O fumo, aristocraticamente, azul, mas falso como certos sangues, deu lugar a grossos rolos
de partículas em suspensão, uma trave caiu, o lustre desfez-se e as línguas de fogo,
que são as mais viperinas, e as gengivas de lume, rubras e descarnadas, tragavam os
móveis e as tapeçarias.
Quem é este belo jovem com capacete de oiro? perguntou a velha senhora,
reclinada no sofá.
Sacudindo algumas faúlhas da libré, o mordomo esclareceu:
Este belo jovem com capacete de oiro é um bombeiro, "milady".
Pois devia ter chegado mais cedo suspirou a velha senhora.
Quinze minutos antes do palacete começar a arder completou o mordomo.
Trinta anos mais cedo, antes do fim da idade de amar retificou a velha
senhora, com um sorriso repleto de implicações.
Não é habito chegarmos antes dos incêndios refletiu o bombeiro.
Preconceitos, horas de serviço e burocracias resmungou o mordomo.
Só apareceremos insistiu o bombeiro quando nos chamam. Há tipos que
podem chegar em qualquer altura porque vendem em todas as épocas. O bombeiro só vem
quando tocam a sineta.
O mordomo deu algumas palmadas na orla do reposteiro lambido pelas chamas. E a velha
senhora protestou:
O bombeiro devia vir mais vezes. Como o leiteiro e o vendedor de detergentes.
Os bombeiros, minha senhora, não podem andar por aí com uma malinha e uma
mangueira a correr de casa em casa manifestou o bombeiro, delicadamente. E noutro
tom: Estou a ver os voluntários a oferecer fogos a preços módicos. Arda agora e
pague depois. Incêndios por catálogo, como se faz com as urnas e as flores dos mortos.
A velha senhora teve um pequeno gesto de contrariedade.
Primeiro, venderiam o incêndio; depois o processo de o extinguirem. Tal como uma
farmácia ligada a uma agência funerária.
Poderiam telefonar de vez em quando intrometeu-se o mordomo a
perguntar se há fogo. Que há muitos que não são por encomenda. Não é verdade,
"milady"?
Podiam telefonar a perguntar se há fogo, se já houve ou se está para haver
completou a velha senhora.
O bombeiro lança uma olhadela rápida às chamas que invadem o salão. Os tetos crepitam.
Pensa: "eis um fogo simples mas bastante espetacular". E diz:
O sótão já lá vai.
Por que motivo inquiriu a velha senhora os incêndios começam sempre
por cima?
O bombeiro consulta um questionário com capa de amianto, e articula:
Para baixo todos os santos ajudam. Deve ser por isso. Mas também há
eventualidades em que os incêndios principiam pelos pisos inferiores ou pelos do centro.
Caprichos! exclamou a velha senhora Cá no palacete é a primeira vez
que há uma fumarada destas. Só têm este gênero de fumo?
O fumo na é deles, "milady" explica o mordomo, dando grandes
palmadas nas costas do bombeiro, que estavam a arder.
Nós não fornecemos fumo. O próprio fogo em si é sempre fornecido pelos clientes
garante o bombeiro, que gosta de pôr as coisas no devido pé.
Seja como for insistiu a velha senhora é um fumo horrível. Mal vejo
o seu capacete de oiro. Traz sempre esse capacete de oiro aos incêndios?
O bombeiro nega com a cabeça.
Só o trago aos incêndios das casas ricas. Às outras, vamos em cabelo.
Nessa ordem de idéias a velha senhora esmiuçava tudo vocês devem
ter trajos adequados para cada gênero de fogo.
E o bombeiro, de piquete à réplica muito rápida:
Já temos ido de fraque a incêndios de gala. E salvo muito boa dama, de chapéu
alto e asas de grilo.
A velha senhora soltou um suspiro demasiado longo para o seu velho fôlego. Vendo as
chamas muito próximas do sofá, o bombeiro pede:
Um copo de água, por favor.
Fresca ou natural? interessouse o mordomo.
Tanto faz replicou o bombeiro.
O mordomo saiu pela única porta ainda não atingida e, ao regressar com o copo de água,
informou a velha senhora de que o cozinheiro chinês estava devidamente assado ao pé do
fogão.
Indiferente, a velha senhora, que se interessava por outros fatos mais saborosos,
inquiriu:
E você veio sozinho a este meu fogo?
E o bombeiro:
Tenho os camaradas, lá em baixo, com o material.
Ah, traz material entusiasmou-se o mordomo.
É mais seguro explicou o bombeiro . Uma escada, por exemplo, faz
sempre arranjo.
Não seria mais útil elevador? pergunta a velha senhora.
Talvez condescende o bombeiro. O mais prático, porém, é pegar nas
pessoas e atira-las pela janela.
E têm uma rede na rua? interroga o mordomo.
Não vale a pena. Nunca se acerta na rede. O chão é suficientemente rijo para
suportar o peso de qualquer corpo justifica o bombeiro.
E a velha senhora afirma:
Os vossos métodos são muito perfeitos. Vê-se que a corporação é modelar.
Chegamos a apagar fogos com chá diz o bombeiro.
Com chá? admira-se o mordomo.
Sim, em residências da alta explica o bombeiro.
Era a vez da velha senhora interrogar.
E aqui, como vão fazer?
Aqui, é deixar arder.
Uma cabeça assomou à janela.
É o meu camarada apresentou o bombeiro.
Que entre. Tomem uma taça de champanhe oferece a velha senhora.
Há uma chamada telefônica para ti anuncia o camarada.
Enquanto o bombeiro se preparava para partir, as chamas atingiram a parte mais rica do
salão. As lâmpadas dos lustres davam pequenos estalidos, os móveis crepitavam, as telas
do século dezoito ardiam e as tintas iam escorrendo pelas paredes. Um relógio deu as
suas últimas horas mortais. O cuco saiu pela derradeira vez e ficou frito.
Como cai o fogo? interessou-se o camarada.
Vai indo, ripostou o bombeiro.
Que calor! soprou a velha senhora.
Em junho é sempre assim, "milady" considerou o mordomo.
O camarada, que tinha alma de antiquário, ao ver uma cantoneira cheia de retorcidos
retorcer-se ainda mais repetia:
Que lástima... Que lástima...
Que pena... murmurou então a velha senhora, ao ouvido chamuscado do belo
jovem com capacete de oiro. Que pena você não ter chegado trinta anos atrás,
quando o meu peito se inflamava deveras e o meu coração ainda podia arder...
Este foi o primeiro conto de Santos Fernando publicado no Brasil pelo jornal
"O Pasquim". Assim Millôr Fernandes o apresentou:
"Continuador da grande tradição que vai do poeta Eça ao
humorista Fernando Pessoa, o português Santos Fernando (guardem este nome. Ou não
guardem.) que estamos apresentando aqui no Brasil pela primeira vez é mais uma bela
aquisição para a nossa equipe de Saltimbancos do Apocalipse. Inteiramente novo (sacana
paca!) mas bem calçado nos seus antepassados de pátria-de-espírito (clássico à beca!)
Santos Fernando domina com absoluta precisão a sua palavra e o seu pensamento,
ultrapassando a poesia e atingindo a quintessência da expressão que é o humor
(desculpem a imodéstia do Pasquim. Ou não desculpem.) Pois, ao apresentar Santos
Fernando, é preciso repetir aos eternos críticos (que vivem remoendo a ridícula idéia
de que os humoristas são poetas frustrados) que, infelizmente, estão mais por fora do
que cuco ao meio dia (ou à meia noite, vá lá.) O algo mais não é a poesia mas o
humor. Dizer, por exemplo, que Drummond é o maior poeta do Brasil é um elogio
irrisório. Afirmar, porém, que ele é um razoável humorista, essa, sim, "é a
glória que fica, eleva, honra e consola". Achar, como achamos, que se trata do maior
humorista do Brasil, pombas, me digam, existe , por acaso, maior título bancário? Se
estivéssemos escrevendo em linguagem poética diríamos que Fogo no Coração, de Santos
Fernando, é uma pequena obra-prima. Mas como nosso negócio é outro recomendamos
a leitura dizendo apenas que o lusitano deu uma dentro. (Com o passar do tempo vocês
verão que ela as dá todas.)".
Santos Fernando, escritor português nascido em 1925, já era conhecido no
Brasil através do jornal satírico "O Pasquim", antes que fosse lançado, em
1970, um de seus maiores sucessos: "A sopa dos ricos". Autodidata em literatura,
cursou em Lisboa a Escola Comercial, onde encontrou tipos humanos que logo iriam
prestar-se à sua caricatura ferina. Pois, como escritor, Santos Fernando caracteriza-se
pela exploração do "nonsense", do absurdo cômico da vida. Seus personagens
têm sempre um comportamento crítico, exagerado. Assim, embora tido por humorista, Santos
Fernando considera-se antes um escritor sério, com uma visão crítica alcançada
através do humor e da sutileza. Aos vinte e dois anos, já tinha muitos artigos
publicados nos jornais lisboetas. Mas sua carreira de romancista começou mesmo em 1957,
com a publicação de "A, ante, após, até". Seguiram-se "Seis gramas de
paraíso" (1959), "A bolsa do canguru" (1961), "Areia nos olhos"
(1962) e "Os cotovelos de Vênus" (1963), todos esgotados. Um de seus livros
mais importantes surgiu em 1964: "Tempo de roubar'', onde dois ladrões filósofos
roubam a casa do chefe de polícia, criando depois um verdadeiro caos no país, ao
divulgar uma ordem de soltura de todos os presos. Em "Consolação n.° 3"
(1968) e "A sopa dos ricos" (1970) fica mais bem caracterizada sua veia para o
humor negro. No primeiro, situações embaraçosas para um grupo de herdeiros são criadas
por um boneco eletrônico que faz revelações indiscretas. No segundo, Santos
Fernando ironiza o problema da fome e da miséria, aqui transformado em atração
turística. Autor ainda de "Absurdíssimo" (1972) e "A árvore dos
sexos" (1973), Santos Fernando fez também o argumento de um filme português
("Pão, amor e totobola"), peças de teatro musicado e programas de rádio.
Dirigiu durante um ano "Família e Alegria", folhetim de crônicas de vida
portuguesa. Segundo informações de amigos leitores de Portugal, o
autor faleceu em 1975.