Manuel Bandeira
Sophia de Mello Breyner
Andresen
Este poeta está
Do outro lado do mar
Mas reconheço a sua voz há muitos anos
E digo ao silêncio os seus versos devagar
Relembrando
O antigo jovem tempo tempo quando
Pelos sombrios corredores da casa antiga
Nas solenes penumbras do silêncio
Eu recitava
"As três mulheres do sabonete Araxá"
E minha avó se espantava
Manuel Bandeira era o maior espanto da minha avó
Quando em manhãs intactas e perdidas
No quarto já então pleno de futura
Saudade
Eu lia
A canção do "Trem de ferro"
E o "Poema do beco"
Tempo antigo lembrança demorada
Quando deixei uma tesoura esquecida nos ramos da cerejeira
Quando
Me sentava nos bancos pintados de fresco
E no Junho inquieto e transparente
As três mulheres do sabonete Araxá
Me acompanhavam
Tão visíveis
Que um eléctrico amarelo as decepava
Estes poemas caminharam comigo e com a brisa
Nos passeados campos da minha juventude
Estes poemas poisaram a sua mão sobre o meu ombro
E foram parte do tempo respirado.
Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu no Porto (Portugal), em 1919, e morreu em
2004. Estudou filologia clássica na Faculdade de Letras de Lisboa. Estreou em 1944, com
"Poesia". Além de poemas, escreveu contos, literatura infantil e ensaios.
Traduziu Eurípedes, Dante e Shakespeare. Recebeu inúmeros prêmios, entre os quais
destacam-se o "Camões" (1999) e o "Reina Sofía" (2004).
Texto extraído do livro "Poemas escolhidos - Sophia de Mello Breyner Andresen",
Cia. das Letras - São Paulo, 2004, pág. 180, seleção de Vilma Arêas.
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