O espelho

Sacha Guitry


Esta aconteceu na China. Um chinês preparava-se para ir ao mercado, que fica a alguns dias de viagem. Está anoitecendo. O chinês despede-se da mulher.

— Até à volta, Mel de Crisântemo. Que quer que lhe traga do mercado?

— Eu queria um pente.

— Um pente? Está bem. Mas eu tenho que comprar tanta coisa, como é que me vou lembrar?

— Não precisará mais do que olhar para a lua. Veja: a lua é crescente. Pois bem, o pente que eu quero é exatamente da forma da lua crescente.

— Até à volta.

E o chinês parte. Chega ao mercado. Faz suas compras. Terminando-as, já bem tarde, lembra-se da promessa, mas não se lembra muito bem do objeto desejado pela mulher.

Encontra-se, nesse momento, junto de um mercador e lhe diz:

— Pois veja só: prometi levar um presente a minha mulher, mas não me lembro mais o que foi. Ah! sim, espera. Estou-me lembrando agora que ela me disse para olhar a lua.

— Olhe, é lua cheia.

(A lua, que estava no seu primeiro quarto no dia da partida do chinês, agora era cheia).

— Deve ser um objeto redondo.

E o chinês compra um espelho, paga-o, faz um pacote e põe-se a caminho para a volta.

Ao chegar em casa, diz-lhe a mulher:

— Bom dia, meu marido. Trouxe-me o que eu lhe pedi?

— Naturalmente. Aqui está.

E o chinês dá o pacote à mulher, que apressadamente o abre. Essa mulher nunca tinha visto um espelho. E vendo nele um vulto de mulher, fica indignada:

— Meu marido, comprou outra mulher!

E Mel de Crisântemo chora todas as lágrimas de seu pequenino coração. Os seus olhos chamam a atenção de sua mãe.

— Ah! mamãe, mamãe — grita ela. — Venha ver. Meu marido trouxe para casa outra mulher.

A mãe toma o espelho, olha-o e diz à filha:

— Fica sossegada: é tão velha e tão feia!


Sacha Guitry nasceu em São Petersburgo, Rússia, no ano de 1885. Filho do famoso ator Lucien Guitry, dedicou-se desde muito cedo ao teatro, ora como autor, ora como ator ou diretor. Aos vinte e um anos de idade, revelou-se comediógrafo de méritos invulgares com a peça "Nono" — um dos grandes êxitos da época, e ainda hoje de vez em quando ressuscitada nos melhores teatros da Europa. Vivacidade, ironia, graça e originais dotes de psicólogo, eis algumas das características que marcam o teatro de Sacha Guitry, assim como os seus contos e crônicas.

Disputou, durante muito tempo, com Tristan Bernard, o título de homem mais espirituoso da França. Se o primeiro dominou no período anterior à guerra de 1914, é indiscutível que cabe a Guitry o cetro no período que vai de 1920 a 1940. Homens como Bernard Shaw, Anatole France, Mirbeau e tantos outros mais, prodigalizaram louvores à obra deste escritor, não faltando mesmo quem o comparasse a Molière. Ressalvando o evidente exagero, e guardada a devida proporção, ainda assim é muito o que sobra para a glória de Sacha Guitry, espírito inquieto, buliçoso, que não contente com as experiências e glórias teatrais, tentou ainda o cinema, dirigindo ou representando filmes hoje incorporados ao que de melhor produziu o cinema francês.

A arte de Guitry se caracteriza por uma extrema espontaneidade e uma grande riqueza de invenção cômica. Pode-se, diz um crítico, criticá-lo pela solidez de construção de algumas de suas peças ou livros, mas jamais será censurado por ausência de vivacidade e de graça.


O texto acima foi extraído do livro “Maravilhas do Conto Francês”, Editora Cultrix – São Paulo, 1958, pág. 319. Seleção de Jean P. L. Bellade e organização de Diaulas Riedel.

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