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A porca
Tânia Jamardo Faillace
Era uma vez um meninozinho, que tinha muito medo. Era só soprar um vento forte, desses de
levantar poeira no fundo do quintal e bater com os postigos da janela; era só haver uma
nuvem escura, uma única, que tampasse o sol; era só esbarrar com a pipa d'água e ouvir
o rico e pesado sacolejar da água dentro, para que o menino se encolhesse bem no centro
de seu ventre, orelhas retesas, olhos muito abertos ou obstinadamente fechados. Depois, o
menino levantava, limpava o pó do fundilho das calças e ia para o quintal.
Conhecia as galinhas, os porcos, mas nenhum lhe pertencia. Achava mesmo engraçado quando
via os irmãos abraçarem um leitãozinho, a irmã mais nova tentando, por força, enfiar
uma de suas saias no bicho. Bicho é bicho, sabia ele. Bicho tem vida sua, diferente da de
gente. Os irmãos não sabiam. Fingiam que eram bonecas, criancinhas pequenas e, nos dias
de matança, todos já eram petiscos, brinquedo esquecido.
O menino preferia olhá-los de longe. Tremia, quando a velha porca gorda fuçava por entre
as tábuas do chiqueiro; corria, se ela estava solta, com sua gorda barriga pendente, seu
gordo cachaço lanhado.
A mãe também era gorda. Rachando lenha, carregando água, enorme e pesada bolota de
carne. Tinha um rosto comprido, sulcado de rugas, boca sempre aberta, gritando com
alguém. A porca não gritava, só roncava, mesmo quando o pai passava e lhe dava um
pontapé. Um dia botou sangue disseram que ia abortar. Ele teve medo de ver.
Escondeu-se em casa, na cama, sob a colcha de fustão.
E de repente, foi o grande choque. Cama sacudiu. Lastro despencou, e ele caiu, sufocado
pelos travesseiros. Era o pai. A mãe lhe batia com um resto de vassoura... pela
loucura... quatorze leitões... quatorze... e todos perdidos... o pai grunhia e protegia a
cabeça. Ao redor, tudo era escuro.
Sabia agora o que era um nenê de bicho. Havia sangue. Sempre havia sangue.
Era um dia escuro. E em dias escuros, o menino tinha medo. O escuro era espesso, profundo,
pegajoso, e sombras mais escuras eram manchas coaguladas.
Havia um fio de luz, cinza-claro, sobre a pipa d'água. O menino se atreveu a ir bem junto
dela. Puxou um banquinho e foi olhar. Como lhe doía a barriga, só de espichar, só de
ver... a boca preta da pipa, a água grossa, molhada... E o menino caiu dentro da pipa...
Não de verdade, de mentira... E encontrou uma porção de leitõezinhos lá no fundo, mas
estavam pretos e encarquilhados.
E ao pular de volta sobre seu banquinho, ao sentir toda a pipa sacudindo, o menino teve a
idéia. Balançou forte, cada vez mais forte, a pipa veio pelo chão, despedaçando uma
aranha, molhando a lenha, assustando a galinha choca que dormia debaixo do fogão. O pé
do menino ficou preso, uma unha esmagada. Mas ele não chorou, fugiu. E fugiu para a
rua... Porém o terreiro estava iluminado com uma luz muito pálida, a areia lisa, fina,
as bananeiras imóveis e densas... Sentou-se no chão, sobre uma pedra pontuda, um pé em
cima do outro, as mãos cruzadas no joelho.
De noite, eram os corpos dos irmãos que se apertavam contra o dele. Mesmo de olhos
fechados, sabia quem estava junto de si. A irmã tinha o costume de dar-lhe beliscões, e
um dos irmãos sempre esperava que ele se distraísse para puxar-lhe aquilo. Depois ria,
dizendo: "Por mais que se puxe, é uma coisinha de nada", e mostrava o seu,
orgulhoso.
Às vezes, o menino ia dormir no chão. Esperava que os grandes passassem para trás da
cortina, ameaçava os irmãos e ia deitar na cozinha ou contra o cabide. Era pequeno, mas
também sabia fazer coisas malvadas.
Escutava o pai e a mãe. Suas vozes eram grossas, por vezes estridentes, e palavras feias
estremeciam o ar, penduravam-se nas teias de aranha, nos arremates das mata-juntas. O
lastro estalava, e havia risadas, de gengivas descobertas, de profundos ocos de garganta.
Ir embora, era o que o menino desejava. Ir para um lugar onde a água fosse grande e
livre, um mar infinito, como ouvira contar certa vez. Não haveria aves, nem porcos nem
cachorros, apenas peixes, dourados e lisos...
O menino habituou-se a correr. Corria ao ouvir as xingações da mãe, corria ao ouvir os
tamancos do pai, corria ao ouvir as risadas dos irmãos. Corria ainda quando ouviu a voz
da porca velha.
Gritava. Não grunhidos, não roncos, mas gritos. O menino sentiu sua barriguinha
encolher, aquilo se levantar em franco protesto.
Na esquina da casa, lá estava o grupo: o pai, o empregado, a mãe, um vizinho, e qualquer
coisa que rebolava feito doida na areia. As crianças se conservavam longe, as mãos nos
ouvidos, as caras estúpidas. A mãe se afobava, a saia descosida arrastando no chão,
dando ordens, xingando, gritando mais alto que a porca. O pai se remexia, o chapéu sobre
a nuca, o nariz pingando de suor.
E foi a mãe que arrancou a faca das mãos do vizinho num gesto brusco. E como gritava a
porca... o menino só lhe via o rabinho e as patas trêmulas.
E num instante, tudo ficou imóvel. Os homens forcejando, a mulher adquirindo impulso,
gorda, redonda, enorme, sua saia de grandes flores desbotadas roçando o ventre da porca,
os irmãos sumindo ao longe, a barriguinha do menino se retesando.
E foi água que jorrou da porca. Água de fonte, vermelha, impetuosa, que fugiu de dentro
do corpo, que saltou ao sol, que cabriolou, que explodiu na cara de todos... que sujou de
sangue (agora era sangue) o braço da mãe, o rosto da mãe, o peito da mãe... que se
esparramou no chapéu velho do pai, que respingou em seus bigodes... que cegou o vizinho,
sufocou o empregado... foi aspirado por bocas, nariz, escorreu por pescoços e ombros.
Agora era o pai quem batia na mãe, descompunha-a... "a camisa... a roupa do
empregado, do vizinho... velha porcalhona..."
O menino se agachou atrás da bananeira, com muita dor em sua barriguinha. E nunca mais
beijou a mãe.
Tânia Jamardo Faillace, 63, é gaúcha. Jornalista e escritora, entre suas
obras registradas na Biblioteca Nacional está o livro "Beco da Velha", que é
composto de 19 volumes (7.748 páginas), escrito durante 10 anos sendo, sem dúvida, um
sério candidato ao mais extenso livro do mundo.
O texto acima foi publicado em "O Conto da Mulher Brasileira", Vertente Editora
São Paulo, 1978, organização de Edla Van Steen, e selecionado por Ítalo
Moriconi para fazer parte do livro "Os Cem Melhores Contos Brasileiros do
Século", Editora Objetiva Rio de Janeiro, 2.000, pág. 379.
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