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Passar uma tarde em Itapuã
com Vinicius de Moraes
Tasso Franco
Como diria o inesquecível poetinha: "É bom... passar uma tarde em Itapuã/ ao sol
que arde em Itapuã/ Ouvir o mar de Itapuã/ falar de amor em Itapuã.
Toquinho e Vinicius produziram um dos mais belos poemas (Tarde em Itapuã) à cidade da
Bahia e a um dos seus mais bucólicos bairros, retratando na música todos os
encantamentos do lugar: o mar, o bar, a preguiça de sua gente, o arco-íris, o ar, a
água de coco, o sol, a pinga, a terra a rodar, o céu, a lua e o amor.
Um poema perfeito, popular, bem ao gosto do poetinha que, na época dessa composição,
nos anos 1970, embalado nos braços de Gesse Gessy, uma mulata da terrinha, tomou férias
com seu olhar esquecido e tornou-se o divino bardo, o Dante de Itapuã, como gostava de
assinar somente na correspondência para os mais íntimos. Hoje pesquisadores de sua obra
admitem que do poetinha só restou o eufemismo. Trata-se de um autêntico e valoroso
bardo.
Dois anos (1973/74) marcaram a passagem de Vinicius de Moraes em Salvador, nessa época
uma cidade com ares de província, período dos anos de chumbo da ditadura militar, de uma
Bahia que emergira com força no meio intelectual, herdeira da efervescência cultural
proporcionada pelo reitor Edgard Santos que apostou no modelo de superação do atraso
baiano com ações diversificadas na Universidade Federal da Bahia, vista por alguns como
uma espécie de oficina do diabo.
Vinicius veio para Salvador graças aos encantos da mulata Gesse Gessy e construiu uma
casa à beira-mar de Itapuã, projeto de Jamison Pedra e Sílvio Robatto, obra executada a
cargo do engenheiro Elisinho Lisboa, pelo mestre de obras Francisco e o carpinteiro Jonas.
Segundo o poeta, uma casa baiana, feita por baianos, para abrigar tua baianice
máxima, sonhada desde os idos cariocas.
Escreveu A Casa, um poema concluído em 19 de outubro de 1974, descritivo da
construção, das grandes vigas e barrotes de madeira de lei, do amor a Gesse, de sua
percepção com as coisas da natureza, o mar, as plantas e as flores gentis, de sua
compreensão com a vida simples do lugar, os calções de banho, as dunas e o cheiro do
mar, enfim, dedicado à mulata da sua própria pena: Sim, amada, aí tens a tua
casa. Tua, só tua, imensamente tua. Para que nela viva sempre nua/ com teu céu, com teu
mar, com tua Lua! E o teu triste e amantíssimo poeta.
Esse trabalho foi editado pela Macunaíma, em janeiro de 1975, com tiragem reduzidíssima,
graças a Fernando da Rocha Peres e Myriam Fraga. Os amigos cotizaram-se em ajuda e em
arte: a capa foi produzida por Carlos Bastos e o planejamento gráfico por mestre Calá.
Prestou-se uma homenagem aos mestres-de-obra Luís Dias e Pedro Carvalhaes que aqui
aportaram na esquadra de Tomé de Souza, em 1549, e foram os primeiros a se dedicarem à
arte de construir casas na cidade de Salvador da Bahia.
Nos anos em que Vinicius habitou as terras de Itapuã, antiga fazenda de gado de Garcia
D'Ávila, este dito por muitos como filho bastardo de Tomé de Souza, as ruas do bairro,
em sua maioria, não dispunham de calçamento e os esgotos corriam a céu aberto em
direção ao mar. Para o mar das baleias já cantado pelo mulato Dorival Caymmi,
imortalizado na pena de Jorge Amado e gravado na arte de Calasans Neto.
Em novembro de 1973, fez um poema (Petição ao prefeito) a Clériston Andrade
pedindo-lhe que mandasse calçar a Rua das Amoreiras, onde residia o casal de amigos
Calasans Neto e Auta Rosas, ainda hoje sua pousada de lar e local de ateliê de gravuras e
trabalho, também pouso quase diário do poetinha em suas andanças pelo que classificava
como Principado Livre e Autônomo de Itapuã.
Calasans ilustrou dois dos seus livros Das baleias e História natural de Pablo
Neruda ou a Elegia que veio de longe e muitas foram as horas de papo e tão
diversas as tardes que provou do pirão de Auta, e da rede da varanda do ateliê que
utilizava para "sentir preguiça no corpo", tal a expressão que usou na música
Tarde em Itapuã. Escreveu duas belíssimas páginas sobre a arte em gravuras das baleias
de Calá, a quem, classificou como Príncipe de Itapuã, Duque das Amoreiras, Conde do
Abaeté e Barão do Coco Verde.
A presença de Vinicius em Salvador causou muita curiosidade, embora, a rigor, não tenha
influenciado o chamado meio intelectual, até por que não veio com essa finalidade. Ao
que se sabe, e não tive o privilégio de conviver com o poetinha, aportou em Itapuã para
vadiar diante daquele mar que não tem tamanho e embalar seus sonhos de amor nos braços
de Gesse Gessy.
E em pesadelos, também próprios dos poetas, citou em A Casa: E ficar
pensando/ Que atrás de cada aurora se esconde/ A face ansiosa da Vida e de cada
crepúsculo/ A máscara irônica da Morte, ambas à espreita/ Ambas querendo cumprir a
qualquer custo/ Os seus fatais desígnios. E depois desses tolos pensamentos/ E de induzir
o sono em velhos filmes de televisão, ir deitar-me/ Com o sentimento de fragilidade, da
precariedade/ Da inutilidade de tudo... até que uma nova manhã/ Me diga: Não! E então/
Retomar o cotidiano, olhando o mar.
Vinicius deixou a cidade do Salvador em 1975 já nos braços de um novo amor, a portenha
Martinha. Mas isso é outra história que não nos interessa. Pra encerrar, lembro de
três pontos de Itapuã, citados pelo poetinha, os quais, para nós outros, mortais e não
poetas, freqüentávamos nessa época: a barraca de Pombo, o bar do Galo e o Língua de
Prata. Neste último, o poetinha desafiava a diabete e bebericava campari-soda.
Nós outros, portanto, ficávamos a acompanhar a construção da casa de Vinicius, que se
tornou uma atração turística após sua conclusão, a habitar nos finais de semana à
praia da Rua K, então muito em moda, e também a praia da Placa Ford e a barraca do
Perilo. E, de resto, nos finais de tarde, olhando o mar de Itapuã, dançar no bar do
Galo, situado na curva da rua, quase em frente ao Língua de Prata, este um restaurante
mais sofisticado. No Galo era possível, e isso era o que fazíamos, dançar de sunga com
direito a empinar a marinheira. O fotógrafo Xando P. era especialista nessa modalidade.
Que Deus guarde Vinicius de Moraes e Meu, seu cão de estimação, ambos hoje habitantes
do mar de Itapuã. O poetinha, entre outras preciosidades, deixou-nos uma das mais belas
músicas de nosso cancioneiro popular e também uma frase antológica: "O melhor
amigo do homem é o uísque. O cachorro engarrafado.
Tasso Paes Franco (1946) é baiano, jornalista
formado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Trabalhou como repórter "free
lancer" nos principais veículos de comunicação do país, como "Jornal do
Brasil", "O Estado de São Paulo", "O Globo" e revista
"Veja", nas sucursais de Salvador (BA).
Foi também secretário de redação do jornal "Tribuna da Bahia" (1973),
redator-chefe do "Diário de Notícias" (1975), editor de Cidade e Política do
jornal "A Tarde" (1988) e diretor de redação do jornal "Bahia Hoje"
(1990). Ocupa, há mais de sete anos, o cargo de secretário de Comunicação Social da
Prefeitura do Salvador.
Tasso sempre atuou na cidade do Salvador e detém conhecimento de sua
história e cultura. Fundador do Caderno Cultural de "A Tarde" (1989), ele
conhece como poucos o cotidiano da capital baiana, retratado com humor em seus livros de
crônicas "Ultraleve" (1989), "A Cidade da Bahia" (2000) e "O
Trancelim da baiana" (2002). Os dois últimos livros citados foram ilustrados por
Calasans Neto.
É também autor do livro de contos "Antenor Providência" (1976), dos romances
históricos "Catarina Paraguaçu, a mãe do Brasil" (2001); "A rainha
Apolônia e o quilombo da Flor Roxa" (2003), pela editora Relume Dumará, e do
romance "Os gêmeos da Catalunha, o Reino dos Voduns da Bahia e Encantados de São
Jorge e de São Bartolomeu", pela editora Ojuobá. Além do retrato cotidiano da
Bahia, o autor fez também dois importantes ensaios sobre a estrutura política do estado:
"O Círculo do Poder na Bahia" (1989) e "Marketing e Política"
(1992). Publica às segundas feiras uma crônica semanal no jornal "Tribuna da
Bahia".
O texto acima foi extraído do livro "O trancelim da baiana", Editora Relume
Dumará - Rio de Janeiro, 2002, pág. 75.
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