Esmeralda não me olhava de frente, enquanto terminava de fazer a mala.
Não quero levar muita coisa porque lá é frio e vou ter mesmo que comprar roupas
ela disse, tentando ser natural.
Quando passou mais uma vez perto da cama, segurei-a pelo braço.
Não torne as coisas mais difíceis. Esmeralda desvencilhou-se de mim.
Sss... ó... sóó... eu tentei arrancar lá do fundo, sentindo o sangue
fluir para a minha cabeça, como seu eu fosse explodir.
Mas sóó o quê, pelo amor de Deus? Esmeralda arremedou.
Sóó... mais... uuma... vez! finalmente consegui desatar, com muito
sacrifício.
Esmeralda me olhou de cima a baixo e balançou a cabeça, como se não pudesse acreditar
no que via. De repente, tirou de um só golpe o vestido, desembaraçou-se da calcinha, das
sandálias, e jogou-se na cama. Arrancou ela própria a minha roupa, cravou as unhas
esmaltadas no meu peito e veio por cima de mim, chacoalhando seus braceletes.
Ah, meu amorzinho, como é gostoso fazer com você. Sou tua, tá vendo? Toda tua,
pra você nunca se esquecer de mim... ela foi dizendo, isso e uma porção de
coisas mais, só que hoje muito depressa.
Pronto, está satisfeito? Esmeralda olhou seu relógio de pulso e saltou da
cama, tão logo tudo terminou. Foi até o armário, tirou o cabide com a roupa da viagem,
abriu e fechou com estrondo uma gaveta e sumiu no interior do banheiro, batendo a porta.
Quando saiu, estava de banho tomado, vestida e maquilada.
Você não vai ficar aí nu com essa cara de tacho, vai? ela disse, com as
mãos na cintura e as pernas afastadas uma da outra, fincadas no tapete.
Embora houvesse prometido a mim mesmo, não consegui me conter por mais tempo:
Fii... ca... co... migo!
Esmeralda foi até onde estava sua bolsa e pegou o bilhete da Lufthansa.
Mas será que não vai se convencer nunca? Será que você não se enxerga? Um
sujeito raquítico, com esse peito encovado. Que foi licenciado do banco porque gagueja
com as pessoas mas fala sozinho e gesticula no meio da rua. Está vendo por que eu não
queria despedidas? E o meu futuro, não tem nenhuma importância? Esmeralda brandia
a passagem, com lágrimas nos olhos.
Apesar de tudo, carreguei a mala até lá embaixo e esperei Esmeralda entrar no táxi
especial.
Não me julgue ela disse, antes de bater a porta. Nem faça nenhuma
besteira acrescentou, baixando um pouquinho do vidro do carro, que logo tornou a
fechar.
O motorista deu a partida e acenei para Esmeralda toda empertigada no banco traseiro.
Quando o carro dobrou a esquina, dei-me conta de que continuava com a mão erguida,
imóvel, e recolhi-a depressa. Olhei para os lados e comecei a caminhar, aparentando
normalidade.
Não, eu não vou lhe julgar, Esmeralda, mas houve um tempo em que o seu futuro era
eu e você achava muito bacana estar amigada com um funcionário, apesar de afastado, do
Banco do Brasil eu disse, desta vez sem ratear, porque falava sozinho e minhas
palavras se perdiam na brisa, eram ondas dispersas que ninguém, a não ser eu mesmo,
sintonizava. Quantas palavras, nesse moto-contínuo de gente sofrida, inexpressiva, meros
figurantes, rostos na multidão.
Mas você exagerou, Esmeralda: o meu gesticular é discreto, apenas um homem que
rabisca o ar, com o punho junto à cintura, o que lhe dá a sensação de que suas
palavras e pensamentos se escrevem.
Os gagos não são estúpidos como parecem. Muito pelo contrário, o que um gago não
consegue é acompanhar a velocidade vertiginoso do seu pensamento, e as palavras são um
estorvo em que ele tropeça. Os gagos podem tornar-se ótimos matemáticos, músicos,
filósofos, escritores, desde que não tenham de dar palestras a respeito. Mas pensando,
compondo, efetuando operações abstratas ou escrevendo não se gagueja, porque tormento
do gago são os outros, a vigilância deles, sua escuta e olhar. Por isso um gago não tem
problemas quando fala consigo mesmo e este é um hábito que pode adquirir, não só para
ouvir limpidamente a própria voz, como para organizar-se, amparar-se numa espécie de
muleta para sua solidão lingüística, abrir um pára-quedas em seu mergulho no abismo da
alma. Um gago então gagueja porque é rápido demais. Está certo que todo pensamento,
mesmo o dos mais estultos, o é, porém o do gago o é ainda mais. E, pela disciplina
imposta por seu recolhimento, o gago é capaz de uma verbalização elegante, cristalina,
precisa, não importa se para dentro ou para fora, desde que para nenhum ouvinte, e
também de uma observação simultânea do que está falando ou pensando, o que faz do
gago um registrador permanente do seu fluxo vital e verbal.
Eu só havia ido até a esquina e voltado ao apartamento deserto. O vestido largado no
chão ainda conservava um pouco da forma e volume de um corpo, como um balão apagado, e
as roupas desprezadas no armário constituíam um verdadeiro Museu Esmeralda, com suas
evocações, sua história. Por exemplo, o vestido prateado, com escamas brilhantes,
parecendo lantejoulas. Você tinha posto o som na maior altura e ensaiava a coreografia
para o teste no show de mulatas. De repente, me puxou para o centro da sala e tentou me
fazer sambar, todo desajeitado. Logo desistiu, me empurrou e se deixou cair para trás no
sofá, descomposta e suada:
Seu gago babaca!
Avancei, trêmulo, talvez para lhe dar um tapa. Ao chegar perto de você, você ergueu o
vestido, com uma risada de bêbada. Ajoelhei-me então aos seus pés e mergulhei o rosto
nas suas pernas.
Não, eu também não vou fazer, nenhuma besteira, Esmeralda, até porque, se eu
desaparecer, desaparece você comigo. E, entre ter você deste modo, mesmo eu sofrendo, e
o nada, prefiro ter você, como uma unhada latejando no peito.
Peguei o vestido largado no chão, que ainda conservava o cheiro, quase o calor de
Esmeralda, e joguei-me com ele na cama, como se fosse a própria Esmeralda. Virei-a de
bruços e agora olhávamos na mesma direção: o espelho, na porta escancarada do
armário. E o que nele se estampava, a par do capricho egoísta, a baba lasciva, os olhos
revirados de Esmeralda, eram o meu gozo aflito e minha consciência aguda. A consciência
de que não podíamos deixar de ser como éramos. Mais ainda do que isso, a de que eu
queria ser quem eu era.
Mas você se engana, Esmeralda, se acha que poderá se libertar de mim. Pois logo chegará
o dia em que, ao lado desse alemão, sentirá um frio que nunca sentiu e um oco por
dentro. Talvez então se dê conta de que ficou esse tempo todo comigo justamente porque
sou gago.
Os gagos são grandes amantes, discretos, silenciosos, objetivos,
concentrados. Descartada, desde o princípio, por sua própria condição, a hipótese de
atribuírem a si mesmos muita importância e a pretensão de ocuparem o centro do palco,
dedicam-se eles de corpo e alma ao prazer da mulher que lhes coube, que passa a ser
também o prazer e a felicidade do gago. E, se já temem tornar-se tediosos falando, os
gagos são ainda mais tímidos para se fazerem repulsivos e pegajosos com carícias em
excesso e fora de hora. Então o amor canino de um gago pela mulher é camuflado pela
prudência, desconfiança e sensualidade furtivo dos gatos. Como estes, procuram passar um
tanto despercebidos, quando, na verdade, estão o tempo todo alertas para aquela outra
presença no seu espaço e atuam, principalmente, quando se sabem solicitados. Não sendo,
por outro lado, egoístas como os gatos, aprendem logo o que a mulher deseja, sem que
sintam qualquer vaidade ao satisfazê-las, como os homens medíocres. Por isso um bom gago
é tão sorrateiro e misterioso que termina por espicaçar a mulher que passou, por
destino, a dividir com ele uma teia confundindo-se a aranha e a presa vendo
ela no gago um enigma a ser decifrado. Sente-se assim enaltecida ao satisfazer a
concupiscência refinada dele, edificada lentamente na contenção. Alcançam então os
amantes o ápice do conhecimento mútuo, que é quando a satisfação da fantasia de um
corresponde exatamente à fantasia do outro. E a mulher que se faz amante de um gago acaba
por expressar de algum modo a ele, sem esperar outra resposta que não a do corpo
ou da alma que só se traduz no corpo: Vem, faz comigo o que você quiser: E o
gago faz.
O mundo só é verdadeiramente vivido quando pode ser narrado. Este bem
podia ser o mote da obra de Sérgio Sant'Anna, escritor que, desde a sua
estréia com "O sobrevivente", em 1969 (que lhe valeu a participação no
International Writing Program, da Universidade de Iowa, EUA), vem quebrando regras,
ampliando contornos, questionando agudamente os limites do conto, em busca de uma nova
experiência do narrar.
Sérgio Sant'Anna é carioca, nascido em 1941. Além de "O
sobrevivente" (1969), publicou "Notas de Manfredo Rangel, repórter (A respeito
de Kramer)" (1973), "Simulacros" (1977), "O concerto de João Gilberto
no Rio de Janeiro" (1982), "Amazona" (1986), "Senhorita Simpson"
(1989), "Breve história do espírito" (1991), "O monstro" (1994) e
"Contos e novelas reunidos" (1997). Ganhou por duas vezes o prêmio Jabuti e
também, por duas vezes, foi agraciado com o prêmio Status de Literatura.
O livro "Senhorita Simpson" foi adaptado para o cinema e se transformou em
"Bossa Nova", filme de sucesso de Bruno Barreto.
O texto acima consta do livro "Contos e novelas reunidos" e foi publicado em
"Figuras do Brasil - 80 autores em 80 anos de Folha", Publifolha - São Paulo,
2001, pág.308, organizado por Arthur Nestrovski. O autor não é gago.