Eudora Light não se sentia feliz casada com Word Seis porque o considerava um Ponto Zero.
Um dia, viu uma Photo Deluxe de Aldus Pagemaker e ficou apaixonada. Saiu pela primeira
Windows que encontrou aberta e Netscaped com ele. Acontece que o Trumpet Winsock de Page
não tocava. Decepcionada, Eudora aceitou uma proposta de Microsoft foram morar em Control
Panel. Lá, abriram uma Photoshop para ganhar a vida. Porém, com o nascimento de Corel
Draw, esvaziaram o File Manager.
Quando a notícia foi publicada no Printer Setup, Aldus pegou um Navigator e, em três
segundos, desembarcou em Control Panel, matou os traidores e despachou os corpos em dois
e-mails: um para Flori e outro para Márcia. Em seguida, Aldus escondeu-se em Lotus até
embarcar clandestinamente num Config Sys. Aterrissou em Clipboard e passou algum tempo
vendendo Netdials na porta de uma Paintshop. Um dia, foi devidamente Scanneado e levado
para um Template, onde Organized uma seita secreta dedicada a promover Print Previews.
Um domingo, resolveu abrir o Template para uma reunião extra. Um provedor ficou revoltado
e gritou: Close! Pagemaker respondeu: Open! Desesperado, o provedor ordenou:
Exit! Mas Aldus sacou uma Pkunzip e decretou: Error, time out. Apavorado, o provedor
trepou numa X-Tree Gold e ficou soltando Power tracks. Vitorioso, Aldus anotou tudo num
Notebook e enviou um Winfax para Macintosh.
Quando Macintosh ia Select All para contar a novidade, um poderoso Intercom disfarçado em
Zoom abriu um Drop Cap e replaced Eudora Light e Microsoft em pessoa. Mal se configuraram,
Micro apontou um IBM com 64 megas de RAM e deletou Macintosh. Nunca se soube a verdade
sobre o saved as DOS amantes.
Hoje, Eudora e Micro vivem felizes em Multimedia, ao lado do pequeno Corel Draw e ao Sound
Blaster de Cake Walk, à custa do Thesauros acumulado nos anos de 92, 93, 94 e Windows 95.
Finalmente, Aldus Pagemaker encontrou a paz conjugal ao lado de Delrina, que convenceu-o a
morar num Modem recém-instalado.
Victor Giudice, em conto inédito, brinca com a linguagem específica da
informática. Só mesmo a literatura para transformar o mundo da informática, habitado
por termos técnicos e aparentemente tão fechado em si mesmo, em poesia. Ou melhor, em
prosa, e boa prosa. Foi inspirado no universo dos computadores que o escritor e crítico
de música clássica do JORNAL DO BRASIL, Victor Giudice, morto em 1997,
escreveu "A volta de Eudora Light Miniconto sujeito à Internet com
personagens soft".
O conto inédito foi encontrado no final do ano passado pelo jornalista Carlos Alberto de
Mattos, amigo de Victor. "Ele produzia muitas coisas sem ter, necessariamente, o
intuito de publicá-las. Este conto é de 1996 e foi feito como um divertimento a partir
de problemas que ele próprio tinha para destrinchar a linguagem do computador",
explica Carlos Alberto.
No período em que trabalhou no Jornal do Brasil, de 1994 a 1997, Giudice se destacou pelo
companheirismo e pelo bom humor que marcava suas histórias. Os casos com que divertia
seus colegas geralmente diziam respeito a duas de suas maiores paixões: os livros e a
música.
Em 1995, foi agraciado com o Prêmio Jabuti pelos contos reunidos em "O Museu Darbot
e outros mistérios", que recebeu o seguinte comentário da presidente da Academia
Brasileira de Letras, a escritora Nélida Piñon: "Victor Giudice é um
escritor contemporâneo completo. Sua busca por uma linguagem mais simples só prova que
deixou de ser um escritor de vanguarda para se tornar um mestre. Já é um
clássico." (Extraído do "Jornal do Brasil" , Segundo Caderno/1998).
Victor Giudice (1934-1997) nasceu em Niterói, no Estado do Rio de Janeiro. Aos
cinco anos de idade mudou-se para São Cristóvão, transformado, segundo a crítica, em
seu "grande sertão ficcional" , onde viveu mais da metade de sua vida. Foi
professor, bancário, jornalista, músico, ensaísta e crítico. A partir de 1968,
intensificou suas atividades como escritor, tendo publicado seis livros: O necrológio
(contos, Editora O Cruzeiro, 1972), Os banheiros (contos, Editora Codecri,1979), Bolero
(romance, Editora Rocco, 1985), Salvador janta no Lamas (contos, Editora José Olympio,
1989), O museu Darbot e outros mistérios (contos, Editora Leviatã,1994) e O sétimo
punhal (romance, Editora José Olympio, 1996).
Salvador janta no Lamas ganhou o Prêmio "Ficção 89", da Associação Paulista
de Críticos de Arte. O museu Darbot e outros mistérios foi agraciado com a maior
distinção literária do país, o Prêmio Jabuti, e foi lançado no Salão do Livro de
Paris em 1998 (Le Musée Darbot et autres mystères, Editions Eulina Carvalho).
Para o teatro, escreveu Baile das sete máscaras, inédito, e o monólogo Ária de
serviço, encenado pela atriz Bete Mendes, no Centro Cultural Banco do Brasil, em 1991.
Compôs e executou ao vivo a trilha sonora da peça Prometeus, do Grupo Mergulho no
Trágico.
Suas atividades como professor incluem, além de oficinas de criação literária, cursos
de Introdução à Ópera, Wagner e Música Sinfônica, ministrados no Centro Cultural
Banco do Brasil e em outras instituições. Participou das Rodas de Leitura, no CCBB, e na
Casa da Leitura e viajou pelo país como conferencista.
Vários de seus contos foram publicados nos Estados Unidos, Argentina, México, Portugal,
Alemanha, Hungria, Polônia, Bulgária, Tchecoslováquia. Uma de suas narrativas mais
populares, O arquivo, foi o conto brasileiro mais publicado no exterior. Outro conto,
Carta a Estocolmo, foi considerado, nos Estados Unidos, um dos quinze melhores trabalhos
de ficção científica de 1983 e consta da antologia Antaeus (The Ecco Press, Nova York,
1983).
Publicou ensaios e resenhas no Jornal do Brasil, O Globo, Folha de São Paulo, O Estado de
São Paulo, Suplemento Literário do Minas Gerais, etc. Durante três anos assinou a
coluna Intervalo, especializada em música erudita, no Jornal do Brasil, tendo sido esta
sua última atividade.
A editora José Olympio planeja a publicação de uma coleção que reunirá todos os seus
contos. Do primeiro volume constarão O museu Darbot e outros mistérios e o romance
inédito e inacabado Do catálogo de flores.