Chapeuzinho vermelho
Rubem Alves
Os americanos são uma gente divertida. Lá tem sempre uma coisa na moda, a que eles dão
o nome de fad. Desses fads um dos mais persistentes tem sido a chamada PC
language politically correct language, linguagem politicamente correta.
O que é isso? Há jeitos de falar e jeitos errados de falar. Jeito certo de falar é
aquele que está de acordo com a ideologia. Jeito errado de falar é aquele que não está
de acordo com a ideologia heresias. As heresias na fala não podem ser toleradas.
Têm de ser eliminadas. A Inquisição foi um exercício de PC language. Quem
falasse linguagem diferente daquela que a Igreja havia definido como correta ia para a
fogueira. O Generalíssimo Franco também fez uso da PC language. A palavra
seio foi proibida, como erótica. O erótico é herético... Poeta que usasse
a palavra seio num poema corria o risco de ir para o garrote vil. A PC
language americana proíbe que se use a palavra ele para se referir a
Deus. Isso é machismo! Então Deus é homem? A PC language proíbe que se contem
piadas que façam gozação e humilhem certos grupos sociais como gays, negros, mulheres.
Eu acho que está muito certo. Mas logo aparecem os ultraortodoxos. Os ultraortodoxos se
põem logo a caçar bruxas e a policiar a fala. Falar é muito perigoso... Uma vez,
fazendo uma fala nos USA, usei a expressão to be impregnated
ser engravidado num sentido metafórico. Pois uma senhora, do auditório,
interferiu prontamente em nome da PC language, dizendo que eu estava usando sexist
language...
Encontrei numa livraria de aeroporto um livro de estórias infantis reescritas segundo a PC
language. Claro, o escritor estava fazendo gozação. Aí me deu um impulso de
reescrever a estória do Chapeuzinho Vermelho para os dias de hoje, seguindo as linhas da PC
language, mesmo porque não há criança que acredite na estória como foi escrita.
Era uma vez uma jovem adolescente a quem todos conheciam pelo apelido de Rúbia.
Rúbia é uma palavra derivada do latim, rubeus, que quer dizer vermelho, ruivo.
Rúbia era ruiva. Ruiva porque tingira o seu cabelo castanho que ela considerava vulgar.
Ela pensava que uma ruiva teria mais chances de chamar a atenção de um empresário de
modelos que uma morena. Morenas há muitas. O vermelho dos seus cabelos era confirmado
pelo seu temperamento: ela era fogo e enrubescia quando ficava brava.[Nota 1: Se, nessa
estória, eu lhe desse o nome de Chapeuzinho Vermelho ninguém acreditaria. As
adolescentes de hoje não andam por aí usando chapeuzinhos vermelhos...]
Rúbia morava com sua mãe numa linda mansão no condomínio "Omegaville". Pois
numa noite, por volta das 10 horas, sua mãe lhe disse: "Rubinha querida, quero que
você me faça um favor..." Rúbia pensou: "Lá vem a mãe de novo". E
gritou: "De jeito nenhum. Estou vendo televisão...". "Mas eu ia até
deixar você dirigir o meu BMW...", disse a mãe. Rúbia se levantou de um pulo. Para
guiar o BMW ela era capaz de fazer qualquer coisa. "Que é que você quer que eu
faça, mamãezinha querida?", ela disse. "Quero que você vá levar uma cesta
básica para sua vovozinha, lá no Parque Oziel. Você sabe: andar de BMW, depois das 10
da noite, no Parque Oziel é perigoso. Os seqüestradores estão à espreita..."
[Nota 2: a estória original contém dois problemas, relativos ao caráter e às
intenções da mãe. Primeiro: mandar uma menina pequena, sozinha, pela floresta, sabendo
que havia um lobo solto ou a mãe era um tola irresponsável ou ela estava com
impulsos assassinos em relação à filha, desejando que o lobo a comesse. O segundo
problema: viviam sozinhas a mãe e a filha; não há referências a um pai ou marido.
Então, qual a razão para que a avó morasse do outro lado da floresta? Não seria mais
prático que elas vivessem juntas? Chapeuzinho não teria que enfrentar um lobo para que a
vovozinha comesse queijos, bolos e ovos...]
Rúbia já estava saindo da garagem com o BMW quando sua mãe lhe gritou: "A cesta
básica! Você está se esquecendo da cesta básica!" Com a cesta básica no BMW
Rúbia foi para a casa da vovozinha, no Parque Oziel. Foi quando o inesperado aconteceu.
Um pneu furou. Até mesmo pneus de BMWs furam. Rúbia se sentiu perdida. Com medo, não.
Ela não tinha medo. O problema era sujar as mãos para trocar o pneu. Foi quando uma
Mercedes se aproximou dirigida por um senhor elegante que usava óculos escuros. Há
pessoas que usam óculos escuros mesmo de noite. A Mercedes parou e o homem de óculos
escuros saiu. "Precisando de ajuda, boneca", ele perguntou? "Claro",
ela respondeu. "Preciso que me ajudem a trocar o pneu furado". "Pois vou
ajudar você" disse o homem. "Você precisa de proteção. Esse lugar é muito
perigoso. A propósito, deixe que me apresente. Meu nome é Crescêncio Lobo, às suas
ordens". Aí ele se pôs a trocar o pneu cantarolando baixinho uma canção que sua
mãe lhe cantara: "Hoje estou contente, vai haver festança, tenho um bom petisco
para encher a minha pança..." Rúbia, olhando para o Crescêncio Lobo, pensou:
"Que homem gentil e prestativo! E ainda canta enquanto trabalha... É dono de uma
Mercedes! Acho que minhas orações foram atendidas!" "Pronto", ele disse.
"Para onde você está indo, boneca?" "Vou levar uma cesta básica para
minha avó." "Pois eu vou segui-la para protegê-la..." E assim, Rúbia,
sorridente sonhadora, se dirigiu para a casa de sua avó escoltada por Crescêncio Lobo.
Ao chegar à casa da avó Crescêncio Lobo se surpreendeu. Pensou que ia encontrar uma
velhinha, parecida com a avó de Chapeuzinho Vermelho. Que nada! Era uma linda mulher, uma
senhora elegante, fina, de voz suave, inteligente. Logo os dois estavam envolvidos numa
animada conversa, Crescêncio Lobo encantado com o suave charme e a inteligência da avó,
a avó encantada com o encantamento que Crescêncio Lobo sentia por ela. Crescêncio Lobo
pensou: "Se não fossem essas rugas, ela seria uma linda mulher..." Rúbia
percebeu o que estava rolando, e foi ficando com raiva, vermelha, até que teve um ataque
histérico. Como admitir que Crescêncio Lobo preferisse uma velha a uma adolescente?
Começou a gritar, e por mais que os dois se esforçassem, não conseguiram acalmá-la.
Passava por ali, acidentalmente, uma viatura do 5º Distrito Policial. Os policiais,
ouvindo a gritaria, imaginaram que um crime estava acontecendo. Pararam a viatura e
entraram na casa. E o que encontraram foi aquela cena ridícula: uma adolescente ruiva,
desgrenhada, gritando como louca, enquanto a avó e o Crescêncio Lobo tentavam
acalmá-la. Os policiais perceberam logo que se tratava de uma emergência psiquiátrica
e, com a maior delicadeza, (os policiais do 5º DP são sempre assim. Também pudera! O
delegado chefe trabalha ouvindo música clássica!) convenceram Rúbia a acompanhá-los
até um hospital para ser medicada. Rúbia não resistiu porque ela já estava encantada
com a força e o charme do policial que a tomava pela mão. Afinal, aquele policial era
lindo e forte!
Quanto à avó e ao Crescêncio Lobo, aquela noite foi início de uma relação amorosa
maravilhosa. Crescêncio Lobo percebeu que não há cara de adolescente cabeça-de-vento
que se compare ao estilo de uma senhora inteligente e experiente. E a avó, que ouvira de
uma feminista canadense que o melhor remédio para a velhice são os galetos ao primo
canto, entregou-se gulosamente a esse hábito alimentar gaúcho. Crescêncio Lobo
pagou-lhe uma plástica geral e a avó ficou novinha. E viveram muito felizes, por muitos
anos. Quanto à Rúbia, aquela crise foi o início de uma feliz relação com o policial
do 5º DP, que tinha um mestrado em psicologia da adolescência...
Texto extraído do jornal "Correio Popular" Campinas, edição de 02
de maio de 2002.
Rubem Alves: tudo sobre o autor e sua obra em "Biografias".
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