Último
texto
Diário de um fescenino
Rubem Fonseca
Rubem Fonseca foi agraciado com o Prêmio Luis de Camões, concedido pelos governos
do Brasil e de Portugal, pelo conjunto de sua obra, conforme divulgado em 13 de maio de
2003. Considerado o Nobel da língua portuguesa, o prêmio já foi concedido
aos brasileiros João Cabral de Melo Neto, Rachel de Queiroz, Jorge Amado, Antônio
Candido e Autran Dourado. Com nossos cumprimentos pelo merecido galardão, apresentamos o
primeiro dia de seu Diário de um fescenino:
1º. de janeiro
Decidi, neste primeiro dia do ano, escrever um diário. Não sei que razões me levaram a
isso. Sempre me interessei pelos diários dos outros, mas nunca pensei em escrever um.
Talvez depois de considerá-lo terminado quando?, que dia? eu o rasgue, como fiz
com um romance epistolar, ou o deixe na gaveta, para, depois de morto, os outros
nem sei quem serão, pois não tenho herdeiros resolverem o que fazer com ele. Ou,
então, pode ser que eu o publique.
"O bom diarista", disse Virginia Woolf, "é aquele que escreve para si
apenas ou para uma posteridade tão distante que pode sem risco ouvir qualquer segredo e
corretamente avaliar cada motivo. Para esse público não há necessidade de afetação ou
restrição." Não me imporei restrições, porém sei que estarei sendo influenciado
de várias maneiras, ao considerar a hipótese de ser lido pelos meus contemporâneos. Os
autores de diários, qualquer que seja sua natureza íntima ou anedótica, sempre escrevem
para serem lidos, mesmo quando fingem que ele é secreto. O Samuel Pepys, que codificou o
seu diário, deixou pistas para ser decifrado.
Nesse gênero literário, o autor fala sozinho numa , espécie de solilóquio. Aqui,
porém, não apenas a minha voz, a do protagonista, será ouvida, mas também as dos
outros, deuteragonistas e tritagonistas. (Podem me chamar de pedante, mas que nomes posso
atribuir a esses outros, a partir do momento em que me denominei protagonista?)
Confesso que, ao realizar essa tarefa, pretendo me exercitar na técnica de escrever em
forma dialogada. Há escritores, talvez eu seja um deles, que têm um certo preconceito
contra o uso freqüente de falas para descrever interações entre dois ou mais
personagens. O teatro não pode prescindir do diálogo e o cinema pode contar alguma coisa
sem usar diálogos graças ao close e outros truques de câmera, no entanto o que o cinema
pode nos dizer com imagens nunca tem a mesma riqueza de significados da narrativa
literária. Acho que fiz todos os meus livros de ficção sem diálogos por não os ter
usado no primeiro que escrevi, que fez aquele sucesso todo. Tentei repetir o mesmo
formato. Mas aqui pretendo contar o que acontece usando diálogos. Tentarei reproduzir
fielmente as expressões verbais de meus interlocutores. Ao fim do dia, após digitar os
diálogos junto com uma descrição sucinta do cenário e das circunstâncias em que eles
ocorreram, arquivarei tudo na memória do meu computador. Talvez escapem gestos ou falas
importantes, elipses estas que resultarão de preguiça e algum desleixo; e, por outro
lado, é provável que eu inclua ações e alocuções inúteis.
Os verbetes referentes a diários, journals e similares enchem várias páginas de
qualquer enciclopédia. Os limites classificatórios desses textos são vagos. Numa firula
taxinômica eu diria que não podem ser considerados diários, como muitos o fazem, o A
Journal of the Plague Year, do Defoe, ou o Diário de um sedutor, do Soren
Kierkegaard, que mais me parece um romance epistolar, assim como as Confissões, de
Santo Agostinho, ou as Confissões de um comedor de ópio, do de Quincey, que devem
ser rotulados como literatura confessional. Quatro exemplos apenas, em uma miríade
possível.
Texto extraído do livro Diário de um fescenino, Cia. das Letras Rio
de Janeiro, 2003, pág. 11.
Conheça
a vida e a obra de Rubem Fonseca na página "Biografias".
|