Não Sei se Você se Lembra
Stanislaw Ponte Preta
(Sérgio Porto)
ENTÃO, não sei se você se lembra, nos veio aquela vontade súbita de comer siris.
Havia anos que nós não comíamos siris e a vontade surgiu de uma conversa sobre os
almoços de antigamente. Lembro-me bem e não sei se você se lembra que o
primeiro a ter vontade de comer siris fui eu, mas que você aderiu logo a ela, com aquele
entusiasmo que lhe é peculiar, sempre que se trata de comida ou de mulher.
Então, não sei se você se lembra, começamos a rememorar os lugares onde se poderia
encontrar uma boa batelada de siris, para se comprar, cozinhar num panelão e ficar
comendo de mãos meladas, chão cheio de cascas do delicioso crustáceo e mais uma para
rebater de vez em quando. E só de pensar nisso a gente deixou pra lá a vontade pura e
simples e passou a ter necessidade premente de comer siris.
Então, não sei se você se lembra, telefonamos para o Raimundo, que era o campeão
brasileiro de siris e, noutros tempos, dava famosos festivais do apetitoso bicho em sua
casa. Ele disse que, aos domingos, perto do Maracanã, havia um botequim que servia siris
maravilhosos, ao cair da tarde. Não sei se você se lembra que ele frisou serem aqueles
os melhores siris do Rio, como também os únicos em disponibilidade, numa época em que o
siri anda vasqueiro e só é vendido naquelas insípidas casquinhas.
Ah... foi uma alegria saber que era domingo e havia siris comíveis e, então, nos dois
não sei se você se lembra apesar da fome que o uisquinho estava nos dando
resolvemos não almoçar para ficar com mais vontade ainda de comer siris. Passamos
incólumes pela refeição, enquanto o resto do pessoal entrava firme num feijão que
cheirava a coisa divina do céu dos glutões. O pessoal aliás achava que
era um exagero nosso, guardar boca para um siri que só comeríamos à tarde, porque
podíamos perfeitamente ter preparo estomacal para eles, após o almoço.
Mas não sei se você se lembra fomos de uma fidelidade espartana aos siris.
Saímos para o futebol com uma fome impressionante e passamos o jogo todo a pensar nos
siris que comeríamos ao sair do Maracanã.
Então não sei se você se lembra saímos dali como dois monges tibetanos a
caminho da redenção e chegamos no tal botequim. Então não sei se você se
lembra que a gente chegou e o homem do botequim disse que o siri já tinha acabado.
A crônica acima consta do livro "Garoto Linha Dura", lançamento da Editora
do Autor - Rio de Janeiro, 1964, pág. 163.
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Porto (Stanislaw Ponte Preta) visitando "Biografias".
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