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Arnaldo Nogueira Jr



Regina Rheda

 


Falta d'água

Regina Rheda


Numa noite de sexta-feira, véspera de um fim de semana prolongado, os moradores do Edifício Copan que tinham um emprego do qual voltar encontraram um aviso do síndico colado nas portas dos elevadores. As cópias xerox de um bilhete escrito à mão diziam:

Prezados senhores condôminos. Lamento informar que a bomba d’água quebrou e que ficaremos sem água por um período de 72 a 96 horas. Sem mais para o momento, Peixoto.

Quem estava de viagem marcada para passar o feriadão fora não conseguiu evitar um sentimento de desdém pelos pobretões que iam ter que enfrentar a estiagem em São Paulo. “Quando voltarmos, o problema já terá sido resolvido”, avaliaram, deixando para trás um edifício que torrava num verão de 35 graus.

Fora uns dois milhares de viajantes, sobraram cinco mil moradores que passaram a representar corajosamente o papel de bombas d’água humanas para manter seus lares irrigados. Pelo menos podiam contar com a água das torneiras da garagem!

E lá foram eles dentro dos elevadores, num contínuo sobe-e-desce, bombeando água entre o trigésimo segundo andar e o segundo subsolo, carregando baldes, panelas, caldeirões, garrafas de Coca litro, regadores, moringas e tudo quanto pudesse comportar água, inclusive latas grandes que um dia contiveram tinta. Se houve um jardim constantemente regado naquele feriado, esse jardim foi o piso dos elevadores.

A garagem, antes fria, árida e obscura, agora abrigava alguma vida social que começava a germinar em volta das torneiras. Vizinhos que mal se olhavam passaram a trocar umas palavrinhas durante o abastecimento de um balde ou de um galão. Mocinhas namoradeiras aprenderam a hora em que seus eleitos estariam na frente das torneiras e, maquiadas para festa, iam buscar água em traje de passeio. Algumas compraram baldes novos, envergonhadas com a exposição de seus utensílios gastos pelo uso. Outras combinaram as vestimentas com as cores dos baldes.

Moleques de rua que vadiavam pela vizinhança encontraram um novo jeito de ganhar uns trocos. Encarapitados nos corrimões da garagem, ofereciam seus serviços a senhoras de meia-idade. “Vai uma ajuda aí, tia?”. Elas aceitavam, deixando-os sacudir desajeitados os baldes que iam derramando água pelo caminho de seus apartamentos.

Quantas receitas de doces e salgados não foram trocadas na fila de espera para um banho de chuveiro à porta do banheiro malcheiroso da garagem! Houve uma tarde em que até uma equipe de televisão apareceu lá para fazer uma reportagem.

Jovens mães acharam mais prático descer suas trouxas de roupa suja e instalar-se diante de uma torneira para esfregar shorts e fraldas à vontade. Ao lado delas, senhores solitários tentavam recuperar a cor branca de punhos e colarinhos de camisas puídas. Donas de casa caprichosas areavam bules e frigideiras, acompanhadas pelas filhas pequenas que, só de calcinha, chapinhavam nas poças brincando de piscina.

Limpas as roupas e fulgurantes as panelas, gente, baldes e bacias amontoavam-se dentro dos incansáveis elevadores para subir o arquitetônico morro de concreto.

Terminado o feriadão, voltaram de viagem os dois mil moradores de melhor sorte. À porta dos elevadores, encontraram um aviso:

Senhores condôminos. Devido a problemas com a nova bomba d’água, lamento informar que ficaremos sem água por mais 96 horas. Faz-se necessário dizer que todos os esforços estão sendo envidados no sentido de superarmos este difícil momento do Edifício Copan. Peixoto.

— É um abuso! — rosnava a cartomante do 21-E. — O abastecimento de água pode atrasar, mas se o pagamento do condomínio atrasar, lá vem multa!

— A administração não presta! — desabafava a bicha cinqüentona do 32-E, abraçada ao seu pequeno cantil recém-abastecido. — Como é que nós não temos uma porra de uma bomba sobressalente?

— Temos que chamar esse síndico no saco! — conclamou a cartomante, desembarcando no seu andar uma cesta de lençóis torcidos.

Naquela noite, cerca de cem moradores reuniram-se na garagem para exigir do síndico uma satisfação. Cem não era um número representativo dos sete mil moradores do prédio, mas isso era um detalhe irrelevante face à emergência. Maria, a louca do 20-E que andava vestida de santa, contribuía para a manifestação com a voz fanhosa do seu megafone:

— Que a Virgem Maria faça correr água benta nos canos do Edifício Copan!

O síndico era criatura de muita sensibilidade e pouca firmeza. Em alguns meses de mandato percebera que não tinha vocação para prefeito de uma cidade vertical cheia de contrastes e problemas. Já tivera que aumentar a taxa do condomínio quatro vezes por conta de reformas hidráulicas, elétricas e mecânicas, e quanto mais consertava o prédio mais estrago aparecia.

Chegou à assembléia uma hora e meia atrasado, quando a reunião se reduzia a cinqüenta e dois gatos pingados mais a Maria que era sempre a última a abandonar eventos de qualquer natureza. Justificou o atraso, deu razão aos condôminos, pediu perdão pelo transtorno, creditou o problema da bomba d’água à administração anterior, ressaltou seu empenho em normalizar a situação e anunciou sua renúncia para o início do mês seguinte. Quem quisesse que administrasse aquele abacaxi.

— Frescura de boneca — cochichou a cartomante a uma vizinha. — Diz que vai renunciar só para ver se a gente grita “Fica! Fica!”.

A notícia da renúncia do síndico deu aos moradores a impressão de que a situação melhorava e que em algum ponto do universo uma entidade justiceira trabalhava para vingá-los.

Ao fim de outros quatro dias, quase todos os elevadores tinham pifado devido ao excesso de uso. Pelo mesmo motivo, as torneiras da garagem também não funcionavam mais, e foram amarradas com tiras de pano e elásticos.

Então a bomba d’água começou a funcionar, injetando fluido vital nas veias do edifício. Revigorados, os moradores lavaram seus pisos, suas coisas, seus corpos e suas almas. O líquido amenizou a aspereza daquelas existências e serviu como emoliente dos corações endurecidos pelo desconforto. Os ânimos se acalmaram, até que veio a conta do condomínio do mês. Junto, uma mensagem datilografada do síndico:

Senhores condôminos. Lamento informar que devido à aquisição de duas bombas d’água, ao reparo dos elevadores e à troca das torneiras da garagem, a taxa do condomínio subiu 80%. Cordialmente, Peixoto.


Regina Rheda (1957), é natural de Santa Cruz do Rio Pardo(SP). Formada em Cinema pela Universidade de São Paulo, suas neochanchadas musicais "'Fuzarca' no Paraíso" e "Folguedos no Firmamento" estão entre os filmes que inauguraram o boom do curta-metragem brasileiro, em meados dos anos 80. Por 15 anos, trabalhou como roteirista e diretora de vídeo, cinema e TV.

Ganhou o Prêmio Jabuti com seu livro de estréia, "Arca sem Noé - Histórias do Edifício Copan" (Paulicéia, 1994; relançado pela Editora Record em 2010). Um dos contos do livro, "O mau vizinho", foi premiado com o prêmio "Maison de l’Amérique Latine", do Concurso Guimarães Rosa de Contos, em 1994.

Seus outros livros são "Pau-de-arara Classe Turística" (Record, 1996), romance sobre uma imigrante brasileira na Europa; a coletânea de contos "Amor sem-vergonha" (Record, 1997); o romance sobre as "impossibilidades" do romance, "Livro que Vende" (Altana, 2003); e "Humana festa" (Record, 2008), o primeiro romance brasileiro a tratar dos direitos animais como tema principal.

A maior parte de sua obra está publicada em inglês pela University of Texas Press no volume "First World Third Class and Other Tales of the Global Mix" (2005).

Seus textos vêm sendo usados em cursos de literatura brasileira de várias universidades norte-americanas, além de algumas brasileiras.

Vive entre o Brasil e os Estados Unidos desde 1999.


O texto acima foi publicado no livro "Arca sem Noé — Histórias do Edifício Copan", Editora Paulicéia - São Paulo, 1994, pág. 67, e nos foi gentilmente enviado pela autora.


E-Mail: regina.rheda@yahoo.com.br

Sítio: http://reginarhedaescritora.blogspot.com

 

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