brincávamos a cair nos braços um do outro

valter hugo mãe



brincávamos a cair nos
braços um do outro, como faziam
as actrizes nos filmes com o marlon
brando, e depois suspirávamos e ríamos
sem saber que habituávamos o coração à
dor. queríamos o amor um pelo outro
sem hesitações, como se a desgraça nos
servisse bem e, a ver filmes, achávamos que
o peito era todo em movimento e não
sabíamos que a vida podia parar um
dia. eu ainda te disse que me doíam os
braços e que, mesmo sendo o rapaz, o
cansaço chegava e instalava-se no meu
poço de medo. tu rias e caías uma e outra
vez à espera de acreditares apenas no que
fosse mais imediato, quando os filmes acabavam,
quando percebíamos que o mundo era
feito de distância e tanto tempo vazio, tu
ficavas muito feminina e abandonada e eu
sofria mais ainda com isso. estavas tão
diferente de mim como se já tivesses
partido e eu fosse apenas um local esquecido
sem significado maior no teu caminho. tu
dizias que se morrêssemos juntos
entraríamos juntos no paraíso e querias
culpar-me por ser triste de outro modo, um
modo mais perene, lento, covarde. Eu
amava-te e julgava bem que amar era
afeiçoar o corpo ao perigo. caía eu
nos teus braços, fazias um
bigode no teu rosto como se fosses o
marlon brando. eu, que te descobria como se
descobrem fantasias no inferno, não
queria ser beijado pelo marlon brando e
entrava numa combustão modesta que, às
batidas do meu coração, iluminava o meu
rosto como lâmpada falhando

a minha mãe dizia-me, valter tem cuidado, não
brinques assim, vais partir uma perna, vais
partir a cabeça, vais partir o
coração. e estava certa, foi tudo verdade




*grafia do texto original.


valter hugo mãe, poeta, romancista, artista plástico e cantor nasceu em 25 de setembro de 1971 na cidade de Saurimo em Angola. Vencedor do Prêmio Literário José Saramago em 2007, foi saudado pelo grande escritor como “uma revolução”, um verdadeiro “tsunami literário”. Como poeta, publicou "contabilidade “silencioso corpo de fuga”; “o sol pôs-se calmo sem me acordar”; “entorno a casa sobre a cabeça”; é autor dos romances: “o nosso reino”; “o remorso de baltazar serapião”; “o apocalipse dos trabalhadores”, “a máquina de fazer espanhóis” e "o filho de mil homens". Publicou, também, livros infantis e juvenis “a verdadeira história dos pássaros”, “a história do homem calado” e “as mais belas coisas do mundo e o rosto”.

Mais informações: www.valterhugomae.com


O texto acima foi extraído do livro
'contabilidade' , poesia recolhida 1996-2010, Alfaguara, 2010.


[ Voltar ]

RESPEITE OS DIREITOS AUTORAIS E A PROPRIEDADE INTELECTUAL
Copyright © 1996 PROJETO RELEITURAS. É proibida a venda ou reprodução de qualquer parte do conteúdo deste site.