Cogito
Torquato Neto
eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora
eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim.
Torquato Pereira de Araújo Neto nasceu em Teresina (PI), no dia 09
de novembro de 1944. Foi contemporâneo de Gilberto Gil no colégio em que estudou,
em Salvador, tornando-se amigo do compositor e conhecendo também os irmãos Caetano
Veloso e Maria Bethânia. Em 1966 mudou-se para o Rio
de Janeiro, começando seus estudos de Jornalismo. Mesmo sem ter concluído o curso,
iniciou-se na profissão trabalhando em diversos jornais cariocas, tendo criado e redigido
a coluna "Geleia Geral" no jornal carioca "Última Hora". Um dos
criadores do movimento tropicalista, é o autor de inúmeras letras de músicas de
sucesso, entre as quais destacamos "Mamãe, Coragem", "Geléia Geral",
"Domingou", "Louvação", "Pra dizer adeus", "Rancho da
rosa encarnada" e "Marginália II".
Em 10 de novembro de 1972, suicidou-se deixando o seguinte bilhete: "Tenho saudade,
como os cariocas, do dia em que sentia e achava que era dia de cego. De modo que fico
sossegado por aqui mesmo, enquanto durar. Pra mim, chega! Não sacudam demais o Thiago,
que ele pode acordar".
Em 1973, ocorreu a publicação póstuma de seu livro "Os Últimos Dias de
Paupéria", organizado por Ana Maria Silva Duarte e Waly Salomão. Três anos depois,
alguns de seus poemas foram incluídos na antologia "26 Poetas Hoje", organizada
por Heloísa Buarque de Hollanda. Em 1997, foram publicados quatro de seus poemas na
antologia bilíngüe "Nothing the Sun Could Not Explain", organizada por Michael
Palmer, Régis Bonvicino e Nelson Ascher.
O poema acima foi publicado no livro "Os Últimos Dias de Paupéria", Max
Limonad - Rio de Janeiro, 1973, e selecionado por Ítalo Moriconi para figurar no
livro "Os cem melhores poemas brasileiros do século", Objetiva - Rio de
Janeiro, 2001, pág. 269.
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