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Arnaldo Nogueira Jr



valter hugo mãe
(por Nélio Paulo)


dezanove

valter hugo mãe



as mulheres só são belas porque têm parecenças com os homens, como os homens são a imagem de deus. não é heresia, pensa bem, se se parecessem mais com cabras do que com homens nem natureza para nós teriam, precisam de nos parecer sem alcançar igualdade, que para isso estamos cá nós. e depois, beleza assim até aumentada, o que lhes tirou deus em préstimo de espírito deu-lhes em curvas e cor, servem per feitamente para nos multiplicar e muito agradar. mas isso da inteligência é como te disse, cuidado com o que sabem por que acham mais do que sabem. pois a mim bastar-me-ia mulher burra, até calada, pouco fazedora ou aviada, que servis se só para noites de companhia e algum conforto de olhares quando queremos tanto ter cúmplices delicadas em nossas felicidades e tristezas, respondeu o dagoberto. falas de amores, compreendo o que dizes, deu-nos a natureza esta coisa do coração, uma espécie de tontaria que gostamos de ter. e é como estou, assim estou pela minha ermesinda. é bela. a mais bela que há. já lhe fizeste filhos, ele perguntou. só de tentar, mas há pouco nos casámos, não há pressa de a prenhar. quando estiver cheia, logo notas. será quando deus quiser. para isso ele que conte, a mim dá-me só pressa do prazer.

calámo-nos longamente, era notório que o dagoberto estava ignorante de mulheres e, cada palavra que eu dizia, poderia ser-lhe uma distância ainda mais real do seu desejo, medindo lonjura que tivesse de o concretizar. e o aldegundes murmurou em segredo comigo, estivesse connosco em terra de dom afonso e punha-se aviado na teresa diaba, incrível é que não deem doidas varridas nesta terra de rei. sim, incrível era que gente estropiada na terra de el-rei fosse só corpo escangalhado, de cabeça ninguém nos parecia assim. talvez pusessem a ferros com urgência quem perturbasse um sossego que fosse. era uma limpeza imediata, como se ainda se queimassem as pessoas que não diziam coisa de coisa.

noite dentro acalmámos tudo, primeira noite em que, sem pegar mal algum ao dagoberto, dormiríamos em posições de vontade própria, e o dagoberto já só se mantinha connosco porque o aldegundes o garantiu como ajudante para cada efeito. o bartolomeu ganiu qualquer despeito, mas foi assim, cada pedido de necessidade artística que se impusesse era ao dagoberto que se fazia, e logo ele negociava com o outro, como tratador dos assuntos do aldegundes e nosso, assim ficou. fechei os olhos e chorei, a minha ermesinda, puta de tanta vocação, estaria revirada na cama de impaciência, esperando o sol repor-se para correr a oferecer-se a dom afonso. e el-rei como era cruel, mantendo-me ali em inutilidade para meu mal grande e sofrimento, rezei, deus meu, leva-me daqui para casa, que braços da minha mulher se abraçam de homem que não sou eu. e contei-lhe a verdade, a minha mulher não me ama e amo-a eu como um desesperado.

desesperava pelo amor, confirmei tudo, manhã depois, acordados de sobriedade, conversámos a caminho do palácio, o aldegundes ensonado e triste pela falta de liberdade. não te deixes nessa tristeza, dentro de pouco tempo estaremos soltos de tanta pintura, tão rápido fazes aparecer as imagens quanto nos mandarão embora, confia. e continuei, se dom afonso me come a mulher, não me serve, arrancarei do peito o coração se for preciso. e nem pai de filhos com ar dele serei, farei como o meu, rebento-os no chão puxados ainda do ventre com uma mão que os encontre onde se esconderem dentro dela.

cântaros na mão, entrámos e lamentámo-nos novamente e el-rei disse novidades, tenho bruxa ainda maior que curará de remendo que vos fizeram. e remendados com cântaros nos víamos dependentes, era verdade, mas o que poderia ser feito para apagar o fogo que aquela água escondia. e nosso espanto foi, sala dentro de el-rei imponente, vista à luz do dia com tapume de túnica a toldar-lhe toda a pele, estava ela, a mulher queimada, gertrudes, autora da nossa pena, e por mão de majestade ali se chegou a nós vitoriosa e quase sorridente.

e eu recuei e amedrontei o aldegundes que recuou e percebeu e nada dissemos. disse ela, mal vos fizeram para grande obra de vos matar, cântaro assim suga-vos alma para os confins do mar, que dizes, mulher, perguntei. que verteis alma como tontos para o fundo do mar, onde se amarfanham to dos os espíritos em memória de dilúvio, ao tempo da água voltais, para morrerdes iguais ao primeiro fim do mundo.

el-rei torceu os ares e questionou, que dizeis, gertrudes, sois bruxa de grande feito, vi-vos ontem e não duvido, mas, em segredo que vos peço, destrinçai-me regras dessa história que nada compreendo do que dizeis, e ela disse, majestade, se encostardes mão ao ouvido, que ouvis. o mar, respondeu. o mar dentro da cabeça, é o que dá o som do espírito, o som da alma. e que significais com isso, perguntei. que o mar tem poderes de incorporar a alma se mesclado com ela se faz. e alma que se perca nele não sobe ao céu, que o céu aberto no mar se espelha, e só em terra come, que é isso, perguntou el-rei. o que vos digo, respondeu, no mar come o inferno, que ali vai pensando pastar no paraíso se em verdade tem o aspecto do céu, e este na terra pasta.

sério isso, perguntou mais el-rei. muito sério, respondeu. que no paraíso não se encontram almas de pescadores ou coisas sem ar. encostai ouvido à boca desse barro e escutai a que vos soa, disse ela. ao mar, gritei, ao fundo do mar, onde tereis fim se acaso não vos soltardes de tamanha armadilha, rápido retirámos mão de dentro dos cântaros e hesitámos. poderia ser que nos enganasse simplesmente, tentada a levar a cabo sua queima de nós os dois. exigi nossos cântaros cheios, seguros com as duas mãos sem se arredarem de nós, e solicitei em brados, já fortemente aqueço, fazei feitiço que sinta, dizei o que nos cure. e ela nada fez, insisti e el-rei aqueceu de proximidade connosco e afligiu-se, dizei o que nos cure antes que fiquemos todos cozidos, e ela juntou as mãos numa algibeira e retirou-a com pedras pequenas e jogou-as ao chão e mais retirou terra e jogou-a ao chão e levantou os braços e baixou como se pesassem muito e disse, que cada pedra seja falésia poderosa contra o mar e vos retire de sob as águas se em verdade vos encontrais fora delas. depois, voltou a re colher as mãos à algibeira e a fazê-las surgir com punhado maior de terra que novamente jogou ao chão e disse, segurai-vos na terra fértil, onde o fogo não germina senão em forma de vida, e juntai-vos, sereis todos os três um só.

e esfriámos tudo ao normal e eu assustei, que juntos os três éramos quem, baltazar e aldegundes serapião mais dagoberto, e gritei mais, acudam-nos de tudo, estamos de alma vendida ao diabo, porque era certo, fogo que germina na ter ra só pode ser coisa do diabo, que a vida que deus dá germina como sopro de vento e vem do céu. e foi como se soube, gritos e mais gritos e, posta a ferros, a mulher queimada não fugiu e também não fez mais nada, riu-se como quem alcança um objetivo, el-rei nos esconjurou e negou ter levado ao palácio bruxa alguma a seu mando. e estávamos frescos de feitiço mas quentes de cabeça, era sem dúvida o que nos fez, caminho até ali nos enganara, e entre o fogo do inferno e as águas do mar fez-nos andar até nos restituir à terra com vício de morrer sem salvação e colados ao dagoberto, que deitou mãos para trás e abriu os olhos desfeito de medo. havíamos percorrido as coisas naturais e mais que houvesse acabara. estávamos perdidos do fogo, da água, da terra, só o ar nos faltava, o sopro de deus com certeza absoluta.


*A presente edição mantém a grafia do texto original.


valter hugo mãe, poeta, romancista, artista plástico e cantor nasceu em 25 de setembro de 1971 na cidade de Saurimo em Angola. Vencedor do Prêmio Literário José Saramago em 2007, foi saudado pelo grande escritor como “uma revolução”, um verdadeiro “tsunami literário”. Como poeta, publicou “silencioso corpo de fuga”; “o sol pôs-se calmo sem me acordar”; “entorno a casa sobre a cabeça”; é autor dos romances: “o nosso reino”; “o remorso de baltazar serapião”; “o apocalipse dos trabalhadores” e “a máquina de fazer espanhóis”. Publicou, também, livros infantis e juvenis “a verdadeira história dos pássaros”, “a história do homem calado” e “as mais belas coisas do mundo e o rosto”.


O texto acima foi extraído do livro “o remorso de baltazar serapião”, editora34 – São Paulo (SP), pag. 135.

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