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Arnaldo Nogueira Jr



Sérgio Sant'Anna
Foto: Agiberto Lima/AE - 31/7/96


Mais Romeu e Julieta
(minificções)

Sérgio Sant'Anna


1


Você amaria um sujeito com um olho de vidro?

Ela disse que a venda negra nos olhos até o tornava atraente, misterioso. Ele estava completamente bêbado e falou que as pessoas precisam se conhecer até o fundo. Arrancando o olho de vidro, jogou-o dentro da laranjada dela. Disse que se ela bebesse com o olho dentro do copo, ele ficaria apaixonado para sempre. Ela bebeu.


2


Na primeira noite, ele achou que para mulher virgem havia penetrado fácil demais. Mas ele era um sujeito fechado, guardava as coisas para si mesmo, refletindo nelas.

Quando ela foi ao banheiro, na manhã seguinte, ele verificou rapidamente o lençol. Nenhum vestígio de sangue.

Um sargento da polícia ninguém passa pra trás.

Na noite seguinte, ele saiu para a rua, apesar da lua-de-mel. Voltando bêbado e sem pronunciar qualquer palavra, deu vinte e cinco facadas nela. O lençol ficou empapado de sangue.


3


Na cama, ele perguntou a ela se podia acender a luz para vê-la. Ela disse que sim, fechando os olhos. E ele perguntou, de repente, se podia fotografá-la, no dia seguinte, completamente nua. Ela sorriu, abrindo os olhos e perguntando: — Por quê?

— Por nada, apenas para guardar comigo.

Mas ele estava pensando que o sistema deles era um círculo e eles desceriam novamente ao fundo e que um dia o círculo poderia se romper e eles permanecem para sempre no fundo, atolados no lodo do fundo. Mas restaria uma lembrança dela assim: jovem, bonita e nua.


4


Ele voltava muito tarde para casa e sempre bêbado. Batia nela e nos meninos. Nela própria, a mulher ainda podia suportar. Mas nos meninos não.

Segurando o ferro de passar, ela o esperou na escuridão de um canto da parede. Quando ele entrou, tropeçando e praguejando, ela encontrou uma agilidade que nunca possuíra e acertou em cheio um golpe na cabeça dele. Com um pequeno gemido, ele caiu ao chão.

Ela montou sobre o corpo caído, já sentindo um cadáver. Mas desferiu vários golpes na cabeça dele, até cansar. Depois ela se levantou e foi até o quarto dos meninos. Ajeitando as cobertas sobre eles, deu um leve beijo em cada um.


5


Ela esperava por ele, no escuro. Ele não chegava. Ela se enfureceu. Acendeu a luz e olhou o apartamento vazio. E viu, na parede, o quadro de que ele tanto gostava. Retângulos, e quadrados superpostos. Ele dizia que o quadro era bom por causa de sua simplicidade geométrica. Junto ao quadro, havia um punhal. Ele gostava, também, daquele punhal. Tornava-o próximo de uma rudeza que de verdade ele não possuía. Ela segurou nervosamente o punhal e começou a fincá-lo no quadro. Depois ele viu o quadro destruído e tentou chorar, sem que o conseguisse.

Ele chegou em casa e perguntou a ela por que fizera aquilo? Ela disse que não gostava do quadro. Ele falou que era mentira e que o quadro era seu e custara dinheiro. Então ela confessou que fizera aquilo porque ele não vinha para casa na hora certa.

— As horas não são diferentes umas das outras — ele gritou

Ela disse que tinha vontade de morrer..

— Pois então morra.

Ela se aproximou da janela. Havia cinco andares. Ele não acreditava que ela se atreveria, mas nunca se podia ter certeza. Ele teve medo de que ela se atirasse apenas para provar-lhe isto: que era capaz de se atirar. Então ele deu um salto e segurou-a pelas costas, gritando que ela era uma neurótica. Ela deu-lhe um tapa no rosto. Ele a empurrou, com força, atirando-a ao chão. Ela poderia ter-se amparado, se quisesse, mas preferiu cair com violência e escândalo contra o assoalho. Ele teve medo de que ela houvesse realmente se machucado e aliviou-se quando a viu soluçando baixinho e mais calma.

Ele queria que existisse um outro quarto no apartamento, para onde pudesse ir. Mas não havia e ele pensou em trancar-se no banheiro. Ela estava, porém, caída e descomposta, no chão, com as pernas inteiramente descobertas. E ele foi chegando a mão, devagarinho. As pernas dela se fecharam, tensas, como numa recusa. Ma ele continuou a acariciá-la. E ela foi-se afrouxando, aos poucos, oferecendo-se.


6


Estavam apaixonados um pelo outro. Ele era meio teatral e disse, um dia, que as perfeitas histórias de amor terminam com a morte. Como em Romeu e Julieta. Porque, do contrário, chegaria o tempo em que Romeu e Julieta brigariam por coisas mesquinhas e ridículas.

Quando terminaram mais uma vez de se amar, ela teve medo e perguntou:

— O que faremos, se isso começar a acontecer?

Ele disse que na cozinha havia um fogão e neste fogão interruptores e que eles poderiam arrastar a cama para lá e se despirem e depois ligarem os interruptores e se abraçarem, como se nada estivesse acontecendo. Como se o gás já não começasse a penetrar em suas narinas, misturando-se aos estremecimentos e gemidos do corpo e provocando um sono que nunca haveria de se dissipar.

— É completamente indolor — ele disse, soltando uma gargalhada.

Mas ela nunca sabia quando ele estava brincando ou falando a sério.


O mundo só é verdadeiramente vivido quando pode ser narrado. Este bem podia ser o mote da obra de Sérgio Sant'Anna, escritor que, desde a sua estréia com O sobrevivente, em 1969 (que lhe valeu a participação no International Writing Program, da Universidade de Iowa, EUA), vem quebrando regras, ampliando contornos, questionando agudamente os limites do conto, em busca de uma nova experiência do narrar.

Sérgio Sant'Anna é carioca, nascido em 1941. Além de O sobrevivente (1969), publicou Notas de Manfredo Rangel, repórter (A respeito de Kramer) (1973) de onde extraímos os textos acima, Simulacros (1977), O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro (1982), Amazona (1986), Senhorita Simpson (1989), Breve história do espírito (1991), O monstro (1994) e Contos e novelas reunidos. Ganhou por duas vezes o prêmio Jabuti e também venceu duas vezes o prêmio Status de Literatura.

O livro "Senhorita Simpson" virou filme e vai representar o Brasil em festivais internacionais de cinema.

Esta é uma colaboração de Geraldo Majella, leitor do Releituras, a quem agradecemos.

 

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