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Arnaldo Nogueira Jr



Ruy Tapioca


A República dos Bugres

Ruy Tapioca


Sala da Tocha. Palácio dos Vice-Reis. Terceiro do Paço, Rio de Janeiro.
Final da manhã do dia 14 de janeiro do Ano da Graça de Nosso Senhor
Jesus Cristo de 1808.


O negro Anacleto e o filho, Jacinto Venâncio, escravos e serviçais do palácio dos Vice-Reis, raspam e esfregam o piso caveirado da Sala da Tocha. Uma crosta endurecida de cera derretida grudou-se às tábuas do soalhado. Pendurado sob a abóbada da sala, balança enorme castiçal de ferro fundido, onde crepitaram, até ao alvorecer do dia, lumes de grossíssimos círios, que alumiaram reunião do Conselho, sob a regência do Conde dos Arcos de Val de Vez, Dom Marcos de Noronha e Brito, Vice-Rei do Brasil.

— Fio, tuma cuidado módi num ranhá os taco da sala cum as pátula, sinão vai sobrá chibatada pra nóis — murmurou o escravo, voz abafada.

O negrinho Jacinto Venâncio, de quatro sobre o piso, arregalou os bugalhos e espirrou um terno de vezes.
— Valha-me São Benedito! — disse baixinho, e espirrou mais um par de vezes.

— Quíqui foi isso, fio? Porum acauso ranhou os taco? perguntou Anacleto, aos sussurros, morto de medo.

— Não, pai. É esse cheiro de merda que o vento trás do largo do Paço.

Anacleto fungou o ar, por duas vezes:

— Num sinto nada: tô custumado. Passei temporão, cúmu trigue, cargando toné de cocô de branco nas cabeça, as hora dos ângelu, aos finá de todo santo dia, fio, mode dispejá nus mar, nas praia, mais das vez aí mermo di frênti du chafariz du Terrêro du Carmo. Têmpis bão quêle, fio, quadris de fartúris. Os nego, quele têmpis, intê cumia carne de bacurim nas janta, amisturada cum farinha, módi dá sustança nus lombo, pras lide dus eito...

— Que tempo bom que nada, pai. Isso lá tinha jeito de vida boa? — reagiu o negrinho.

Anacleto riu baixinho, sem interromper a esfregadura do assoalho.

— O minínu Jacinto num sábi quiquié fedentina... Os negrero qui truxe seo paí pru Brasí só fedeava a bosta de nego! Os pombeiro marra os nego deitádis nos purão dus navio, lado a lado, módi cabê mais nego, e a cravaria toda é brigádis a cumê e a cagá no mermo lugá qui tá marrado. Vassuncê magina, ingora, u quiquié cheirá bosta di nego pur mais di meis siguido, as mão currentada, sem nem pudê limpá us rabo, fio! Isso cá é o paraís, Jacinto, o Paço é o céu!

— E por que vocês não reagiam? Por que não se rebelavam?

— Purcausadiquê us brâncu é mandiguero, fio. Os mercadô de nego, lá nas África, ricebe órdis dus purtuga módi num botá ajunte nego de tribo iguá. Antonce os mercadô pombeiro marra um nego malé ajunte cum um nego gegê, um nego nagô afica marrado ajunte cum um nego bantu, um nego minas ajunte cum um nego cabinda, e ancim pur adiânti... As tribo, fio, fala caduma de módi adeferênti, antonces... Os nego num si intendia pra nada. Vassuncê, purum acauso, já sube de boi qui lertou prusotro qui tudo qui é boi vai morrê iguá? Não, fio, purque si boi si intendesse eles num ia tudo pro matadô ajunte e filiz, sem arreclamá, num é os causo? Cum os nego si dava tarquá: é impossive revorte cum quem num tinha sabeação do qui tava cuntecendo... Era isso, fio — respondeu Anacleto, voz sussurrada, sem interromper o serviço.

— E a viagem dos negreiros? E a chegada ao Brasil?

— Apois, fio. Os nego qui desvive nas viage, os branco ajoga nas água, prus tiburão cumê. Ouêlis qui chega vivo é trucado pur artíguis de cumê ou é avendido, ali mermo, nus porto de mercação, prus dono de prantação, prus creador de gado e asoutros animá de comeação, prus servícis de sesmaria, alambicage, prus agrádis e servícis nas casa grande, asinfim: prus trabaio qui purtuga e branco num gosta de fazê... Num ranha os taco, Jacinto! Tem dó dos lombo do teu véio! arrematou, repreendendo o filho.

— É raiva, pai, me desculpe. Essas histórias da nossa raça, de gente que não reage, me amofina. Se Ganga-Zumba, Amaro e Zumbi se revoltaram, por causa de que a semente não vingou?

— Apois, fio. Num si mufine qui tudo avém ao seo têmpis. Us causo é as quadris das vida qui nóis apareceia nos múndi: seo pai já se falfô, de sol nascê a sol murrê, nus eito, nas prantação de cana e de café, pur mais de vínti ano. Oje tô cá nos Paço, nus servícis qui siá moça fazeia inté cum os pé nas costa... Vassuncê, si nossossinhô jesuscristo assi apermiti, um dia num vai mais tê essa vídis, fio. Vassuncê é brasileiris, sábi acontá e falá módi os purtuga e os mazombo, tem padim branco e, alouvado seje frei ftodovaio, quinté a línguis de nossossinhô ele tinsina!

— Se aquieta, pai. Tem baticum de tropa se aproximando da sala... — alertou o negrinho.

— Apois, fio — retrucou Anacleto, e silenciou.

A guarda de soldados do palácio, que esteve de serviço durante a noite, está sendo rendida. A vozearia vai alta, ressoam as batidas dos butes nas pedras do pátio; ferros repenicam; há um bulício na tropa. Um sargento abaçanado berra comandos, ordens-unidas, destampatórios. A algaraviada reduz, à medida que se afastam, marchando para o alojamento. A Sala da Tocha está no remanso, novamente.

— E tinha tanto castigo como hoje, pai? — retomou a conversa Jacinto.

— Vige, si! Os nego qui trabaiava nos eito panhava tudo santo dia, fio! mermo si assuntando dereito: os branco diz qui nego aprecisa de apanho, módi afuncioná mió. Si os nego num fazeiava tripulia, .tumava, assi mermo, meia dúzis de achibatada nus lombo, antes dus sirvíci acumeçá, módi quecê os musclo, é o qui os branco diz. Êlis chama isso di quecimento; diz qui é pros nego num si estropiá nus eito, num apegá mulésti e trabaiá cum ráivis, módi dá mais rendimêntis... Ingora, o acuitado do nego qui arguma relia fazeiava, vige! nem nossossinhô arrimidiava... O nego afaltoso arricebia nos lombo, amais do quecimento, de duas a cinco dúzis de achibatada, as vez inté mais, as vez inté murrê, marrado num pelourim, mor das vez sem sabeação dos purcausadiquê qui murreu!

— Então, nada mudou até hoje! E se matava negro inocente, pai?

— Eh-eh, fio. Seo pai apresenciô a disfilicidade do nego Altino, qui afoi turrádis em fôrnis di olaria di cosê telhame! O nego Altino foi ajugado, marrado com córdis e correnta, vivinho, no abraseiro de fogo alto de cosê adobe, adispois do capitão tê aquebrado os dênti dele cum turquês, umporum, sem apiedádi. 0 nego Altino aberrava atanto di dô qui seo pai, inté oje, corda, sonha, iscuita os urro, qui inté acho os guincho dele tá carcerado na mia cabeça, fio, e pelos ajeite, vai acumigo pras cova...

— E o que tinha feito esse infeliz, pai?

— Hum-hum, fio. O coroné afalô qui o nego Altino buliu cum a siá fia dele, donzel e vige prendádis, qui tava aprometida e se apreparando pra noivá cum nossossinhô jisuscristo, em badia de irmãs. Causo verdadero, fio, era os contrá: a siá fia do coroné é qui atentava cum o acuitado do nego Altino, e ele é qui afugia dela módi o coisarruim do nossossinhô... 0 nego Altino era bonito, com os óio craro, furçudo qui só ele, e vivia de cobrir as nega, mor parte do têmpis, módi arreproduzi fios acume ele, pra sê vendido adispois de crescidim, pur órdis dos branco... Acume Altino num quis furnicá cum a siá fia do coroné, a marvada se avingô afalando pru pai qui ele tinha atentado furnicá cum ela as força... Desverdade, fio. O nego Altino não fazeava má nem prum bacurim, e nem dava conta do trabaio dele, qui o qui num fartava era nega prêli cubri... A siá fia do coroné é qui era uma branca fea qui só a nicissidade, tinha bigódis e era banhuda acúmu uma anta prênhis...

Jacinto alertou Anacleto para nova movimentação de tropa no pátio. Havia notícia, vozeada por um polícia do terreiro do Paço, de brigue de guerra da esquadra portuguesa entrado na barra, com correio urgentíssimo da Corte; o comandante já estava a desembarcar no cais. O negrinho largou a espátula e o esfregão, olhou para os lados, nâo viu ninguém; colou o indicador esticado sobre os lábios fechados, pedindo silêncio ao pai. Encaminhou-se pé ante pé até uma janela que dava para o pátio interno, e de lá observou os exercícios militares de uma tropa de pretos forros, conhecida como terço dos Henriques. Má figura fazia aquele pelotão de pretos molambentos, todos de espinhaço curvo, desaprumados para frente uns, para trás outros, beiçolas caídas, malajambrados dentro de fardões costurados para reinóis, gorros tortos e largos, dólmãs surrados, butes cambaios, marchadura trôpega e descadenciada, mosquetes jogados aos ombros como se fossem vassouras.

— Marchem, cavalgaduras, marchem! — gritava o sargento reinol, espada à mão.

— Mais pareceis uma tropa de pangarés pretos molestados por moscas ao lombo! Sois uma malta de imbecis inservíveis! Pudesse eu contar com antas para domesticar, menores sacrifícios faria! Vou trocar esta espada por um rebenque, porque da linguagem dele vós entendeis melhor, hein? Marchem feito gente, seus infelizes! Não precisais de instrutor militar: um almocreve cá teria mais serventia e valimento! Acerta o passo com essas tuas patas de mula manca, ó Benedito! Olha que te amarro ao tronco e te mato as saudades de vergastadas à bunda, hein? Ai, Jesus! é com essa mulada que a pobre São Sebastião vai lutar contra os ingleses? Com semelhante milícia esta desgraçada província está desprotegida até dos bugres frecheiros de Nictheroy! — esgoelava o sargento, carótida aos pulos, pescoço rubro de galo de rinha.

Jacinto Venâncio a tudo assistiu, ruminando ódios à janela. Os remoques do sargento arrogante bateram-lhe n'alma como vergastadas. O negro Benedito, que mal se apruma em pé, e vai pelo pátio a marchar com os botins rasgados nos joanetes, já anda pelos quarenta, a despedir-se da vida. É tio de Jacinto, irmão da escrava Venância, mãe do moleque. Benedito trabalhou no eito dos dez aos trinta e oito anos de idade, dezoito horas por dia, fizesse chuva ou sol; foi alforriado quando adoeceu. Não por piedade do dono, mas em razão do elevado custo de manter um escravo estropiado. Benedito não procriou: teve os testículos esmigalhados por um capitão-do-mato, quando fugiu de um engenho de cana, em Campos, e foi recapturado. Sempre tratou Jacinto Venâncio como se seu filho fosse.

— Vassuncê vai miorá essa terra, Jacinto Venâncio! comentou certa feita.

— Vassuncê é brasileiro, e vai sabê ajudá a apurá a raça, e vai istudá, purcausadiquê já chegô agentado ao múndis, já sabe afalá módi us branco... Teo pai, mais tua mãe e mais eu, só tamo aqui módi acumpri as nossa sina e amostrá prus novo a desjustiça qui é o cativero, e qui nego num é bicho, e qui aprecisa de liberdádis, cúmu quarqué hômi! E vassuncê vai acuntinuá Zumbi, Ganga-Zumba e tudo os nego de fíbris e sonhadô cum os bem da raça. É aprecise transformá essa terra de papagais e de purtuga reimôsu em nação de gente nacioná! E isso num é adifice, fio. Nos Caríbis já conteceu revórti de iscrávis e nas França, nus remótis, tantas afazeu o úrtimo rei e os maiorá de lá, qui o povo, branco acumo êli, acurtou fóris os gragumil dêli, e os da famia dêli tumém!

Um tenente reinol, de robusta bigodeira, careca de ovo, e acentuada proeminência abdominal a escapulir por cima do cinturão, está parado sob a umbreira da porta da sala da tocha.

— Tu, aí, ó negrinho biltre, anda cá! — gritou, dedo balofo apontado para Jacinto Venâncio. — Leva esta jarra de vinho, agora mesmo, para a sala do trono! Avia-te!

Jacinto não se fez de rogado: nariz empinado, apanhou a jarra, cheia de vinho, das mãos do tenente. Este, ao reparar Anacleto raspando o chão, de quatro, traseiro voltado para a porta, não resistiu e aplicou-lhe vigoroso pontapé nos fundilhos: "Levanta esse rabo, negro sujo! Não estás a perceber um oficial português no recinto?" Ato contínuo, puxou o jaquetão do uniforme por debaixo do cinturão e afastou-se da sala, ruidosamente, batendo o solado das sapatorras nas tábuas do piso. O negrinho pousou a jarra de vinho no soalho e foi ajudar o pai, caído de bruços, esparramado sobre a sujeira das velas.

— Num foi nada, fio, dexa istá qui num foi nada. Vá acumpri cum as órdis do nhonhô oficiá, vá, fio!

Jacinto Venâncio caminhou em direção à jarra de vinho pousada sobre o piso, olhou para os lados, tirou o pinto para fora e urinou dentro do vasilhame, sob o olhar apavorado de Anacleto.


Ruy Tapioca
nasceu em Salvador — BA, em 1947, e reside no Rio desde 1958. Após exercer cargos de gerência em empresas estatais e ensinar em universidades, aposentou-se e dedicou-se a escrever, além de colaborar, como voluntário, em um ONG de defesa de direitos humanos. Seu romance de estréia, "A República dos Bugres", Editora Rocco — Rio de Janeiro, 1999, foi agraciado com quatro prêmios literários: Guimarães Rosa (Minas de Cultura) de romance, 1998 (escolhido por unanimidade pela comissão julgadora, entre 401 originais); Octávio de Faria, de romance, da União Brasileira de Escritores, 1998; Biblioteca Nacional, para romances em andamento, 1997, e Prêmio Literário Cidade do Recife, ficção, 1998 (menção honrosa).

Trata-se de um romance histórico, em tom picaresco, envolvendo um período que abrange da chegada da família real portuguesa ao Brasil em 1808, à Proclamação da República, em 1889, na visão das classes subalternas, ou dos enjeitados, no livro representadas por um suposto filho bastardo de Dom João VI, que se torna mestre-escola, e um filho de escravos, que chega a capelão do Exército Brasileiro na Guerra do Paraguai.

O autor começa com um conceito de Honoré de Balzac: "Há duas histórias — a história oficial, mentirosa, que se ensina, a história ad usum Delphini; depois, a história secreta, onde estão as verdadeiras causas dos acontecimento, uma história vergonhosa." Sua opção — ou pretensão — é pela segunda, a secreta, portanto vergonhosa.

Desse livro, fazemos chegar aos nossos leitores uma pequena amostra, texto constante da pág.44 e seguintes.

Obrigado ao amigo Carlos Alberto Pires de Castro pela dica.

 

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