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Arnaldo Nogueira Jr



Santos Fernando


O próximo candidato

Santos Fernando


Ainda jovem (mas já viúva) disfarça, com o desplante de uma cocotte, o grande e belo sorriso que Da Vinci consideraria ingênuo. É um belo sorriso que lhe banha a costa ocidental do rosto e abre uma covinha a nordeste. Tudo nela reflete o louco desejo de vir a ser viúva mais vezes. Consegui-lo-á porque, mulheres destas, persistentes e argutas, fazem amiúde da pertinácia uma fonte de inesgotáveis receitas.

Junto dela, enlevado e quase tímido, o próximo candidato. É um homem normal, o que é difícil afirmar de alguém que está vestido. Quando fala é como se procurasse as palavras num grande bolso cheio de dentes.

— Tem um lindo gato, minha senhora.

A jovem viúva retifica:

— Não é bem gato. Pertence à família dos Félidas.

O próximo candidato rebusca na memória.

— Félidas? Desconheço. Estou, aliás, como sabe, há dois dias na cidade. Mas seja como for, o gato passa ótimamente por gato.

— Mas não é. O paladar é totalmente diferente. O gato é mais doce.

— Sim, — concorda o homem, disposto de antemão a concordar com tudo — sobremaneira o siamês. Já o angorá é meio seco. E o persa, bruto. Diz então a senhora que não é gato?

A jovem viúva abana negativamente a cabecinha.

— Posso garantir-lhe. Foi o meu defunto que o trouxe da Índia.

— Antes de morrer, presumo.

— Bom. Nessa altura ainda não falecera. Mas já estava morto. Dormi quatro anos com um morto.

— Devia ter sido horrível.

Após dizer isso, e desvanecido com o animal, o próximo candidato reforça a idéia engatilhada:

— Pois em qualquer lado que o visse, afirmaria: eis aqui um estupendo, um formidável gato. No entanto, a senhora está certa: o gato é mais doce. Mesmo bastante mais doce do que o cão. A não ser o bull-dog. Gosta?

— Só com muito picante.

Após essa confissão, a juvem viúva enrubece ligeiramente, mantendo-se quieta e direita ao canto do sofá forrado de sarapilheira com frívolas flores campesinas estampadas.

— Não é então um gato?

Movimentos oscilatórios negativos da bela cabeça.

— Não, é tigre. Tigre de Bengala.

— Eis, pois, como eu gosto dos tigres: de Benegala. Já tive um, famélico e velho. Uma fraca figura. Um tigre de província.

A jovem viúva solta uma curta gargalhadinha, que já não fica mal seis meses após o óbito.

— E alimenta-se com prodigalidade, este seu tigre que imita tão bem um gato?

A airosa cabecinha mexe-se para cima e para baixo — um curioso sino de ouro, silencioso mas retumbante. E logo:

— Um tanto esquisito nas ementas, mas quando gosta, como que é um prazer observá-lo. A última coisa que comeu com muito agrado foi meu marido.

— Ah, sim?

— Sim.

— E de uma só vez?

— Oh, não. Pedaço a pedaço. Há ainda um bom naco no congelador.

O candidato ao amor da jovem viúva sorri num crescendo de enlevo e inquire com ar científico:

— Duro de roer, talvez, o ex-marido da senhora?

— Um pouco. Mas o meu tigre tem uma bela dentadura natural que faz inveja à opinião dos médicos de todo o mundo. Quer experimentar?

— Que prazer...

A jovem viúva chama o tigre, como quem chama um bichano. O animal aproxima-se do homem.

— Um verdadeiro gato de mansidão — diz, estendendo a destra até à boca do tigre. — Pronto, já me papou dois dedos. Que rapidez.

A jovem viúva finge-se comovida. O homem, afoito, determina:

— Vou dar-lhe os outros três dedos, para não ficar com a mão defeituosa. — Tira o anel. — Poderia partir um molar... Que limpeza! — e num rasgo de carinho: — Agora que fiquei sem mão, é altura de lhe pedir a sua.

A jovem viúva faz-se de um escarlate de reposteiro de veludo e simula segurar um peito que está longe de cair com medíocres números de fantasia. Muda o fio da conversa:

— Quer ver como ele é obediente?

(Não é o peito, senhores, é o tigre!)

— Estou vendo — suspira —, estou vendo. — Obediente e firme.

(Talvez ele agora se não referisse ao tigre!)

— É um animal que não come nada sem autorização. Repare... Agora, o queridinho não toca neste senhor.
O tigre lambe uma pata e fica muito quieto.

Um autêntico gato.

— O queridinho, agora, pode comer uma orelha a este senhor.

O tigre soergue-se, por segundos. Parece deliciar-se numa carícia vaga.

— Colossal. Mesmo pela base. Permite que lhe dê a outra?


— Por quem é. Ele adora orelhas. Já no que diz respeito a narizes, é um niquento. Detesta-os.

— Um autêntico gato.

— Que não arranha ninguém, aliás.

— Pode afirmá-lo, minha senhora. Levou-me ambas as orelhas sem uma única arranhadela. Este animal num circo...

— O meu marido fez a experiência. Mas o tigre comia os domadores e os espectadores gordos das primeiras filas. É um desses animaizinhos predestinados a atuar em família.

— Um autêntico gato.

— É pena andar um pouco triste — murmura a jovem viúva. — Morreu-lhe a fêmea, há poucos dias. Alivia agora o seu luto de fera. Ainda ontem comeu um mulato que veio aí para soldar um cano.

O futuro candidato solta uma longa exclamação, perguntando respeitosamente:

— E quais são os pratos favoritos deste tigre que parece mesmo um gato?

A jovem viúva baixa a voz e sopra junto das ex-orelhas do seu atual pretendente:

— Perna de padeiro, às segundas. Mão de cobrador, às terças. Braço de carteiro, às quartas. Pé de vendedor ambulante, às quintas. Às sextas, dia de peixe, nem peixe nem carne, adora mastigar políticos.

— Das direitas?

— De qualquer lado.

— E ao sábado e ao domingo? — o homem quer saber tudo, como se fosse casar com o tigre.
E ela, acessível nas explicações:

— Aos sábados e domingos, é vegetariano. Só come jardineiro ao natural e hortelão com salada russa.

— Um perfeito cavalheiro, este animal — confessa respeitoso o futuro candidato. — E as pessoas cá do prédio? Ninguém reclama por a senhora ter um tigre de Bengala em casa?

— Ah, sim. Às vezes vêm aí, batem à porta e a criada abre. Se é de manhã, o tigre toma o seu pequeno almoço de vizinho do segundo esquerdo. Se é à tarde, o tigre toma o seu lanche de vizinha do primeiro direito.

— E à noite, ao jantar?

— Já não há reclamações.

— Não? Por quê?

— Porque já não há vizinhos.

O tigre dá uma marradinha no colo da dona. A jovem viúva suspira profundamente como se lesse o "Kama Soutra".

— Um autêntico gatinho — diz o futuro candidato.

— Cuidado — aconselha a viúva. — A sua cabeça está muito perto da boca do tigre.

— Não tem importância — exclama o futuro candidato. — Trata-se de um autêntico ga...


Santos Fernando, escritor português nascido em 1925, já era conhecido no Brasil através de "O Pasquim" quando, em 1970, foi lançado seu primeiro livro no país e um de seus maiores sucessos: "A sopa dos ricos". Autodidata em literatura, cursou em Lisboa a Escola Comercial, onde encontrou tipos humanos que logo iriam prestar-se à sua caricatura ferina. Pois, como escritor, Santos Fernando caracteriza-se pela exploração do "non-sense", do absurdo cômico da vida. Seus personagens têm sempre um comportamento crítico, exagerado. Assim, embora tido por humorista, Santos Fernando considera-se antes um escritor sério, com uma visão crítica alcançada através do humor e da sutileza.

Aos vinte e dois anos, já tinha muitos artigos publicados nos jornais lisboetas. Mas sua carreira de romancista começou mesmo em 1957, com a publicação de"A, ante, após, até". Seguiram-se "Seis gramas de paraíso" (1959), "A bolsa do canguru" (1961), "Areia nos olhos" (1962) e "Cotovelos de Vênus" (1963). Um de seus livros mais importantes surgiu em 1964: "Tempo de roubar", onde dois ladrões filósofos roubam a casa do chefe de policia , criando depois um verdadeiro caos no país, ao divulgar uma ordem de soltura de todos os presos. Em "Consolação nº. 3" (1968) e "A sopa dos ricos" (1970) fica mais bem caracterizada sua veia para o humor negro. No primeiro, situações embaraçosas para um grupo de herdeiros são criadas por um boneco eletrônico que faz revelações indiscretas. No segundo,
Santos Fernando ironiza o problema da fome e da miséria, aqui transformado em atração turística. Autor ainda de "Absurdíssimo" (1972) e "A árvore dos sexos" (1973), o autor fez também o argumento de um filme português - "Pão, amor e totobola" - peças de teatro musicado e programas de rádio. Dirigiu durante um ano "Família Alegria", folhetim de crônicas de vida portuguesas. Esteve no Brasil nos tempos da ditadura, tendo colaborado com jornais e participado de programas de TV, além de ter lançado livros. Segundo informações de amigos leitores de Portugal, o autor faleceu em 1975.

O conto acima foi extraído do jornal "O Pasquim", edição nº. 32, de 29/01/70, gentilmente cedido por Regina Werneck e Luiz Jorge.

 

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