Cartãozinho de Natal
Stanislaw Ponte Preta
(Sérgio Porto)
Até que eu não sou de reclamar, puxa! Taí, se há alguém que não é de reclamar, sou
eu. Pago sempre e não bufo. Claro que procuro me defender da melhor maneira possível,
isto é, chateando o patrão, cobrando cada vez mais, buscando o impossível como
diz Tia Zulmira , ou seja, equilíbrio orçamentário. Se o Banco do Brasil não tem
equilíbrio orçamentário, eu é que vou ter, é ou não é?
Mas a gente luta. Eu ganho cada vez mais e nem por isso deixo de terminar sempre o mês
que nem time de Zezé Moreira: 0 x 0. Segundo cálculos da tia acima citada, que é
bárbara para assuntos econômicos, eu sou um dos homens mais ricos do Brasil, pois
consigo chegar ao fim do mês sem dever. Esta afirmativa não me agrada nada, mas dá uma
pequena amostra de como vai mal a organização administrativa do nosso querido Brasil.
Aliás, minto...o cronista pede desculpas, mas estava mentindo. Eu vou no empate até
dezembro, porque, quando chega o Natal, é fogo. Aí embaralha tudo. Não há tatu que
resista aos compromissos natalinos. São as Festas dizem.
O presente das crianças, a ganância do comerciante, as gentilezas obrigatórias, os
orçamentos inglórios, a luta do consumidor, a malandragem do fornecedor e olhe nós
todos envolvidos nesse bumba-meu-boi dos presentinhos.
E que fossem só os presentinhos. A gente selecionava, largava uma lembrancinha nas mãos
dos amigos com o clássico letreiro: "Você não repare, que é presente de
pobre" e ia maneirando. Mas tem as listas, tem os cartõezinhos.
O que me chateia são as listas e os cartõezinhos. A gente passa o mês todo comprando
coisas pros outros sem a menor esperança de que os outros estejam comprando coisas pra
gente. De repente, quando o retrato do falecido Almirante Pedro Álvares Cabral, que, no
caminho para as Índias, ao evitar as calmarias, etc., etc. já é um raro no bolso dos
coitados do que deputado em Brasília, vem um de lista.
O de lista é sempre meio encabulado. Empurra a lista assim na nossa frente e diz:
O pessoal todo assinou. Fica chato se você não assinar. Então a gente dá uma
olhada. A lista abre com uma quantia polpuda quase sempre fictícia
que é pra animar o sangrado. E tem a lista dos contínuos, tem a lista dos porteiros, tem
a lista dos faxineiros, tem a lista das telefonistas, tem a lista do raio que te parta.
A gente assina a lista meio humilhado, porque, no máximo, pode contribuir com duzentas
pratas, onde está estampada a figura de Pedro I, que às margens do Ipiranga,
desembainhando a espada, etc., etc. e pensa que está livre, embora outras listas estejam
de tocaia, esperando a gente.
Então tá. Há um momento em que os presentinhos já estão todos comprados, as listas
já estão todas assinadas e você já está com mais ponto perdido na tabela do que o
time do Taubaté. Deve pra cachorro, mas vai dever mais.
Vai dever mais porque faltam os cartõezinhos de apelação. A campainha toca, você abre
para saber quem está batendo e é o lixeiro. Ele não diz nada. Entrega um envelopezinho,
a gente abre e lá está o versinho: "Mil votos de Boas Festas/ Seja feliz o ano
inteiro/ É o que ora lhe deseja/ O vosso humilde lixeiro."
E o vosso humilde lixeiro espalma sorridente a estira que a gente larga na mão dele. Meia
hora depois a campainha toca. Desta vez quem sabe? é uma cesta de Natal que
um bacano teve a boa idéia de enviar. Mas qual. É o carteiro, fardado e meio sem jeito,
que passa outro cartãozinho de apelação. A gente abre o envelope e lá está:
"Trazendo a correspondência/ Faça frio ou calor/ Vosso carteiro modesto/ Prossegue
no seu labor/ Mas a cartinha que trás/ Nesta oportunidade/ É para desejar Boas Festas/ E
muita felicidade."
Mas este ano eu aprendi, irmãos! Em 1963 vou comprar diversas folhas de papel (tamanho
ofício) e organizar várias listas para as criancinhas pobres aqui da casa. Quando o cara
vier com a dele, eu neutralizo a jogada com a minha. O máximo que pode acontecer é ele
assinar 500 na minha e eu assinar 500 na dele... ficando a terceira da melhor de três
para disputar mais tarde.
Também vou mandar prensar uns cartõezinhos. Quando o vosso humilde lixeiro ou o vosso
carteiro modesto entregar o envelopinho, eu entrego outro a ele, para que leia: "No
Inferno das notícias/ Mas com expressão seráfica/ Eu batuco o ano inteiro/ A máquina
datilográfica/ Pro ano que vai entrar/ Não me sinto otimista/ Mesmo assim, felicidades/
Lhe deseja este cronista."
Conforme diz Tia Zulmira: " Malandro prevenido dorme de botina."
O texto acima foi extraído do livro "Rosamundo e os Outros", Editora Sabiá
- Rio de Janeiro, 1963, pág. 174.
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