O elétrico

Santos Fernando


Com a mão de fora, o velhinho apanhava as folhas das árvores. Via nas faixas de rodagem camufladas com as folhas das árvores e dava grandes gargalhadas, como se o outono fosse dele. Sentados no mesmo banco, o rapaz e o velhinho eram os únicos passageiros do carro elétrico. Todos os outros bancos, incluindo os laterais, e ambas as plataformas, estavam ocupados por hirtos e silenciosos ramos de flores.

— O senhor tem sorte — disse o rapaz ao velhinho. — Conseguiu o melhor lugar. Um dia, quando casar, como afirmou Saroyan, nunca mais apanhará o lugar da janela.

O velhinho piscou um olho malicioso, de bom vidro alemão de antes do III Reich.

— Hei de manter-me solteiro para aproveitar e gozar uma senilidade tranqüila. Não me quero privar nem das janelas, nem do amor.

— Viaja há muito tempo neste carro?

— Oh, sim. Desde o tempo em que os "elétricos" falavam.

As ruas solitárias e envolvidas por um rastro de fumo azulado tinham amanhecido cobertas da minúscula flor do miosótis. Trepadeiras gigantes revestiam os prédios. Bisbilhoteiros cachos de buganvílias debruçavam-se das varandas. Nas paragens, nervosos girassóis e rosas petulantes aguardavam em bicha o seu transporte popular. E as folhas iam caindo com tal precisão que formavam grandes livros alinhados pelas avenidas. Às vezes, um sopro de vento vindo das montanhas virava-lhes as páginas vegetais até aos capítulos mais empolgantes. O mês de novembro escorria como azeite com um grau de acidez. O sol, aquecido em lume brando, empapava a cidade.

— E que fazia o senhor antigamente, antes de viajar de carro elétrico? — perguntou o rapaz.

Tinham chegado à praça da Tulipa Negra. A estátua da tulipa erguia-se majestosa e isolada no centro da rotunda. Nas esplanadas, aproveitando o verão de São Martinho, os goivos e os gerânios que faziam parte da tripulação de um barco surto no rio, os malvaíscos da Alfândega, os cóleos da estiva e as margaridas dos escritórios das redondezas, aproveitando a hora do almoço, bebiam grandes copos de água. Dois amores-perfeitos beijavam-se junto à estátua, enquanto pequenos narcisos, de uma escola primária, ouviam atentamente as explicações de uma jovem papoila aberta em vermelho à sua erudição.

— Antes de viajar de carro elétrico — respondeu, por fim, o velhinho — era industrial. Fabricava bolas de sabão. Uma ciência que vinha então de pais para filhos. Aparentemente fácil, como transformar o ouro em cobre. Mergulha-se um canudo na água do sabão e depois soprava-se. Assim... — o velhinho encheu as bochechas. — Da minha fábrica saíam por dia, para os cincos cantos do mundo, as mais vistosas bolas de sabão produzidas no país. O céu da cidade era um deslumbramento de balões coloridos, transparentes, diáfanos. Enquanto espetavam o nariz no ar, os homens não metiam o nariz nos problemas dos outros. E as mulheres tinham uns olhos mais belos por os abrirem desmedidamente à fantasia policrômica do espaço. Durante à noite havia milhares de luas que se precipitavam com suaves estampidos pelas chaminés das casas e vinhas aureolar nos jardins a cabeça dos notívagos, dos vagabundos e dos namorados.

— E ganhava muito dinheiro com isso, senhor?

— Oh, não — suspirou o velhinho. — Os poetas não ganham dinheiro. Um dia tive que fechar a fábrica. Os poetas não ganham dinheiro. Já nem me fiavam o sabão. Tentei ainda, numa água furtada, produzir bolas mais econômicas. Mas não há ersatz
(1) para a beleza. As bolas saiam defeituosas; bicudas, quadradas, pálidas, efêmeras. Subiam apenas à altura da cabeça dos homens, excessivamente baixo. As bolas já não tinham vida, nem transportavam no colorido a mensagem de uma cidade de meninos. Nem saltitavam nos telhados, nem entravam pelas janelas, nem rebolavam nas camas, nos tapetes de relva, no empedrado, nos caracóis dos petizes. E a multidão ria das minhas bolas. E eu pensei que a cidade já não merecia as minhas bolas de sabão. Os poetas não ganham dinheiro.

O "elétrico" deteve-se subitamente. Cóleos, begônias e lobélias tombaram para diante.

— Mas ainda tenho uma das primeiras, das autênticas.

O rapaz viu o velhinho tirar do bolso um frasco e um tubo de plástico, e soprar através do tubo.

Uma rutilante bola de sabão ficou momentaneamente suspensa no ar. Mais pequena, uma lágrima do velhinho tombou do olho de vidro alemão de antes do III Reich.

Então o rapaz disse, em voz baixa:

— Bem, avô, é altura de acabarmos com esta farsa.

E com um movimento, rebentou a bola de sabão. Como se tivesse rebentado um enorme caleidoscópio. A campainha tocou, puxada energicamente pelo condutor.

O velhinho sorriu a sua tristeza murcha e fechou a janela, enregelado. O "elétrico" pôs-se em marcha, as flores desapareceram, e os passageiros, empurrando-se, começaram todos a falar ao mesmo tempo.

(1) substituto


Santos Fernando
, escritor português nascido em 1925, já era conhecido no Brasil através do jornal satírico "O Pasquim", antes que fosse lançado, em 1970, um de seus maiores sucessos: "A sopa dos ricos". Autodidata em literatura, cursou em Lisboa a Escola Comercial, onde encontrou tipos humanos que logo iriam prestar-se à sua caricatura ferina. Pois, como escritor, Santos Fernando caracteriza-se pela exploração do "nonsense", do absurdo cômico da vida. Seus personagens têm sempre um comportamento crítico, exagerado. Assim, embora tido por humorista, Santos Fernando considera-se antes um escritor sério, com uma visão crítica alcançada através do humor e da sutileza. Aos vinte e dois anos, já tinha muitos artigos publicados nos jornais lisboetas. Mas sua carreira de romancista começou mesmo em 1957, com a publicação de "A, ante, após, até". Seguiram-se "Seis gramas de paraíso" (1959), "A bolsa do canguru" (1961), "Areia nos olhos" (1962) e "Os cotovelos de Vênus" (1963), todos esgotados. Um de seus livros mais importantes surgiu em 1964: "Tempo de roubar'', onde dois ladrões filósofos roubam a casa do chefe de polícia, criando depois um verdadeiro caos no país, ao divulgar uma ordem de soltura de todos os presos. Em "Consolação n.° 3" (1968) e "A sopa dos ricos" ( l 970) fica mais bem caracterizada sua veia para o humor negro. No primeiro, situações embaraçosas para um grupo de herdeiros são criadas por um boneco eletrônico que faz revelações indiscretas. No segundo, Santos Fernando ironiza o problema da fome e da miséria, aqui transformado em atração turística. Autor ainda de "Absurdíssimo" (1972) e "A árvore dos sexos" (1973), Santos Fernando fez também o argumento de um filme português ("Pão, amor e totobola"), peças de teatro musicado e programas de rádio. Dirigiu durante um ano "Família e Alegria", folhetim de crônicas de vida portuguesa. (Dados extraídos do livro "A Árvore dos Sexos", acima citado). Segundo informações de amigos leitores de Portugal, o autor faleceu em 1975.


O conto acima foi extraído do jornal "O Pasquim", edição nº. 39, de 19 a 25/03/70, gentilmente cedido por Regina Werneck e Luiz Jorge.

[ Voltar ]

RESPEITE OS DIREITOS AUTORAIS E A PROPRIEDADE INTELECTUAL
Copyright © 1996 PROJETO RELEITURAS. É proibida a venda ou reprodução de qualquer parte do conteúdo deste site.