinada, nós somos predestinados, ela nasce numa boa, nem que seja aqui mesmo no elevador.


POR ZIRALDO


Almeidinha se achava um predestinado. Débora nunca havia pensado nisso. Nesse momento, porém, presa dentro de um elevador às escuras, com as pernas abertas para um homem que ela nunca havia visto e que iluminava suas partes com uma lanterna segura pela boca ela pensou em predestinação.

No lado de fora, ouvia-se o tumulto dos fotógrafos, dos repórteres e do pessoal da TV. Mais ao longe, ruídos esparsos de foguetes, longínquas explosões, que só serviam para confundir os que queriam saber a hora de soltar o foguetório da virada.

— Ai, meu Deus. Ai, meu Deus! — gemeu Débora e, logo em seguida, gritou de dor com uma contração que parecia querer partir seu corpo em dois. 

— Vou perder essa criança, ai. O senhor sabe fazer cesariana? Minha mãe, quando eu nasci, ai.

— Não te disse que vou fazer uma arca pra não deixar você nem o neném morrerem afogados? 

Almeidinha falou e teve que apertar sua dolorida barriga, fazendo uma careta que Débora não percebeu.

— Confia em mim. Sei fazer uma porção de coisas. O chofer tinha um jeito doce de acalmar Débora e ela começou a achar que tudo ia dar certo.

A ambulância do Almeidinha só funcionara, até hoje, por causa de seus dedos mágicos. Era ele que mantinha aquele motor funcionando ao identificar cada defeito pelo toque. Além disso ele explicou para Débora com tantos anos de ambulância, já havia feito, sozinho, uma quantidade imensa de partos. Inclusive o parto de seu primeiro filho, quando estava começando a fazer correr aquele carro branco e velho.

Débora sentiu os dedos do homem tocarem seu corpo, constatando o nível de sua dilatação. Assustou-se.

— Pode ficar calminha, não vai ser cesariana - ele disse.

Outra contração, porém, fez com que ela esquecesse esta informação e soltasse um uivo que deixou mais tensas ainda as pessoas que, do lado de fora, tentavam abrir a porta de aço do elevador. O burburinho que se seguiu a mais um dos seus gemidos não impediu, porém, que se pudesse ouvir uma voz perguntar: "Quanto tempo falta?" e outra responder: "Pouco mais de um minuto".

— Que azar, que azar, que azar! - a primeira voz repetiu. Era a voz do dono da agência de propaganda onde Débora havia trabalhado e que estava ali, junto aos fotógrafos e repórteres. O que Débora não sabia é que a notícia de sua gravidez chegara à agência com informações detalhadas: "O neném da Débora está marcado para nascer três dias antes ou três dias depois do dia 31 de Dezembro, com todas as chances de nascer exatamente entre o dia 31 e o dia primeiro."

Ela nunca soube que toda a sua gravidez fora monitorada à distância. Débora era bonita, esportiva, seria mãe de uma filha moderna produção independente! tudo perfeito para as câmeras de televisão, para as fotos e para os anúncios do maior cliente da agência, as Fraldas Babyshit, o patrocinador do Bebê 2000.

Tudo tinha sido checado, todos os hospitais avisados e acompanhados de perto, a agência cuidara de tudo. O negócio era deixar Débora, que afinal; era amiga da casa, curtir sua gravidez em paz, sem tensões. 

Naquela tarde, mesmo com todos os papéis picados, com todos os brindes, beijos e abraços, o atentíssimo dono da agência e seu diretor de criação foram informados de que Débora acabara de entrar em trabalho de parto e justamente na hora que eles mais desejavam. Deixaram todas as comemorações de lado e na hora cientificamente certa, partiram, excitados, para a casa de Débora com tudo preparado, a ambulância mais moderna, o médico mais competente, os fotógrafos e cinegrafistas mais capazes. Tudo para garantir a exclusividade do Bebê 2000.

Só que eles não contavam com a eficiência do Almeidinha! Que apenas não tinha pressa para resolver os problemas da sua úlcera, doendo naquele instante como nunca doera antes. Doía tanto a sua úlcera que o deixava dobrado sobre si mesmo e suando mais do que Débora.

Ela, agora, descansava por um breve momento das contrações dilacerantes. E gemia baixinho, prevendo um dos retornos da dor e assustada ao ver que o homem que segurava a lanterna com a boca e iluminava suas partes, também gemia, com uma das mãos dentro da camisa, apertando o estômago, como um Napoleão Bonaparte.

— O senhor também sente dores quando faz partos? ela teve forças para perguntar, pensando nessas coisas psicológicas, essas histórias de transferências, o homem parecia tanto com seu pai.

Almeidinha tirou a lanterna da boca, deu um suspiro e falou:

— É meu estômago. E esfregou a mão na barriga.

Neste exato momento Débora deu um grito:

— Está nascendo!

Almeidinha, que conseguia ser calmo e apressado ao mesmo tempo, iluminou a cabecinha de Clara coroando entre as pernas de Débora. Era Clara nascendo no escuro. Era Clara sendo dada à luz de uma lanterna, presa na boca de um homem parecido com seu avô; um homem diligente que gemia junto com sua mãe.

— Sopra a vela, sopra a vela, força, força, sopra a vela.

Passou para o lado de Débora e, com o antebraço, apertava sua barriga como quem aperta uma gigantesca pasta dentifrícia e pedia mais força, mais força. Súbito, ele percebeu que a cabecinha da menina já havia passado, Clara acabara de chegar ao mundo exterior. Ele iluminou seu relógio de pulso. O estrondo do foguetório lá fora confirmou: um ano começando pelo número um, nunca mais! Almeidinha e Débora estavam entrando no ano 2000 e Clara chegando a ele, pensou.

Do lado de fora pessoas aflitas tentavam, em vão, abrir a porta do elevador. E faziam perguntas sem cessar: "O que está havendo?" "Está nascendo?" Um telefone celular tocou no escuro, alguém atendeu e, logo em seguida, informou: "Está nascendo um no Hospital do Flamengo. Capaz de nascer primeiro".

Nesse mesmo instante, Almeidinha, que era calmo e apressado ao mesmo tempo, deu uma palmada na bundinha de Clara e todos, no "hall" às escuras do hospital, ouviram o choro da menina. Mesmo com o foguetório lá fora.

As palmas e os vivas que se seguiram certamente fizeram as luzes se acender de novo, foi esta a nítida impressão que se teve, tudo aconteceu como num show. A porta do elevador se abriu e todos voltaram seus olhos para seu interior.  O que viram era uma imagem nada promocional, inteiramente inútil para um anúncio tão sonhado: na padiola, Débora parecia desmaiada, os braços soltos, lassos, o rosto suado voltado para o lado, os olhos fechados, a respiração pousada. No chão, sentado, gemendo de dor, o Almeidinha. Com Clara deitadinha de bruços no seu colo.

— Olha lá, o Bebê 2000! — alguém gritou.

— Não é, não! — falou um outro.

— Como não é? — gritou o dono da agência.

E explicaram para ele:

— Ainda falta uma hora para o ano 2000 chegar. Vocês se esqueceram de que estamos no horário de verão?

O diretor de criação caiu sentado numa cadeira:

— Nada pode dar certo neste país! — disse imaginando um anúncio ilustrado com a foto do foguete brasileiro explodindo no espaço.

Estranhamente ninguém se animava a entrar no elevador, houve assim um momento de perplexidade. Súbito, um jovem alto, bonito, com jeito de surfista se adiantou. Já dentro do elevador, parou como se tivesse que tomar uma decisão: não sabia se ia em direção à padiola ou em direção ao homem sentado no chão, com a criança no colo. Decidido, ajoelhou-se diante do Almeidinha e tentou tocar o bebê. Desistiu. Tocou então no ombro do homem e perguntou:

— Pai, você está bem?

Almeidinha abriu os olhos, meio assustado, e olhou para o jovem:

— Ué, você voltou, Miguel?


POR NÉLIDA PIÑON


Temeu o pior. Aquele filho não os deixava em paz. Sempre cobrou comfirmeza as últimas moedas da família. Miguel viera da Bahia disposto a superar as armadilhas do destino, desta vez representadas por Débora, que pretendia guardar sozinha o dinheiro proveniente das glórias da maternidade. Mas, graças à Maria, amiga de Débora, descobrira que a mulher havia vendido o Bebê 2000, concebido pelos dois, para Agostinho, sócio da agência.

Por isso, ao chegar ao hospital, mesmo no escuro, abordara o homem de peruca loira que, encostado perto do elevador, aguardava o desfecho do caso e que reagira à sua proposta brandindo noções de justiça. Afinal, quem era ele? Firmara o contrato com Débora e não tinha que lhe dar satisfações.

— Metade do "Bebê 2000" é minha. Sou o pai e sem minha licença não há negócio. Apesar da escuridão, aprumou o porte atlético.

Agostinho hesitou. Além de Débora parir dentro de um elevador em frontal desrespeito às regras do acordo, aquele malandro extorquia-lhe dinheiro com rigorosa desfaçatez. Coçava aflito a peruca que se movia na careca como se tivesse vontade própria.

Em defesa de seus interesses, ia Miguel aumentando o timbre da voz quando a porta do elevador, ao retorno da luz, abriu-se como as cortinas de um teatro, para oferecer ao público a visão de um presépio formado por miseráveis descabelados, sujos, a exibirem uma arte precária, mas eterna.

Aquela estética comezinha, tão brasileira, decepcionara Agostinho. Era como sentir-se um rei mago sem ouro, incenso, mirra, sem uma história ao menos para contar. Indiferente a que Miguel, que não lhe perdia os gestos, nutrisse até o último minuto a esperança de Agostinho promover quem sabe o espetáculo da vida em estado natural. E cogitava assim da fortuna, quando o assistente de produção arrancou o publicitário da letargia..

— Estamos salvos Agostinho. Já temos o "Bebê 2000", que acaba de nascer.

Ainda com o bebê em seu poder, Almeidinha lutava por superar aquela corrida de obstáculos. Confiava que a agência compensasse quem arrancara o bebê do milênio das entranhas maternas. Embora estranhasse que os enfermeiros, levando agora Débora na maca, se esquecessem da criança, atordoados talvez pelos ruídos dos fogos que, persistindo pela cidade, pareciam estourar em seu peito.

Ao lado do pai, Miguel não se deixava abater. Havia que ser convincente. Como explicar-lhe que a criança, lambuzada de sangue, colada ao corpo de Almeidinha como uma anêmona, era sua filha? E que levaria na alma a mesma expressão de assombro de quando ele, montado na prancha, subjugava as ondas, os vagalhões, o próprio mar.

— Está vendo esta cria, pai? Acercou-se para que lhe visse os olhos marejados. — Foi por ela que voltei.

As fisgadas da úlcera de Almeidinha recrudesceram. Pressentiu que a confissão de Miguel se traduziria em novos sacrifícios.

— O que quer dizer? Desembucha logo, rapaz. Acaso é sua filha?


POR LUIS FERNANDO VERÍSSIMO


— É.

— Você é o pai da Clara?

— Sou.

— Como foi isso?

— Em Porto Seguro. Uma noite. A gente transou e pimba.

"Pimba", no caso, querendo dizer o mistério da concepção, outra vagina regada com o rio salgado que saiu do Éden por outro portador distraído, na língua do Miguel.

— Veja o que é a vida disse Almeidinha, com os olhos baixos, como se a vida estivesse no chão. Você fez o filho e eu fiz o parto.

— Vai ser bom pra nós dois, velho.

— Bom?

— É o Bebê 2000. Nós vamos ser famosos.

— Parece que ela nasceu antes do tempo.

— Não interessa. Tem agência de publicidade na jogada, dinheiro grosso. Dinheiro compra até tempo. Dinheiro faz andar o relógio.

Almeidinha tinha levantado os olhos. Estava olhando para o filho, ponderando aquela coincidência. O que era, mesmo, a vida. Ele estava cansado, precisava de um banho. Precisava entregar a criança à sua mãe e ir para casa tomar um banho. 

— Eu não disse que era pra você usar camisinha sempre?

— Pô, velho. Se eu tivesse usado camisinha, isto não estaria acontecendo.

"Isto" era o movimento que crescia em volta dos dois. As luzes e as câmeras tinham perseguido a mãe. Agora estavam voltando. Todos tinham se dado conta que o bebê ficara no colo do Almeidinha, e começavam a voltar. A estrela da noite estava no colo do Almeidinha.

— Velho! Pensa só.

Miguel queria dizer que o pai tinha que se orgulhar dele. Aquela noite, em Porto Seguro, quando entrara na Débora, estava entrando na História. 

— Pensa só, velho. Eu não sou mais só um garotão bonito. Eu sou o primeiro pai do milênio.

— Quem é o senhor? perguntou uma repórter ao Almeidinha.

— Eu sou do hospital. Eu guiei a ambulância. Eu fiz o parto. Eu não sou ninguém.

— Ele é o avô! gritou Miguel.

Ninguém ouviu porque a criança começou a berrar. Todos os microfones na boca do Bebê 2000. O pessoal da agência também voltara, para buscar a criança esquecida no colo do Almeidinha. Miguel foi atrás deles.

— Minha filha!

Os fogos de artifício agora pareciam uma metralhadora, várias metralhadoras, uma chacina. Era meia-noite, era meia-noite, as luzes e as câmeras corriam atrás do pessoal da agência, que levava o Bebê 2000 para ser filmado junto da mãe. Almeidinha ainda viu o Miguel pulando no meio da multidão que se afastava, gritando para ele:

— Velho! Consegue um advogado. Não vamos assinar nada sem um advogado! Isto vai dar um dinheirão! Você tem que se orgulhar de mim!

E depois, num último salto:

— Aí, vovô!

Almeidinha ficou parado no meio do hall subitamente vazio, apalpando a barriga. Maldita úlcera. Viu chegar o dr. Roberto. Finalmente, o dr. Roberto.

— O que está havendo aqui? perguntou o dr. Roberto.

Almeidinha olhou em volta. Não estava havendo nada ali. Perguntou:

— Dr. Roberto, e as ambulâncias novas?

O dr. Roberto fez o seu gesto de sempre, como se estivesse se defendendo de um enxame de abelhas em vez do Almeidinha, antes de entrar no elevador.

— Não há verba, não há verba!


Os autores:


Marcelo Coelho, é escritor e articulista da Folha. Sua obra mais recente é o livro de contos infanto-juvenis "Minhas férias".

Lygia Fagundes Telles, é advogada e escritora. Entre suas obras destacam-se "Ciranda de Pedra" (1954) e "Antes do baile verde" (1970).

João Ubaldo Ribeiro, é jornalista, professor e escritor. Algumas obras: "Sargento Getúlio", romance (1975); "Viva o Povo Brasileiro", romance (1984); "O Sorriso do Lagarto", romance (1989);"A Casa dos Budas Ditosos", romance (1999).

Ziraldo, é jornalista, escritor e cartunista. Sua obra mais famosa é "O Menino Maluquinho".

Nélida Piñon, é jornalista, escritora e professora. Em 96, foi eleita a primeira mulher presidente da Academia Brasileira de Letras. Algumas obras: "A Casa da Paixão", entre outros.

Luis Fernando Veríssimo, é escritor e jornalista, autor de "Gula - O Clube dos Anjos", romance (1998) e "O Analista de Bagé", contos (1981).


Texto extraído do suplemento
"Revista", jornal "Folha de São Paulo" - São Paulo, edição de 02/01/2000, pág. 06.

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