Salvador janta no Lamas

Victor Giudice


"Durante a empresa é que o pavão abre a cauda."
(Mauricio del Giudice)


Por timidez ou não, Salvador sempre foi discreto. Jamais diria aos colegas que sente ojeriza a voltar para casa assim que termina o expediente, depois de ficar trancado nove horas no banco declamando parcelas intermináveis à procura de diferenças irrisórias. Primeiro, porque ninguém compreenderia. E, segundo, por que segundo? Incapaz de inventar outro motivo que sublinhasse o primeiro, Salvador se refugia na incompreensão alheia. As pessoas não entendem os sentimentos. Assim, não gostar de voltar para casa pode parecer aos outros que ele despreza a companhia da mulher e dos filhos, e isso não é verdade. O que Salvador reclama é o direito de respirar a brisa noturna em completa solidão, pensando no que quiser, fantasiando as ruas, os transeuntes, para depois regalar-se na mesa de um restaurante, sem dar satisfações a quem quer que seja.

Pelo menos uma noite em cada mês ele consegue coragem e, sobretudo, dinheiro para realizar o sonho. Coragem, devido à sensação de culpa que lhe corta o coração quando chega em casa às dez e tanto e não sabe o que dizer à mulher. Dinheiro, porque, para Salvador, jantar num restaurante pesa na balança. Mas o remorso dura apenas a meia hora antes do sono. Além do mais, se amanhã ou depois ele se confessasse, teria alguma coisa para contar a Deus. Foi com esse pensamento que saltou do metrô no Largo do Machado e respirou a brisa a caminho do Lamas. Era uma dessas noites de dezembro carioca e dizendo-se dezembro carioca não se precisa acrescentar nada com relação à temperatura. Alguns fregueses reclamavam da refrigeração do restaurante porque esfriava os pratos. No entanto, sentir o contraste entre o calor de dezembro e o frio do Lamas era para Salvador a suprema delícia, o aconchego em pleno verão. Já com o suor congelando sobre a pele, sentou-se numa das poucas mesas vagas, junto à parede lateral, e pediu um chope. Outra alegria era ver o garçom aproximar-se trazendo na bandeja um pedido seu. Se demorasse não tinha importância: a espera aumentava o prazer final. Mas não houve demora. Logo que a bebida pousou em sua frente, ele tratou de pedir o prato preferido: filé ao ponto com batatas fritas, presunto e ervilhas. Em seguida, tomou dois goles de chope, respirou fundo e consolidou a felicidade. Estava só, num restaurante abarrotado de pessoas ruidosas, e podia observar todas elas. Na mesa da direita reparou num homem de costas para ele, acompanhado de uma negra de beleza incorreta e de outra mulher, clara, portadora de todos os requisitos inerentes à sexagenária típica: cabelos brancos, obesidade, óculos bifocais e sorriso opaco. Salvador tem o hábito de circular os olhos pelo ambiente enquanto bebe. Desse modo consegue ver tudo sem que se veja que ele está vendo. Sempre teve medo de ser pego observando alguém. Foi por essa razão que não entendeu quando o homem da direita virou a cabeça e lhe dirigiu um olhar atento. Não durou mais que um segundo, mas foi certeiro e pontiagudo. Salvador sentiu os olhos esverdeados esbarrarem nos seus. Era um moço de vinte anos no máximo. Quase um menino. O rosto fino e esbranquiçado, meio imberbe, os lábios inexpressivos sob um bigode que não se impunha. Salvador não deu importância ao fato e voltou ao chope. Em outra mesa, estava um casal de perfil para ele. Pareciam amantes. O homem, um dançarino de tangos, de cabelos grisalhos e camisa de seda preta, segurava a mão de um anjo esvoaçante, num vestido de viscose branquíssima, visivelmente mais nova que o namorado. A expressão de falsa incredulidade assumida pelo anjo acirrava a paixão do parceiro. Salvador observava-os com toda a comodidade, pois pressentira que em nenhum momento os dois abandonariam a troca de emoções. Eram belos porque pareciam unidos justamente por suas diferenças. Admirou-os por mais de um minuto, e é possível que os admirasse até o final do jantar, caso o rapaz da direita não tornasse a virar a cabeça em sua direção. Dessa vez ele notou que a negra e a sexagenária haviam imitado o gesto do companheiro. Os três olhares se uniram num foco único e atingiram-no por uma fração de tempo que para uma vida é irrelevante, mas para um olhar é uma vida. Engraçado como logo a seguir o trio continuou a conversar como se nada houvesse acontecido. O sorriso da sexagenária permaneceu tão insatisfatório quanto a beleza da negra. Salvador deu uma espiada na copa, mas ainda era cedo para o aparecimento da bandeja com o filé. Achou graça dos olhares e se concentrou em outra mesa, espremida por três gordos, com as papadas se derramando sobre os colarinhos. Sem trocar uma palavra, devoravam montanhas de batatas cozidas. Um deles passou os olhos em Salvador, sem notar que estava sendo observado. A voracidade dominava os três a tal ponto, que nem mesmo as trombetas do Juízo Final seriam capazes de abalá-los. Mas ai daquele que tentasse subtrair uma batata de seus pratos.

Mais ao fundo, ele vislumbrou os personagens de outra mesa singular. Aquilo, sim, chamava a atenção. Um velho com os cabelos pintados de um preto inescrupuloso, a pele ressequida e quebradiça, uma loura um pouco antes dos quarenta e muito depois dos trinta, despenteada e sem maquiagem, e uma menina mirrada de seis ou sete anos. Só a mulher e a criança comiam. Aliás, sem grande apetite. O velho tinha um prato intocado à frente e, além de não comer, fazia um esforço tragicômico para não dormir, sem que as duas tomassem o mínimo conhecimento. Era como se já estivessem habituadas à cena. Às vezes a cabeça do homem tombava e se interrompia a poucos centímetros do prato. As primeiras quedas assustaram Salvador. Pareceu-lhe que o sujeito acabaria mergulhando a cara na comida. Depois a repetição virou divertimento. Por uma espécie de instinto, assim que o rosto se avizinhava do prato, os olhos se entreabriam e davam o sinal para a cabeça tornar a se erguer. Mas logo que atingia o ponto mais elevado, estremecia, as pálpebras se fechavam e o pescoço dobrava, permitindo outro desabamento. Em poucos instantes, o espetáculo fez com que Salvador se alienasse do restaurante e de toda aquela gente que o enchia de vida. Em sua visão só existia o homem da cabeça balouçante. Sorriu como uma criança diante da primeira girafa até que, numa reação automática, levou a tulipa de chope à boca e circulou os olhos: pronto. A mesa da direita desfechava outro ataque. O rapaz, a negra e a sexagenária estavam olhando. Expectantes. Como se ele devesse alguma satisfação pelos desequilíbrios do Lamas, ou como se quisessem transmitir alguma mensagem intraduzível em palavras. Passado algum tempo, a negra desviou os olhos para a taça de sorvete, mas o rapaz e a sexagenária continuaram olhando. Salvador tentou concentrar-se no velho sonolento. Impossível. As pupilas teimavam em voltar à mesa da direita. E voltaram. Apenas a sexagenária observava. O rapaz estava segredando alguma coisa à negra. Salvador esvaziou a tulipa e fez um gesto ao garçom. Junto com o chope veio uma cesta cheia de fatias de pão e um pratinho de manteiga. Sem demonstrar preocupação, ele passou manteiga numa das fatias, levou-a até os lábios, mas não chegou a mordê-la: um dos três gordos, justamente o maior de todos, o que estava de costas, parara de comer e se voltara de corpo inteiro para Salvador. Ato contínuo, encaixou a cara redonda num par de lentes de miopia e investigou-o de alto a baixo, como quem diz: então é você que fica bisbilhotando nosso jantar? Concluído o exame, tirou os óculos, guardou-os no estojo, virou-se para a frente e recomeçou a comer. Salvador engoliu o pão e olhou para a copa. O filé não aparecia, mas, encostado à porta, um garçom se imobilizara, com uma bandeja cheia de pratos vazios equilibrada numa das mãos e com os olhos fixos nele. Salvador baixou a cabeça, pegou outra fatia de pão e largou-a na cesta. Preferiu tomar um gole de chope e ficar apreciando a espuma. Era melhor não arriscar olhares. Permaneceu assim durante cinco minutos. Depois, timidamente, deu uma olhada para a mesa da direita e relaxou: a negra terminara o sorvete, enquanto o rapaz e a sexagenária tomavam café. Conversavam com naturalidade e só trocavam olhares entre eles. O alívio aumentou quando ouviu os três gordos estourarem uma gargalhada em comemoração à chegada de outra ração de batatas. Salvador quase riu também. Afinal, estava tudo nos eixos. Só faltava o filé. Inspecionou a copa. O tal garçom continuava imóvel, com a bandeja repleta de pratos vazios e talheres sujos. O olhar, imutável. Achar que não era admissível que um restaurante como o Lamas contasse com um empregado que ficava o tempo todo parado como um idiota admirando os fregueses foi um pensamento inútil. O certo é que a imobilidade do homem com a bandeja coberta de pratos e talheres tornou-se o ponto de partida dos acontecimentos que transformaram a noite de Salvador no episódio mais marcante de sua vida, embora ele talvez nunca desse por isso. O fato é que dali para a frente — ou para trás — todos os parafusos responsáveis por sua estabilidade emocional afrouxaram. Quando finalmente surgiu o filé com as batatas e o presunto, ele não percebeu a ausência das ervilhas. Espetou o garfo na carne, cortou um pedaço, meteu na boca, mastigou e engoliu, fazendo o possível para não demonstrar seu verdadeiro estado de espírito. Apesar da vigilância do garçom com os pratos vazios, Salvador tentou uma rápida inspeção ao fundo do restaurante e teve um sobressalto, ao descobrir um casal silencioso que se embriagava com chope e steinhäger. Tanto o homem quanto a mulher estavam olhando para ele. Ou não? Podia ser que estivessem acompanhando um garçom que havia passado rente à mesa de Salvador com a bandeja coberta de tulipas. Mas, não. O rapaz fez a volta numa coluna e se afastou em outra direção, enquanto os olhos do casal se mantinham na mesma: Salvador. Agora ele contava com três contemplações distantes e fixas: as duas do par de embriagados e a do garçom paralisado junto à copa, equilibrando os pratos. Em todo caso, não havia nada a temer e muito menos a fazer. O casal estava bêbado e o garçom devia estar esperando a copa esvaziar para entrar e largar a bandeja. Afinal, o movimento do Lamas não é sopa. E a mesa da direita? Por que razão naquele momento o rapaz e a negra teriam voltado a encará-lo com a mesmíssima seriedade de alguns minutos atrás? A sexagenária examinava a conta, enquanto os dois olhavam descaradamente. Foi demais. Salvador largou o garfo e a faca e se dirigiu ao toalete. Talvez houvesse alguma coisa estranha em sua cara, nos cabelos ou até na roupa. Quem sabe? Aproximou o rosto do espelho, puxou as pálpebras inferiores para baixo, virou a cabeça para um lado e para o outro, tirou o paletó, sacudiu-o, depois a gravata e a camisa. Só não tirou as calças, porque no instante em que desabotoava o cinto, a porta se abriu e deu entrada a uma dama com um metro e noventa de altura, peruca ruiva e braços musculosos: um travesti. Desajeitado, Salvador procurou explicar a nudez com uma ginástica para coçar as costas. O travesti não lhe deu a mínima atenção. Salvador se vestiu, ajeitou os cabelos e saiu. Ao entrar no salão, as pessoas sentadas em frente ao toalete voltaram-se para ele, atentas ao menor gesto seu. Ele fingiu que não via, mas durante o trajeto de volta à mesa distinguiu o movimento de diversas cabeças para apreciarem sua passagem. Pensou em fugir e nunca mais aparecer ali, mas se lembrou da conta. É claro que aquele batalhão de garçons impediria sua fuga. Já sentado, comeu um pedaço de filé. Os fregueses tinham razão: a refrigeração esfriava a comida. Bebeu metade do chope e o passeio dos olhos comprovou a realidade. O rapaz da direita, a sexagenária, a negra, os três gordos, o velho dorminhoco, a loura despenteada, a menina magricela, o casal de bêbados, os garçons, o travesti, seus acompanhantes, o anjo e o namorado, o gerente, enfim, todos os seres que compunham o universo do Lamas olhavam para ele, insistentes, como se dele pudesse brotar uma justificativa para suas presenças ali, naquele restaurante, naquela noite de dezembro carioca. Como prova irrefutável de que os olhares se dirigiam a ele — e só a ele — chegou a ver alguns clientes tocarem o companheiro com o cotovelo e levantarem o queixo para apontá-lo. A loura despenteada, por exemplo, sacudiu o velho sonolento até acordá-lo por completo. Salvador não saberia dizer o que lhe parecia pior. Se os olhares ou o silêncio que os acompanhava. Porque assim que alguém começava a olhá-lo, parava de falar e de se mexer, transformando-se numa estátua e reduzindo às pupilas o único indício de vida. Salvador sentiu o suor nas têmporas e nas axilas. Por que faziam aquilo? Que é que estariam querendo dele? Por outro lado, por que se apavorar daquele jeito? Talvez tudo fizesse parte de uma brincadeira tramada em conjunto pelos freqüentadores do Lamas. Ele bem que poderia passar a perna em todos eles. Era só pagar a conta e dar uma banana monumental para aquele bando de gozadores. Mas, durante um tempo desmedido, foi incapaz de levantar um dedo. Suas emoções transitavam entre o ódio e a humilhação, com paradas obrigatórias no medo, na esperança e numa inexplicável hipocondria. De uma hora para outra, tornou-se consciente de todos os órgãos do corpo e passou a temer pelo mau funcionamento de algum deles. Principalmente do coração, cujo ritmo se acelerava. Enquanto isso, as pessoas olhavam, indiferentes ao tempo e ao final dos tempos. Enfim, Salvador teve a estúpida certeza de que não se tratava de uma brincadeira. Nesse momento, o ódio balançou entre o rapaz da direita, primeiro a encará-lo, e o gordo que o inspecionara com os óculos de miopia. De repente, ele viu naquela carantonha esférica e rosada a reencarnação de algum mandarim impiedoso, ocidentalizado à custa das iguarias do Lamas. Se pudesse, teria estrangulado o gordo ou teria estrangulado todos os fregueses daquela noite. E eles o olhavam, paralíticos, silenciosos e ameaçadores. De que seriam capazes, caso Salvador ensaiasse uma retirada? Sem dúvida iriam linchá-lo, rasgá-lo em pedaços e devorar suas vísceras como sobremesa. O velho dorminhoco mantinha as pálpebras abertas. A negra apertava entre o indicador e o médio da mão direita um cigarro, cuja brasa queimaria sua epiderme em questão de minutos. Mas não se movia. De longe, Salvador percebeu que o travesti apresentava uma expressão que ia além da seriedade. Os lábios se estendiam por dois ou três milímetros, somente num canto da boca, e fabricavam um cinismo sob medida. Nunca teria visto esses e outros pormenores se não fosse ele próprio o centro das atrações. Divisou quatro mulheres lindíssimas e notou que as quatro usavam broches, colares, brincos e anéis de marcassita. Reparou numa jovem que se sentara com a saia arregaçada até os quadris, exibindo na coxa visível uma tatuagem arroxeada. Na mesa vizinha à do casal de embriagados, havia dois senhores de cabelos ralos, elegantemente vestidos e de mãos dadas, como namorados recentes. Constatou que os três gordos, um segundo antes de se fixarem nele, haviam recebido mais uma travessa de batatas, três tulipas e dois cálices de steinhäger. Assustou-se com o olho solitário sob um boné azul, numa cara alongada, de feições duras. A outra vista se achava coberta por uma venda negra, como as dos piratas. Surpreendeu-se com a calma do gerente, que, antes de ficar olhando para ele, teve o cuidado de apoiar os cotovelos no balcão e descansar o queixo sobre as falanges. A pose demonstrava a intenção de permanecer em atitude contemplativa por mais de um século. Salvador sentiu a derrota. Não havia uma única mesa vazia e todas olhavam para ele, silenciosas e eternas.

Mas um pânico meio desajeitado adquiria forma em seu cérebro. Uma forma disforme que aumentava de tamanho e que poderia, em último caso, ser a solução. A tortura já se prolongava por meia hora, quando Salvador percebeu a existência de um atalho formado pela fila de mesas iniciada com a do rapaz da direita. Logo adiante havia um caminho que conduzia ao toalete, outro em direção à copa e um terceiro que se ligava ao corredor da saída. Se ele se levantasse de um salto, em poucos segundos estaria na rua, e a surpresa talvez não deixasse as pessoas impedirem sua passagem, caso fosse essa a intenção geral. Esperou um minuto, convocou todas as forças, ergueu a tulipa com naturalidade e encostou-a nos lábios. Largou o copo e apanhou um guardanapo de papel. Amarrotou-o, saltou da cadeira, atirou-se na trilha formada pelas mesas, tropeçou num pé de sandália, equilibrou-se, passou pela copa, viu as últimas caras que o fitavam, ganhou o corredor da saída e suspirou de pernas bambas e vitorioso no asfalto da Marquês de Abrantes. Livre do Lamas. Livre do pesadelo. Livre da liberdade de passar uma noite em cada mês realizando sonhos libertários.

Só o ritmo do coração ainda o amedrontava. Mas quando chegou à primeira esquina, a vida e o coração voltaram ao normal. Arriscou um olhar para trás. Na entrada do Lamas tudo parecia em ordem. Degustou o susto e a coragem para se desfazer dele, à medida que respirava a brisa da noite pelo caminho de volta ao metrô. Ainda não eram dez horas. Quando entrasse em casa, se a mulher viesse com perguntas, ele teria o que contar. Se ela não acreditasse, azar. Que é que se vai fazer? Nem sempre uma realidade é tão real quanto outras.

Foi no carro do metrô, vazio àquela hora, que Salvador se lembrou outra vez da conta. Quantos chopes teria tomado? Havia o pão, a manteiga, o filé com as batatas e o presunto. Era uma desonestidade não pagar. É claro que o gerente e os garçons estariam dizendo cobras e lagartos a seu respeito. O sujeito se senta num restaurante, pede chope, filé et cetera, e só porque meia dúzia de curiosos fica olhando, ele se levanta e sai correndo sem pagar a despesa? Salvador se sentiu ridículo. Na verdade, não tinha havido nada demais. "Eu é que vivo me assustando à toa", pensou. Tudo por causa dessa maldita timidez. Saltou na Central e pegou o metrô de volta para o Largo do Machado. Refez a caminhada com o crânio recheado de intenções burocráticas e invadiu o Lamas à procura do gerente. Mas o fogo apagou na entrada do salão, porque novo silêncio dominava a noite. O gerente, os garçons e todos os fregueses — os mesmos de antes — dirigiam os olhos a algum ponto. Que ponto seria esse? Não foi difícil descobrir. Os olhares que há poucos instantes por um triz não o destruíram, contemplavam agora um dos devoradores de batatas, precisamente o mais gordo dos três, o das lentes de miopia, o mandarim ocidentalizado. Salvador percebeu que até os dois colegas de obesidade encaravam o amigo. Apesar de ter abaixado a cabeça, o gordo levantava os olhos ininterruptamente, como se tramasse um contra-ataque. Bafejado pelas alegrias da vingança, Salvador passou a contemplar o mandarim.

Súbito, o gordo ergueu o rosto, colocou os óculos e ficou de pé. Desfechou às pessoas mais próximas um olhar de quem enxerga e, valendo-se do polegar e do indicador, pegou uma das batatas da travessa ainda intacta. Como um artista, executou um gesto amplo e circular para exibi-la aos interessados. A batata desapareceu na palma de sua manzorra. Num movimento rápido, a mão esquerda cobriu e descobriu a direita. Em lugar da batata, ele segurava a haste de uma rosa branca, recém-desabrochada, cujo perfume se esparzia pelo restaurante. Com uma inesperada elegância para um corpanzil de mais de cem quilos, o gordo arremessou a flor a uma das quatro damas das jóias de marcassita. O gesto provocou discretas exclamações. O gordo se animou. Levantou as mãos e mostrou-as espalmadas, para provar que estavam completamente vazias. Então, esfregou uma na outra e tirou um ás de ouros do nada. Prendeu-o entre os dedos, girou o pulso e a carta desapareceu. A mão tornou a se mover e o ás ressurgiu acompanhado de um nove de espadas. Outro giro no ar e as duas cartas eram quatro. As quatro, dez. As dez, dezessete. As dezessete, quarenta. As quarenta, setenta e oito. Um tarô. Separou os vinte e dois arcanos, entregou-os à menina magricela e passou as cinqüenta e seis cartas que sobraram, da mão esquerda para a direita: sumiram todas. Pegou os vinte e dois arcanos, embaralhou-os e tirou um. Era a Morte. Salvador teve a impressão de que o mandarim mostrara a carta a ele, como uma advertência. A seguir, largou os arcanos restantes com a menina, rasgou a Morte em quatro pedaços, atirou-os para o alto e aparou-os num prato vazio. A carta caiu inteira. Escolheu outro arcano. A Temperança, com uma figura de mulher alada, que passa o líquido de um jarro para outro. Entregou a carta à negra, levantou uma tulipa cheia de chope e entornou a bebida em outra vazia. Ao ser derramado, o chope se tornou rubro como sangue. Fez a operação inversa: o sangue virou leite. Tornou a derramar: o leite virou água. A água virou vinho. O vinho virou sangue e o sangue virou chope. O gordo bebeu a tulipa inteira. Agora as exclamações dominavam o ambiente. As pessoas sorriam. Salvador sentiu inveja do mandarim. Não satisfeito, o gordo fixou o cabo de uma faca entre os dentes e virou a cabeça para trás até a lâmina ficar vertical. Sem olhar para baixo, segurou a travessa de batatas com uma das mãos e um cálice de steinhäger com a outra. Mas Salvador não conseguiu assistir ao final do número. Anônimo e amargo, foi-se embora. A dois quarteirões do Lamas, ouviu uma retumbante salva de palmas.

Pegou o último metrô e voltou para casa. Graças a Deus a mulher já estava dormindo. Se ela se metesse a fazer perguntas, ele não saberia o que dizer.


Victor Giudice, no período em que trabalhou no Jornal do Brasil, de 1994 a 97, se destacou pelo companheirismo e pelo bom humor que marcava suas histórias. Os casos com que divertia seus colegas geralmente diziam respeito a duas de suas maiores paixões: os livros e a música.

Em 1995, ele ganhou o Prêmio Jabuti pelos contos reunidos em "O Museu Darbot e outros mistérios", que recebeu o seguinte comentário da presidente da Academia Brasileira de Letras, a escritora Nélida Piñon: "Victor Giudice é um escritor contemporâneo completo. Sua busca por uma linguagem mais simples só prova que deixou de ser um escritor de vanguarda para se tornar um mestre. Já é um clássico."

Victor Giudice (1934-1997) nasceu em Niterói, no Estado do Rio de Janeiro. Aos cinco anos de idade mudou-se para São Cristóvão, transformado, segundo a crítica, em seu "grande sertão ficcional" , onde viveu mais da metade de sua vida. Foi professor, bancário, jornalista, músico, ensaísta e crítico. A partir de 1968, intensificou suas atividades como escritor, tendo publicado seis livros: Necrológio (contos, Editora O Cruzeiro, 1972), Os banheiros (contos, Editora Codecri,1979), Bolero (romance, Editora Rocco, 1985), Salvador janta no Lamas (contos, Editora José Olympio, 1989), O museu Darbot e outros mistérios (contos, Editora Leviatã,1994) e O sétimo punhal (romance, Editora José Olympio, 1996).

Salvador janta no Lamas ganhou o Prêmio "Ficção 89", da Associação Paulista de Críticos de Arte. O museu Darbot e outros mistérios foi agraciado com a maior distinção literária do país, o Prêmio Jabuti, e foi lançado no Salão do Livro de Paris em 1998 (Le Musée Darbot et autres mystères, Editions Eulina Carvalho).

Para o teatro, escreveu Baile das sete máscaras, inédito, e o monólogo Ária de serviço, encenado pela atriz Bete Mendes, no Centro Cultural Banco do Brasil, em 1991. Compôs e executou ao vivo a trilha sonora da peça Prometeus, do Grupo Mergulho no Trágico.

Suas atividades como professor incluem, além de oficinas de criação literária, cursos de Introdução à Ópera, Wagner e Música Sinfônica, ministrados no Centro Cultural Banco do Brasil e em outras instituições. Participou das Rodas de Leitura, no CCBB, e na Casa da Leitura e viajou pelo país como conferencista.

Vários de seus contos foram publicados nos Estados Unidos, Argentina, México, Portugal, Alemanha, Hungria, Polônia, Bulgária, Tchecoslováquia. Uma de suas narrativas mais populares, O arquivo, foi o conto brasileiro mais publicado no exterior. Outro conto, Carta a Estocolmo, foi considerado, nos Estados Unidos, um dos quinze melhores trabalhos de ficção científica de 1983 e consta da antologia Antaeus (The Ecco Press, Nova York, 1983).

Publicou ensaios e resenhas no Jornal do Brasil, O Globo, Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, Suplemento Literário do Minas Gerais, etc. Durante três anos assinou a coluna Intervalo, especializada em música erudita, no Jornal do Brasil, tendo sido esta sua última atividade.

A editora José Olympio planeja a publicação de uma coleção que reunirá todos os seus contos. Do primeiro volume constarão O museu Darbot e outros mistérios e o romance inédito e inacabado Do catálogo de flores.

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