Fio de vida
Thiago de Mello
Já fiz mais do que podia
Nem sei como foi que fiz.
Muita vez nem quis a vida
a vida foi quem me quis.
Para me ter como servo?
Para acender um tição
na frágua da indiferença?
Para abrir um coração
no fosso da inteligência?
Não sei, nunca vou saber.
Sei que de tanto me ter,
acabei amando a vida.
Vida que anda por um fio,
diz quem sabe. Pode andar,
contanto (vida é milagre)
que bem cumprido o meu fio.
Na tarde em que as coronárias
oclusas, entristecidas, me pedem para cantar. julho/98
Thiago de Mello nasceu na cidade de Barreirinha, no coração do Amazonas, no
dia 30 de março de 1926. Em Manaus, capital do Estado, fez seus primeiros estudos.
Mudou-se para o Rio de Janeiro (RJ), onde cursou a Faculdade de Medicina até o quarto
ano. Acabou optando por deixar os estudos médicos e dedicou-se à poesia. Conhecido
internacionalmente por sua luta em prol dos direitos humanos, pela ecologia e pela paz
mundial, o autor foi perseguido pela ditadura militar implantada no Brasil em 1964. Foi
obrigado a deixar sua terra, tendo se exilado no Chile, até a queda de Salvador Allende.
Seus trabalhos foram publicados no Chile, Portugal, Uruguai, Estados Unidos da América,
Argentina, Alemanha, Cuba, França e outros mais. Traduziu para o português obras de
Pablo Neruda, T. S. Elliot, Ernesto Cardenal, César Vallejo, Nicolas Guillén e Eliseo
Diego.
Algumas obras do autor:
Poemas:
Silêncio e Palavra, 1951
Narciso Cego, 1952
A Lenda da Rosa, 1956
Vento Geral, 1960 (reunião dos livros anteriores e mais dois inéditos: Tenebrosa Acqua e
Ponderações que faz o defunto aos que lhe fazem o velório)
Faz Escuro, mas eu Canto, 1965
A Canção do Amor Armado, 1966
Poesia comprometida com a minha e a tua vida, 1975
Os Estatutos do Homem, 1977 (com desenhos de Aldemir Martins)
Horóscopo para os que estão Vivos, 1984
Mormaço na Floresta, 1984
Vento Geral Poesia 1951-1981, 1981
Num Campo de Margaridas, 1986
De uma Vez por Todas, 1996
Prosa:
Notícia da Visitação que fiz no Verão de 1953 ao rio Amazonas e seus Barrancos,
1957
A Estrela da Manhã, 1968;
Arte e Ciência de Empinar Papagaio, 1983
Manaus, Amor e Memória, 1984
Amazonas, Pátria da Água, 1991 (edição de luxo, bilíngüe (português e inglês), com
fotografias de Luiz Cláudio Marigo).
Amazônia A Menina dos Olhos do Mundo, 1992
O Povo sabe o que Diz, 1993
Borges na Luz de Borges, 1993.
Discos:
Poesias de Thiago de Mello, 1963
Die Statuten des Menschen. Cantata para orquestra e coro. Música de Peter Jansens, 1976
Thiago de Mello, Palabra de esta América. Casa de las Américas. La Habana, 1985
Mormaço na Floresta. Locução do autor, 1986
Os Estatutos do Homem e Poemas Inéditos, 1992
Poema extraído do livro "Campo de milagres", Bertrand Brasil - 1998, pág. 95.
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