Romeu e Julieta
(minificções)
Sérgio Sant'Anna
1
Ele a esperou na porta do colégio. Com quinze anos, era a primeira vez que se aproximava
de uma garota. O rosto queimado, ele conseguiu perguntar se podia acompanhá-la. Ela disse
que sim.
Sentindo-se ridículo e nervoso, ele perguntou se ela estava com pressa. Ela falou que
não. Então ele perguntou se ela queria ir ao cinema. Ela disse que sim.
Não conseguindo concentrar-se no filme, ele olhava disfarçadamente para ela. Seus olhos
se encontraram e ela sorria, dando-lhe a mão.
E ele perguntou, de repente, se podia beijá-la. Ela disse que sim. Então seu coração
bateu mais forte, porque ele tinha certeza de que, finalmente, as coisas começariam a
acontecer.
2
Eles se aproximavam dos sessenta anos e não mais se procuravam na cama. Mas faziam
companhia um ao outro e se gostavam, do modo como as pessoas conseguem se gostar nesta
idade.
Mas uma noite ele foi até o armário e pegou uma camisa colorida e escolheu sua melhor
calça. E depois ela o surpreendeu passando perfume no corpo e penteando com cuidado que
restava o que restava do cabelo. Ele saiu dizendo que ia visitar um amigo, mas ela
entendeu logo que era caso de mulher.
Deitada, ela se preparou para uma longa espera. Uma hora mais tarde, porém, ele chegou em
casa. Jogando-se na cama, acendeu um cigarro e depois outro, olhando fixamente para o
teto. Ela o conhecia em todos os gestos e detalhes e soube, desde o primeiro instante, que
ele havia falhado. Ela lhe estendeu uma das mãos, que ele apertou com força.
3
Entre arbustos e gangorras, a primeira vez foi num parque municipal. Ela simulou um
orgasmo, para que ele não se decepcionasse. Mas nunca sentiu tanto medo, por causa das
pessoas que passavam por perto e principalmente por causa dos guardas noturnos.
Depois ela foi para casa e verificou que havia folhas agarradas a sua pele e pequenas
dores no corpo. E até hoje, apesar do medo, ela se lembra daquela noite como a melhor de
sua vida.
4
Juntamente com outros mendigos, ela dorme sob um dos viadutos da cidade. Suas roupas
estão sujas e rasgadas e seu corpo cheira mal. Quando o homem veio para perto e começou
a acariciá-la, ela não chegou a consentir, mas também não o recusou. Então ele foi
até o fim, afastando-se, depois, em silêncio. Ela nada obteve que se assemelhasse a um
prazer, pois a única coisa que estava apta a sentir, além da fome, era um tremendo
cansaço.
5
Quando o noivo chegou, ela percebeu mais uma vez que ele era muito gordo e estava sempre
transpirando.
Quando ele a beijou na boca, ela o sentiu repulsivo e teve certeza de que iria traí-lo
depois do casamento.
Quando ele falou num sistema de prestações, para comprar os móveis, ela pensou que ele
era muito chato.
Quando a irmã veio cumprimentá-los, ela se aconchegou a ele de um modo diferente. Porque
nunca admitiria que se percebesse o triste fracasso que eles eram.
E quando, finalmente, ele foi embora, ela meteu-se debaixo do chuveiro, ensaboando-se com
cuidado, para tirar o cheiro dele. E pensou que gostaria de ser uma outra pessoa. Bem mais
jovem e com todas as possibilidades e que tivesse a força de abandoná-lo. Mas ela não
era outra pessoa e foi dormir, sabendo que ele voltaria no dia seguinte.
6
Ele deu um beijo nela, na boca. E depois no pescoço e no ouvido. Ela mostrou para ele a
pele toda arrepiada. De cima para baixo, ele foi tirando a roupa dela, enquanto a beijava
em todas as partes do corpo. Quando chegou lá embaixo, ela enterrou as unhas nos ombros
dele e disse que nunca fizera aquilo antes e que aquilo era muito bom.
7
No vigésimo aniversário de casamento, eles foram jantar num dos melhores restaurantes da
cidade. Comeram lagosta e tomaram vinho, voltando para casa levemente embriagados. De
brincadeira, ele a carregou nos braços, para a cama. Com um vestido na moda, ela se
encontrava bastante desejável para uma mulher de mais de quarenta anos. E ele foi tirando
a roupa dela, peça por peça. Explorando-a inteiramente nua, como se fosse pela primeira
vez, ele verificou que o corpo dela mostrava uma porção de estrias e veias azuis. Ele
bem que tentou o máximo, aquela noite, mas simplesmente não conseguiu afastar seu
pensamento daquelas veias azuis.
O mundo só é verdadeiramente vivido quando pode ser narrado. Este bem podia
ser o mote da obra de Sérgio Sant'Anna, escritor que, desde a sua estréia
com O sobrevivente, em 1969 (que lhe valeu a participação no International Writing
Program, da Universidade de Iowa, EUA), vem quebrando regras, ampliando contornos,
questionando agudamente os limites do conto, em busca de uma nova experiência do narrar.
Sérgio Sant'Anna é carioca, nascido em 1941. Além de O sobrevivente (1969),
publicou Notas de Manfredo Rangel, repórter (A respeito de Kramer) (1973) de onde
extraímos os textos acima, Simulacros (1977), O concerto de João Gilberto no Rio de
Janeiro (1982), Amazona (1986), Senhorita Simpson (1989), Breve história do espírito
(1991), O monstro (1994) e Contos e novelas reunidos. Ganhou por duas vezes o prêmio
Jabuti e também venceu duas vezes o prêmio Status de Literatura.
O livro "Senhorita Simpson" virou filme e vai representar o Brasil em festivais
internacionais de cinema.
Esta é uma colaboração de Geraldo Majella, leitor do Releituras, a quem agradecemos.
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