A casa demolida
Sérgio Porto
(Stanislaw Ponte Preta)
SERIAM ao todo umas trinta fotografias. Já nem me lembrava mais delas, e
talvez que ficassem para sempre ali, perdidas entre papéis inúteis que sabe
lá Deus por que guardamos.
Encontrá-las foi, sem dúvida, pior e, se algum dia imaginasse que havia de
passar pelo momento que passei, não teria batido fotografia nenhuma. Na
hora, porém, achara uma boa idéia tirar os retratos, única maneira — pensei
— de conservar na lembrança os cantos queridos daquela casa onde nasci e
vivi os primeiros vinte e quatro felizes anos de minha vida.
Como se precisássemos de máquina fotográfica para guardar na memória as
coisas que nos são caras!
Foi nas vésperas de sair, antes de retirarem os móveis, que me entregara à
tarefa de fotografar tudo aquilo, tal como era até então. Gastei alguns
filmes, que, mais tarde revelados, ficaram esquecidos, durante anos, na
gaveta cheia de papéis, cartas, recibos e outras inutilidades.
Esta era a escada, que rangia no quinto degrau, e que era preciso pular para
não acordar Mamãe. Precaução, aliás, de pouca valia, porque ela não dormia
mesmo, enquanto o último dos filhos a chegar não pulasse o quinto degrau e
não se recolhesse, convencido que chegava sem fazer barulho.
A idéia de fotografar este canto do jardim deveu-se — é claro — ao banco de
madeira, cúmplice de tantos colóquios amorosos, geralmente inocentes, que
eram inocentes as meninas daquele tempo. Ao fundo, quase encostado ao muro
do vizinho, a acácia que floria todos os anos e que a moça pedante que
estudava botânica um dia chamou de "linda árvore leguminosa ornamental". As
flores, quando vinham, eram tantas, que não havia motivo de ciúmes, quando
alguns galhos amarelos pendiam para o outro lado do muro. Mesmo assim, ao
ler pela primeira vez o soneto de Raul de Leoni, lembrei-me da acácia e
lamentei o fato de ela também ser ingrata e ir florir na vizinhança.
Isto aqui era a sala de jantar. A mesa grande, antiga, ficava bem ao centro,
rodeada por seis cadeiras, havendo ainda mais duas sobressalentes, ao lado
de cada janela, para o caso de aparecerem visitas. Quando vinham os primos
recorria-se à cozinha, suas cadeiras toscas, seus bancos... tantos eram os
primos!
Nas paredes, além dos pratos chineses — orgulho do velho — a indefectível
"Ceia do Senhor", em reprodução pequena e discreta, e um quadro de autor
desconhecido. Tão desconhecido que sua obra desde o dia da mudança está
enrolada num lençol velho, guardada num armário, túmulo do pintor
desconhecido.
Além das três fotografias — da escada, do jardim e da sala de jantar —
existem ainda uma de cada quarto, duas da cozinha, outra do escritório de
Papai. O resto é tudo do quintal. São quinze ao todo e, embora pareçam
muitas, não chegam a cumprir sua missão, que, afinal, era retratar os
lugares gratos à recordação.
O quintal era grande, muito grande, e maior que ele os momentos vividos ali
pelo menino que hoje olha estas fotos emocionado. Cada recanto lembrava um
brinquedo, um episódio. Ah Poeta, perdoe o plágio, mas resistir quem há-de?
Gemia em cada canto uma tristeza, chorava em cada canto uma saudade. Agora,
se ainda morasse na casa, talvez que tudo estivesse modificado na aparência,
não mais que na aparência, porque, na lembrança do menino, ficou o quintal
daquele tempo.
Rasgo as fotografias. De que vale sofrer por um passado que demoliram com a
casa? Pedra por pedra, tijolo por tijolo, telha por telha, tudo se
desmanchou. A saudade é inquebrantável, mas as fotografias eu também posso
desmanchar. Vou atirando os pedacinhos pela janela, como se lá na rua
houvesse uma parada, mas onde apenas há o desfile da minha saudade. E os
papeizinhos vão saindo a voejar pela janela deste apartamento de quinto
andar, num prédio construído onde um dia foi a casa.
Olha, Manuel Bandeira: a casa demoliram, mas o menino ainda existe.
Texto extraído do livro "A casa demolida", Editora do Autor Rio
de Janeiro, 1963, pág. 09.
Sobre esse livro, disse o autor: "Este livro é, ao mesmo tempo, uma
continuação, uma variação e uma nova edição de "O Homem ao Lado", o
primeiro e único livro de crônicas que publiquei com meu verdadeiro
nome. Explico: uma continuação porque nestas páginas o leitor
encontrará várias crônicas que deixei de publicar na edição de "O
Homem ao Lado"; uma variação porque as crônicas comuns aos dois
livros foram — quase todas — revistas, reduzidas umas, ampliadas
outras; e nova edição porque talvez 40% das crônicas de "A Casa
Demolida" figuraram nas páginas de "O Homem ao Lado".
A época em que foram escritas é comum aos dois livros, isto é, entre
os anos de 1952 e 1955, salvo uma ou outra de tempo mais recente que
achei por bem incluir nesta nova coletânea. Enumerar os jornais e
revistas onde foram publicadas seria fastidioso, tantos e tais foram
os jornais e revistas nos quais colaborei."
Com este texto homenageamos o
caro escritor Sérgio Porto, na passagem dos 40 anos de seu
falecimento (29/09/1968).
Conheça e vida e a obra de Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta) visitando
"Biografias".
[ Voltar ]
RESPEITE OS
DIREITOS AUTORAIS E A PROPRIEDADE INTELECTUAL
Copyright © 1996 PROJETO RELEITURAS.
É proibida a venda ou reprodução de qualquer parte do conteúdo deste site. |