Certas Esperanças
Stanislaw Ponte Preta
(Sérgio Porto)
É preciso é mais do que preciso, é forçoso dar boas festas, trocar
embrulhinhos, querer mais intensamente, oferecer com mais prodigalidade, manter o sorriso
e, acima de tudo, esquecer tristezas e saudades.
Façamos um supremo esforço para lembrar e sermos lembrados, porque assim manda a
tradição e é difícil esquecer à tradição. Enviemos cartões e telegramas de
felicitações àqueles que amamos e também àqueles que sabemos perfeitamente
não gostam da gente. O Correio, nesta época do ano, finge-se de eficiente e já
lá tem prontos impressos para que desejemos coisas boas aos outros, nivelando a todos em
nossos augúrios.
Depois de abraçar e ser abraçado, desejar sincera e indiferentemente, embrulhar e
desembrulhar presentes, cada um poderá fazer votos a si mesmo, desejar para si o que bem
entender. Subindo na escala das idades, este sonhou todo o mês com um trenzinho
elétrico, aquele com uma bicicleta (com farol e tudo), o outro certa moça, mais além um
quarto sonhador esteve a remoer a idéia de ser ministro e o rico... bem, o rico só pensa
em ser mais rico. O rico detesta amistosamente os ministros, já não tem olhos para a
graça da moça, pernas para pedalar uma bicicleta e, muito menos, tempo para brincar com
um trenzinho.
Dos planos de cada um, pouquíssimos serão
transformados em realidade. Alguns hão de abandoná-los por desleixo e a maioria, mal o
ano de 56 começar, não pensará mais nele, por pura desesperança. O melhor, portanto,
é não fazer planos. Desejar somente, posto que isso sim, é humano e acalentador.
De minha parte estou disposto a esquecer todas as passadas amarguras, tudo que o destino
me arranjou de ruim neste ano que finda. Ficarei somente com as lembranças do que me foi
grato e me foi bom.
No mais, desejarei ficar como estou porque, se não é o que há de melhor, também não
é tão ruim assim e, tudo somado, ficaram gratas alegrias. Que Deus me proporcione as
coisas que sempre me foram gratas e que Ele sabe não chegam a fazer de mim
um ambicioso.
Que não me falte aquele almoço honesto dos sábados (único almoço comível na semana),
com aquele feijão que só a negra Almira sabe fazer; que não me falte o arroz e a
cerveja é muito importante a cerveja, meu Deus! , como é importante manter
em dia o ordenado da Almira.
Se não me for dado comparecer
às grandes noites de gala, que fazer? Resta-me o melhor, afinal, que é esticar de vez em
quando por aí, transformando em festa uma noite que poderia ser de sono.
E para os pequenos gostos pessoais, que me reste
sensibilidade bastante para entretê-las. Ai de mim se começo a não achar mais graça
nos pequenos gostos pessoais. Que o perfume do sabonete, no banho matinal, seja sempre
violeta; que haja um cigarro forte para depois do café; uma camisa limpa para vestir; um
terno que pode não ser novo, mas que também não esteja amarrotado. Uma vez ou outra,
acredito que não me fará mal um filme da Lollobrigida, nem um uísque com gelo ou
digamos uma valsa.
Nada de coisas impossíveis para que a vida possa ser mais bem vivida. Apenas uma praia
para janeiro, uma fantasia para fevereiro, um conhaque para junho, um livro para agosto e
as mesmas vontades para dezembro.
No mais, continuarei a manter certas esperanças inconfessáveis porém passíveis
e quanto de acontecerem.
A crônica acima foi publicada na revista "Manchete" nº. 193, de 31/12/55.
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