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Arnaldo Nogueira Jr



Ribeiro Couto

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O bloco das mimosas borboletas

Ribeiro Couto


Foi na véspera do carnaval que encontrei o Sr. Brito. Ele esperava o bonde junto ao Hotel Avenida.

— Boa tarde, Sr. Brito !

— Boa tarde!

E, como eu parasse para acender um charuto, o Sr. Brito, aproximando-se, pediu com humildade:

— O seu fogo, faz favor?

Estava ali h?dois minutos, com o cigarro apagado, ? espera do bonde e de um conhecido para emprestar-lhe o fogo. O Sr. Brito ouviu dizer, ou leu num almanaque, que o banqueiro Laffite obteve o seu primeiro emprego porque o futuro patrão o viu curvar-se para apanhar um simples alfinete. Então faz economias de caixas de fósforos, de cafés, de engraxate. Pode ser que algum capitalista se aperceba disto e o convide para um alto negócio.

Aliás, h?uma outra razão para o Sr. Brito agir desse modo: possui duas interessantes filhas, as duas com vinte anos e pouco, as duas caríssimas, as duas impondo uma importância social que est?em absoluto desacordo com o modesto cargo que o Sr. Jocelino de Brito e Sousa ocupa, silenciosamente, no Ministério da Fazenda.

Eram cinco e meia da tarde. Como a multidão nos acotovelasse, convidei o Sr. Brito a tomar um aperitivo na Americana. O Sr. Brito, aceso o seu cigarro, principiara a lamentar-se; e a conversa, ainda que fastidiosa, excitava a minha curiosidade.

O Sr. Brito ?dos homens mais notáveis da cidade. Eu ?que sei. No entanto, ninguém lhe d?importância. Tem uma obesidade caída, um desânimo balofo, um desacoroçoado j eito de velho funcionário pobre que se desespera em casa com as meninas. As meninas querem vestidos, precisam freqüentar a sociedade, consomem-lhe todo o ordenado. Ultimamente, deram para um furor de luxo que não tem medida. E o Sr. Brito, triste, cogitativo, anda sempre assim, de fazer d? os braços cheios de embrulhos, o palet?saco poeirento, os cabelos grisalhos esvoaçando-lhe pelas orelhas, sob o chapéu de palha encardida.

— Sr. Brito, um vermute.

— Acho bom, doutor, acho bom.

Tem um pormenor impressionante no rosto: as sobrancelhas muito peludas, também grisalhas, como que enfarinhadas de cinza. São agressivas as suas sobrancelhas.

Na pessoa mansa do Sr. Brito, esse ponto enérgico ?único, isolado. Tirando as sobrancelhas, todo ele ?doçura.

A pêndula do bar martelou seis horas. O Sr. Brito, que ia engolir o vermute, teve uma indecisão, o cálice suspenso ?boca.

Li nos seus olhos inquietos esta frase : “As meninas estão ?minha espera”.

Exatamente. O Sr. Brito bebeu o gole e disse:

— As meninas estão ?minha espera.

Ah, a minha feroz alegria! O Sr. Brito ?assim : um homem que eu, h?tempos, venho surpreendendo, desvendando. Tomando posse da sua individualidade sem resistência. Estou a ponto de “saber” todo o Sr. Brito. H?ocasiões em que, encontrando-o, digo para mim mesmo : “Ele vai falar-me de um artigo tremendo que saiu hoje contra o presidente da República na Vanguarda”. ?delicioso : o Sr. Brito depois de me apertar a mão põe-se a conversar sobre vagas coisas e, de repente, como se obedecesse ao meu comando, pergunta:

— Leu hoje a Vanguarda? Que artigo tremendo! Que horror!


* * *

— Tome outro vermute, Sr. Brito.

Sacudiu a cabeça que não.

— As meninas devem estar impacientes.

— E como vão elas?

— Assim, assim. O senhor ?que não quis mais aparecer?

(Ele pergunta isso sem o menor interesse oculto. Sabe perfeitamente que não pretendo casar-me.)

— Muito serviço, não calcula.

— Mas aos domingos, doutor! Uma vez ou outra ! D?nos sempre muita honra e principalmente muito prazer.

— Obrigadinho, obrigadinho. Hei de aparecer. O senhor sabe que aprecio muito as suas meninas.

— Elas são boazinhas, isso ?verdade. Gostam de divertir-se, de dançar, de brincar. Não pensam na vida.

Não pensam na vida! Para os seus olhos de pai essas duas interessantes princesas de arrabalde não pensam na vida. E elas não pensam senão na vida! Tratam exclusivamente de suas preciosas pessoinhas, dos seus preciosos proj etos de casamento, do seu precioso luxo que custa as lágrimas secretas do pai desconsolado.

— Faça o favor, beba outro.

Aceita. E expõe o seu caso de hoje, o caso que eu h?vinte minutos estou esperando, como um caçador mau, de emboscada:

— Não avalia as dificuldades que passei de ontem para c? Imagine que era necessário arranjar um conto de réis e eu não encontrava agiota nenhum que me quisesse emprest?lo. Afinal, sempre convenci o Moraes, aquele da Rua da Misericórdia, que por sinal todos os meses j?me rói metade do ordenado. Esta vida, meu caro doutor!

— Sei o que ela ? Sr. Brito. Eu também tenho os meus apertos.

O vermute o perturbou um pouco, predispondo-o para a confidência. Continuo insinuando a expansão, pelo meu ar atento, pelo meu todo solicito, pelas minhas frases curtas que deixam sempre uma ponta, para o Sr. Brito emend?la com o que tem no íntimo.

- As meninas morreriam de tristeza se eu não conseguisse nada.

— Ah!

— O senhor sabe, são moças, querem divertir-se.

— ?natural!

— O carnaval faz todo mundo perder a cabeça. O senhor compreende: qual ?o pai que numa ocasião destas não f ar?um sacrifício?

— Justo!

Pedi mais dois vermutes ao garçom.

— Esses empréstimos abalam muito a bolsa de um homem, Sr. Brito.

- Um horror. Nem fale.

— Mas obteve, então?

Toma um gole. Chupa os beiços, enxugando-os. E desabafando:

— Ah, felizmente!

— Meus parabéns sinceros.

Sorriu, feliz. Seus olhos, debaixo das sobrancelhas crespas e peludas, cintilaram contentes. As filhas morreriam de tristeza se não tivesse arranjado! Tomou outro gole.

Tive uma sensação inefável de haver ganho a tarde.

— Sr. Brito, h?de me dar licença...

— Pois não, pois não!

Paguei a despesa, levantei-me. Ele bebeu o resto do cálice e levantou-se também, sobraçando os embrulhos. Senti que ia dizer-me qualquer coisa ainda sobre as meninas, sobre o carnaval, sobre aquele embrulhos, sobre o empréstimo...

— Elas estão ansiosas. Est?vendo isto? São as fantasias que j?haviam escolhido na cidade. E caixas de lança-perfume. E confete.

— E serpentinas.

— Tudo !

O Sr. Brito, na sua ternura, ter-me-ia abraçado se não foram os embrulhos.

— Não sabe o que ?ter duas filhas, dois anjos como eu tenho !

O bonde da Gávea parara para o assalto dos passageiros. O Sr. Brito ia precipitar-se, mas uma idéia lhe fuzilou no cérebro:

— Não quer tomar parte no bloco das meninas?

Desta, vez o Sr. Brito me apanhara de surpresa. Não gostei. Aquilo me escapara.

— Ah, elas organizaram bloco este ano?

— Alugamos um autocaminhão . Elas se lembraram do senhor, mas tinham perdido o telefone da sua pensão. E eu ia-me esquecendo, que cabeça! ?o Bloco das Mimosas Borboletas. Então, vem?

O bonde partia, campainhando.

— Telefone para l?

Falou isso correndo, querendo voltar a cabeça para mim e ao mesmo tempo preparar o pulo sobre o estribo. Pulou. Dependurado, com os embrulhos lhe atrapalhando os movimentos, era sublime o Sr. Brito. E o bonde virou a esquina da Rua S. Jos? levando a bondade, a ventura, o êxtase daquele pai. O Moraes, da Rua da Misericórdia, estava na porta da Brahma, torcendo os bigodes.


* * *

Devo tomar parte no Bloco das Mimosas Borboletas?


* * *

Quarta-feira de Cinzas eu entrava tranqüilamente num caf?quando o Sr. Brito surgiu, súbito. Quase nos abalroamos.

— Oh, Sr. Brito! Vamos a um cafezinho?

Estendi-lhe o braço procurando envolv?lo pelo ombro. Ele tentou esquivar-se, esboçando uma recusa frouxa. Insisti com veemência e ele entrou afinal, sombrio.

Observei-lhe que o laço da gravata estava desfeito. Teve um gesto nervoso, apalpando o colarinho e o peito da camisa, como se aquilo lhe tivesse feito lembrar qualquer coisa desagradável ou dolorosa.

Tive receio de pensar o que ele iria dizer-me... Aquele desleixo na gravata era significativo. Eu sabia que era Lal? a mais velha, quem lhe dava o n? todas as manhãs. Ele ia dizer... Não, o Sr. Brito dessa vez não disse nada.

Então puxei conversa.

— Divertiu-se muito no carnaval?

Deu de ombros, molemente, num desânimo de vida. E, puxando um cigarro de palha do fundo do bolso do palet? fez-me com os dedos trêmulos o gesto de pedir fósforos.

Minutos escoaram-se. Não tínhamos assunto. Era mais prático nos despedirmos.

— Bem, Sr. Brito, vou aos meus negócios.

Segurou-me pelo braço. Tive um choque. A revelação ia sair.

Passaram-se ainda uns momentos de silêncio. Perguntou-me, enfim:

— Por que não quis tomar parte no nosso bloco?

— Ora, Sr. Brito, eu não sou carnavalesco. Acredite: não sa?de casa os três dias.

— Pois lamentei, lamentei muito a sua ausência.

— Ora, por que, Sr. Brito?

— O senhor ?um moço sério. Se o senhor tivesse vindo, olharia pelas minhas filhas.

Senti um susto e uma pérfida vontade de rir. Tive a impressão do ridículo e ao mesmo tempo de um vago drama palpitante. As sobrancelhas do Sr. Brito, um instante fitas em mim, moviam-se agora, acompanhando um tique nervoso de piscar, indício de comoção.

— Muito agradecido pela confiança, Sr. Brito. Porém, não sei se sou digno.

— Sei eu, sei eu.

Comecei a ficar impaciente.

— Que houve de extraordinário, Sr. Brito?

— Imagine o senhor que ontem, último dia, como estivesse com os meus rins muito doloridos não pude acompanhar as meninas ao carro. Sabe, os meus rins...

— Sei, Sr. Brito.

— O bloco era grande, umas trinta pessoas. Enfim, havia o Gomes, da minha repartição. O Gomes com a senhora. Fiquei tranqüilo por esse lado e confiei-lhe as meninas. Sabe, os rapazes me pareciam distintos, mas nunca ?bom confiar demais.

— Claro.

— Pois meu caro, não lhe conto nada; at?esta hora as meninas ainda não voltaram.

— Oh, Sr. Brito!

— O Gomes est?abatido. Diz que não sabe como ?que elas lhe escaparam das vistas.

No rosto tranqüilo do Sr. Brito os olhos, sempre doces, faiscaram de dor. As sobrancelhas tremeram-lhe.

— E verdade o que me diz?

— Des-gra-ça-da-men-te!

Caiu-lhe a cabeça sobre o peito, no desconsolo da calamidade. Não tendo o que dizer (e j?um pouco arrependido de não haver tomado parte no bloco, mas por motivos inconfessáveis) reuni todas as minhas cóleras contra aquele Gomes:

— Porém, Sr. Brito, esse suj eito, esse Gomes, ?um patife!

O Sr. Brito fez com a cabeça que não, que o Gomes não era um patife. E disse devagar, com tristeza:

— A mulher dele também at?agora não chegou em casa.


* * *

Íamos pela rua cheia de povo barulhento e feliz.

— Sr. Brito, cuidado com esse auto.

Atravessamos.

Eu tentava qualquer coisa em prol daquela dor :

— Sossegue. Elas dormiram com certeza em casa de amigas.

— Ninguém sabe delas.

— Paciência, Sr. Brito, paciência. Talvez j?estejam em casa, at?

Barafustamos por um telefone público. Esperamos um momento at?que D. Candinha (irm? solteirona e velhusca do Sr. Brito, que criara as meninas, sem mãe, desde cedo) atendeu do outro lado do fio.

— Elas j?chegaram? — rompeu o Sr. Brito, com a voz gritada e comovida, ansioso da resposta.

Largou o fone no gancho, sem ânimo.

— Vamos embora, doutor. Não apareceram! Não h?notícias!

E fomos para o Jornal do Brasil. No balcão da gerência o Sr. Brito redigiu com letra trêmula o anúncio : “Um conto de réis — Gratifica-se com um conto de réis a quem der notícias positivas sobre o paradeiro de duas moças que anteontem, vestidas ?século XVIII, tomaram parte no Bloco das Mimosas Borboletas, da Gávea. Dirigir-se ?Rua República de Andorra n?7”.

O empregado do jornal pegou o anúncio,leu-o, teve um sorriso discreto e fez a conta.

O Sr. Brito pagou o anúncio e saímos.

Na rua teve uma idéia repentina:

— E verdade, onde vou buscar outro conto de réis?

E a sua doce pessoa crispou-se de angústia.


* * *

Ao nos despedirmos, ele queixou-se de uma dor de cabeça. Parou um momento levando a mão ?testa. E, súbito, amontoou-se na calçada. Eu não tivera tempo de ampar?lo. Então, com esforço, suspendi aquela massa pesada. Pessoas que passavam me ajudaram. Estava morto.

Seu cadáver foi no automóvel da Assistência Pública para casa, depois das formalidades legais.

Acompanhei-o.

D. Candinha estava fazendo o jantar e veio ver quem batia, manca de reumatismo, limpando as mãos no avental. Espantou-se. Atrás dos óculos os olhos se esbugalhavam, sem compreender. At?que, como que se lembrando, deu um grito:

—As meninas! — e ergueu os braços exclamativos.

— ?o Sr. Brito, D. Candinha — intervim com calma. Est?doente. Muito doente.

— O Jocelino! Pobre Jocelino! Que foi que aconteceu pro Jocelino?

E pôs-se a limpar os olhos com o avental sujo.


* * *

Entre as pessoas que velavam o cadáver, Gomes destacava-se pelo seu ar digno de homem ferido no seu amor próprio. A mulher desaparecera definitivamente. Suspeitava-se de um estudante de medicina, um certo Aristóteles, sergipano, um dos influentes do Bloco.

Havia quem apertasse a mão de Gomes, com comoção, apresentando-lhe condolências. Dava a impressão de um parente. A fuga da mulher estabelecera entre ele e o defunto um laço confuso de família.

Gomes agradecia, com um lenço sempre encostado ao rosto.

 

* * *

Pela madrugada entrou Cotinha, a filha mais moça.

Entrou p?ante p? Ninguém lhe perguntou donde vinha nem por que vinha. Havia na sala apenas três ou quatro pessoas pobres da vizinhança, além de mim. Todas as demais — Gomes inclusive — se tinham retirado por volta da meia-noite. (Gomes explicou que estava abatido, precisava retirar-se, repousar.) D. Candinha dormia l?dentro, numa cadeira de balanço da sala de jantar, vencida pelas agitações das últimas quarenta e oito horas.

Cotinha caminhou receosa para o meio da sala e atirou-se sobre o caixão. E chorou, chorou, sacudida, como que se esvaziando a repelões.

Quando acabou de chorar, veio para onde eu estava, toda encolhida como uma criminosa, de olhos inchados e vermelhos. Apertei-lhe a mão que me estendeu e ficamos em silêncio. Depois de uns minutos, como um sentimento surdo e talvez hostil nos impelisse a explicações, perguntei:

— E D. Lal?

— Não sei. (Deu de ombros, espichando o beiço num muxoxo contrariado.) Cada uma de nós foi para o seu lado.

Fiquei estarrecido.

— E a senhora do Gomes?

Disse que ignorava também o destino da outra. Formosíssimo! Eis o epílogo do Bloco das Mimosas Borboletas no carnaval de 1922 na muito leal cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro — pensei com os meus botões.

Depois Cotinha contou que soubera da morte do pai por acaso, porque passara de automóvel pela porta, “com um senhor”... E acrescentou tímida rompendo o pudor:

— O senhor com quem eu estou.

Tive um baque. Era possível? Um cinismo lavado de lágrimas, assim, era possível?

— Mas D. Cotinha: que bicho mordeu as senhoras, desse modo, de repente? Ficaram doidas?

Sacudiu os ombros, pondo as duas mãos nos olhos, como uma criança e chorando de novo:

—?a vida... Que ?que o senhor quer?

As outras pessoas da sala olhavam-nos, a cochichar entre si. Sem dúvida faziam mau juízo. Talvez pensassem at?que era eu o comparsa de Cotinha.

Um cheiro de flores pisadas e cera errava, acre. Um sentimento pungente me dominava, abafando uma vaga, uma imprecisa sensação de sarcasmo. As oito velas ardiam silenciosas em torno do caixão do Sr. Brito, que tinha um crucifixo de prata ?cabeça. Eu não conseguira ainda, at?aquele instante, definir o meu estado de alma. Parecia-me, profanamente, que qualquer coisa de cômico se insinuava por tudo aquilo. Talvez, porém, fosse engano meu, ruindade minha, tendência cruel do meu temperamento. No fundo, eu estava zonzo com o que me rodeava: o Sr. Brito, a filha que voltava, as pessoas pobres e imbecis da vizinhança, as oito velas,. o cheiro de flores pisadas, a idéia do cavalheiro com quem Cotinha passeara de automóvel, a idéia de Lal? a idéia de Aristóteles furtando a mulher do Gomes, a lembrança do anúncio que saíra de manh?no Jornal do Brasil, o ridículo do Bloco das Mimosas Borboletas — tudo aquilo ainda não recebera uma forma definitiva no meu espírito.

Cotinha merecia umas bofetadas?

O problema de saber se Cotinha merecia ou não umas bofetadas me invadiu, súbito. Fiquei a remoer essa inspiração, como se ela encerrasse um alto valor poético ou filosófico. Eram quatro da madrugada. Uma pessoa levantou-se, em bico de pés. Outra pessoa levantou-se também. Da?a um quarto de hora Cotinha e eu estávamos sós.

Ficamos nós dois, longo tempo, calados, olhando o Sr. Brito.

Por duas vezes Cotinha soluçou:

— Coitado do meu paizinho!

Por outras duas vezes suspirou:

— E Lal?que não sabe de nada! Que horror!

Claridades pálidas do dia nascente entraram vagarosas pelas janelas. Um torpor me tomou. Cotinha chorava agora encostada a mim.

O barulho do primeiro bonde, que vinha vindo longe, me ergueu na cadeira. Cotinha encostou a cabeça ao espaldar, fatigada, humilhada, amarrotada, sem valor e sem destino, como uma pobre coisa.

Para vencer o torpor, tomei a deliberação de sair, de andar. Fui olhar então, de perto; o meu defunto amigo, o meu campo de observações e de conquistas psicológicas, o meu infeliz Jocelino de Brito e Sousa. O rosto estava calmo, como a sorrir. As sobrancelhas peludas continuavam agressivas, enérgicas, na fisionomia doce, doce para todo o sempre. Aquela massa humana estava agora liberta de pensar no Moraes da Rua da Misericórdia.

— D. Cotinha, at?logo, ?hora do enterro.

Ela veio at?a porta da sala, que dava para uma área. Levantei a gola do palet?por causa do frio da madrugada.

Estendi a mão para Cotinha. Encarei-a com piedade e revolta: gordinha, morenota, um leve buço enegrecendo-lhe o lábio .superior. E irresponsável, camaradinha, fácil, derrotada nas suas vaidades de princesa de arrabalde por aquele complicado drama de fuga e morte.

Olhando-me a fito, vi nos olhos dela a recordação da vida j ?antiga: o lar do Sr. Brito, os domingos de visita ou passeio com outras pessoas que freqüentavam a casa, os projetos ambiciosos de bons casamentos, o luxo, a comodidade quotidiana de uma situação de respeito e prazer. Agora, tudo acabado, para nunca mais!

Desabou a chorar sobre o meu ombro : que era muito infeliz, que ia sofrer muito, que não sabia como perdera a cabeça, que agora estava perdida, que queria morrer também...

Consolei-a como pude, segurando-a pelos pulsos. Dei-lhe o conselho de mandar procurar Lal?(ela devia suspeitar, pelo menos suspeitar onde estivesse a irm? e despedi-me rápido.

A rua! A rua deserta, vazia, livre, para os meus passos e para o meu rumo! Corri por ali afora, corri para alcançar o bonde e para desentorpecer. E enquanto corria levava a sensação de fugir a uma coisa fascinante e ameaçadora, de que eu me libertava enfim... uma coisa suave e horrenda que não poderia mais acontecer na madrugada pura do arrabalde...


Rui Ribeiro Couto, jornalista, magistrado, diplomata, poeta, contista e romancista, nasceu em Santos, SP, em 12 de março de 1898, e faleceu em Paris, França, em 30 de maio de 1963. Eleito para a Academia Brasileira de Letras, em 28 de março de 1934, na sucessão de Constâncio Alves, foi recebido em 17 de novembro de 1934, pelo acadêmico Laudelino Freire. Estreou no jornalismo em 1912, na imprensa de sua cidade natal. Em 1915, iniciou o curso da Faculdade de Direito de São Paulo, trabalhando no Jornal do Commércio, em 1916, e depois no Correio Paulistano. Transferiu-se para o Rio de Janeiro e, em 1919, bacharelou-se na Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro. Publicou o seu primeiro livro de poesias, O jardim das confidências, em 1921. Trabalhou em diversos jornais, at?1922. Participou da Semana de Arte Moderna e, em seguida, retirou-se para o interior de São Paulo, em tratamento de saúde. Naquele ano saíram os volumes de contos A casa do gato cinzento e O crime do estudante Batista.

Residiu dois anos em Campos do Jordão, passando a exercer depois o cargo de delegado de polícia em São Bento do Sapuca? Nomeado promotor público em São Jos?do Barreiro, ocupou esse cargo at?1925, ano em que se transferiu para Pouso Alto, MG, em busca de um clima propício ?sua saúde. Ali exerceu a promotoria pública at?1928. Nesse ano regressou ao Rio de Janeiro, entrando para o Jornal do Brasil como redator. Designado para o posto de auxiliar de consulado m Marselha, partiu em fins de 1928 para aquela cidade francesa, tendo trabalhado junto ao Itamarati em diversos locais e cargos, tendo se aposentado como embaixador do Brasil na Iugoslávia. Durante a sua permanência na Europa, ocupou-se também de divulgar a literatura brasileira. Não interrompeu a colaboração para o Jornal do Brasil, O Globo e A Província (de Pernambuco), sobre literatura e acontecimentos do estrangeiro.

Obras

Poesia: O jardim das confidências (1921); Poemetos de ternura e de melancolia (1924); Um homem na multidão (1926); Canções de amor (1930); Noroeste e outros poemas do Brasil (1932); Província (1934); Cancioneiro de Dom Afonso (1939); Cancioneiro do ausente (1943); O dia ?longo (1944); Rive etrangère (1951); Entre mar e rio (1952); Le jour est long (1958); Poesias reunidas (1960); Longe (1961).

Prosa: A casa do gato cinzento, contos (1922); O crime do estudante Batista, contos (1922); A cidade do vício e da graça, crônicas (1924); Baianinha e outras mulheres, contos (1927); Cabocla, romance (1931); Espírito de São Paulo, crônicas (1932); Clube das esposas enganadas, contos (1933); Presença de Santa Teresinha, ensaio (1934); Chão de França, viagem (1935); Conversa inocente, crônicas (1935); Prima Belinha, romance (1940); Largo da Matriz, contos (1940); Barro do município, crônicas (1956); Dois retratos de Manuel Bandeira (1960); Sentimento lusitano, ensaio (1961). Numerosas obras do autor foram traduzidas para o italiano, francês, húngaro, sueco, servo-croata.
(fonte: Academia Brasileira de Letras - ABL).


O presente conto foi extraído do livro "Antologia Escolar de Contos Brasileiros", Edições de Ouro - Rio de Janeiro (RJ), s/data, pág. 99, organizada por Herberto Sales, seleção de Ivo Barbieri e Maria Mecler Kampell.

 

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?@njo