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Arnaldo Nogueira Jr



Vasco Graça Moura

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Auto-retrato com a musa

Vasco Graça Moura


1.


vejo-me ao espelho: a cara
severa dos sessenta,
alguns cabelos brancos,
os óculos por vezes
já mais embaciados.

sobrancelhas espessas,
nariz nem muito ou pouco,
sinal na face esquerda,
golpe breve no queixo
(andanças da gilette).

ia a passar fumando
mais uma cigarrilha
medindo em tempo e cinza
coisas atrás de mim.
que coisas? tantas coisas,

palavras e objectos,
sentimentos, paisagens.
também pessoas, claro,
e desfocagens, tudo
o que assim se mistUra

e se entrevê no espelho,
tingindo as suas águas
de um dúbio maneirismo
a que hoje cedo. e fico
feito de tinta e feio.


2


quem amo o que é que pode
fazer deste retrato?
nem sabê-lo de cor,
nem tê-lo encaixilhado,
nem guardá-lo num livro,

nem rasgá-lo ou queimá-lo,
mas pode pôr-se ao lado
e ter prazer ou pena
por nos achar parecidos
ou não achar. quem amo

não fica desenhado,
fica dentro de mim
e é quando mais me apago
e deixo de me ver
e apenas me confundo,

amador transformado
na própria coisa amada
por muito imaginar.
assim nem john ashberry,
nem o parmegianino,

nem espelho convexo,
nem mesmo auto-retrato.
só uma sombra que é
na sombra de quem amo
provavelmente a minha.


3


quem amo tem cabelos
castanhos e castanhos
os olhos, o nariz
direito, a boca doce.
em mais ninguém conheço

tal porte do pescoço
nem tão esguias mãos
com aro de safira,
nem tanta luz tão húmida
que sai do seu olhar,

nem riso tão contente,
contido e comovente,
nem tão discretos gestos,
nem corpo tão macio
quem amo tem feições

de uma beleza grave
e música na alma
flutua nas volutas
de um madrigal antigo
em ondas de ternura.

é quando eu sinto a musa
pousando no meu ombro
sua cabeça, assim
me enredo horas a fio
e fico a magicar.


(mantida a grafia original)


Vasco Graça Moura nasceu na Foz do Douro (Porto), Portugal, em 1942. Formou-se pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, em 1966. Depois de ter exercido advocacia, desempenhou vários cargos públicos: foi membro de dois Governos Provisórios em 1975, diretor do Primeiro Canal da RTP (1978), administrador da Imprensa Nacional-Casa da Moeda (1979-1989), comissário-geral para as comemorações dos Descobrimentos Portugueses (1989-1995). A partir de 1996, dirigiu o Serviço de Bibliotecas e Apoio à Leitura da Fundação Calouste Gulbenkian. É colaborador de jornais, revistas e de canais de televisão. Tem muitas das suas obras traduzidas para italiano, francês, alemão, sueco e espanhol. É autor de numerosos ensaios, alguns deles premiados, e de excelentes traduções literárias. Em 1999 foi eleito deputado ao Parlamento Europeu. Já publicou mais de 60 títulos, tendo numerosa colaboração dispersa em jornais e revistas. Foi distinguido com vários prêmios, entre os quais o Prêmio Pessoa (1995), o Prêmio de Poesia do PEN Clube (1997) e o Grande Prêmio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores.(1999). Em 1997 foi-lhe atribuída a Medalha de Ouro da Cidade de Florença pelas suas traduções de Dante. Em 2004, ganha a Coroa de Ouro do Festival de Poesia de Struga (Macedônia), sendo o primeiro poeta português a ser distinguido com este galardão. É membro efetivo da Académie Européenne de Poésie (Luxemburgo).

Alguns destaques na obra de
Vasco Graça Moura:

Poesia:

Modo Mudando (1963);

O Mês de Dezembro e Outros Poemas (1976);

A Sombra das Figuras (1985);

Sonetos Familiares (1994);

Uma Carta no Inverno (1997);

Testamento de VGM (2001);

Antologia dos Sessenta Anos (2002).

Ensaio:

Luís de Camões: Alguns Desafios (1980);

Camões e a Divina Proporção (1985);

Sobre Camões, Gândavo e Outras Personagens (2000).


Romance:

Quatro Últimas Canções (1987);

A Morte de Ninguém (1998);

Meu Amor, Era de Noite (2001).

Enigma de Zulmira (2002)


Diário e Crônica:

Circunstâncias Vividas (1995);

Contra Bernardo Soares e Outras Observações (1999).


Poema extraído da revista “Inimigo Rumor” nº 12, editora 7Letras – Rio de Janeiro, 1º semestre de 2002, pág. 03.

 

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