Família
Rubem Fonseca
Ernestino e Dora se casaram dispostos a dar ao mundo muitos filhos. Planejavam ter três
meninos e duas meninas, mas não se incomodariam se fossem quatro meninas e um menino,
desde que o primeiro a nascer fosse do sexo, masculino.
Dora morreu ao dar à luz uma
menina, cujo nome veio a ser também Dora. Todos pensavam que Ernestino se casaria
novamente, ele era um homem bonito, herdara do pai uma empresa e ampliara os negócios, um
bom partido para qualquer mulher, mesmo tendo uma filha pequena para criar. Agindo como
bons alcoviteiros, os casais amigos, convictos de que Ernestino devia se casar novamente,
afinal a pequena Dora precisava de uma mãe e ele, cedo ou tarde, necessitaria do carinho
de uma mulher, se revezavam apresentando ao viúvo jovens mulheres prendadas e virtuosas.
Mas Ernestino não se interessava por nenhuma delas e o tempo foi passando até que os
amigos, percebendo que Ernestino jamais se casaria novamente, desistiram de seus
propósitos casamenteiros.
Quando Dora fez seis anos, Ernestino, assoberbado pelos seus negócios que não paravam de
crescer, matriculou a menina num colégio interno de freiras. Dora se lembra do primeiro
dia em que foi para o colégio. Eles subiram a serra de carro num dia de forte neblina,
que escondia os morros e até mesmo as ruas por onde trafegavam. O pai comprara vários
sacos de balas para ela e Dora fizera a viagem se deliciando com aquelas guloseimas. No
carro o pai lhe mostrara uma pequena mala, dizendo que ali estava o seu enxoval, as roupas
que usaria no colégio. Ernestino, apesar de fazer a viagem mais calado do que o seu
normal, parou duas vezes no acostamento da estrada para abraçar e beijar a filha. Tudo
isso a deixara muito feliz.
Quando chegaram, depois de uma hora e meia de viagem, Dora já havia chupado todas as
balas. O colégio era um edifício, que lhe pareceu imenso, bonito e um pouco assustador.
Foram recebidos por duas freiras uma a madre superiora, velha e de aspecto majestoso, e
outra, mais jovem, que seria a orientadora e mestra de classe de Dora. A freira mais jovem
convidou Dora para ir até a janela ver as arvores e os jardins. Enquanto ela contemplava
o arvoredo coberto de neblina, o pai e as freiras conversaram em voz baixa. Em seguida, o
pai depois de abraçá-la com tanta força que a deixou sem fôlego, disse que ia comprar
mais balas, foi embora e não voltou. Era um domingo e Dora só o veria novamente no
domingo seguinte.
Os primeiros dias foram terríveis. Dora se sentia abandonada e chorava sem parar. Ela
dormia num grande salão com outras meninas da sua idade. Sua roupa intima
calcinhas largas de algodão, que com o tempo alargavam ainda mais, e camisolões de manga
comprida fechados no pescoço (ela só usaria sutiã, também de algodão, anos depois)
era guardada numa mesinha alta de cabeceira, e os uniformes ficavam dependurados
num cabide comprido numa das paredes. A freira orientadora reunia diariamente as meninas
para uma preleção em que falava em Deus e na Caridade. Ela tratava Dora com muito
carinho, ainda mais porque a menina sofria de asma, agravada pelo clima úmido da cidade.
Depois de algum tempo, Dora parou de chorar diariamente. Chorava apenas aos domingos,
quando o pai ia vê-la.
Mas ela não demorou muito a gostar do colégio. Na hora de dormir, sob os cobertores de
lã que a aqueciam, Dona criava uma vida só dela, feita de fantasias inocentes. Até
mesmo o carrilhão da torre da igreja, que soava a cada quinze minutos, era ouvido com
prazer. Às quinze para as seis da manhã, a freira que pernoitava com elas no dormitório
caminhava entre as camas tocando uma sineta de mão e dizendo, sursum corda e as
meninas acordavam murmurando, habemus ad dominum. Dora, que fora criada sem
qualquer disciplina por um pai ausente e babás displicentes, apreciava os cerimoniais do
colégio. Vestidas em seus uniformes de saia azul-marinho presa por tiras largas cruzadas
no, peito e nas costas, blusa azul-clara, sapatos pretos e meias brancas, as meninas,
quando encontravam uma freira nos corredores, tinham que parar de pés juntos, unir as
duas mãos e cumprimentar com a cabeça. Caso fosse a madre superiora ou a diretora do
colégio deviam parar, se estivessem andando, ou levantar-se, se estivessem sentadas, e
fazer uma reverência, que consistia em juntar os dois pés, encostar o calcanhar do pé
direito no pé esquerdo, girar a ponta do pé direito, para o lado e. após colocar
horizontalmente a palma da mão, direita sobre a palma da mão esquerda, flexionar
ligeiramente os joelhos. Dora sentia-se bem fazendo essa mesura e ficava feliz quando, por
qualquer motivo, encontrava uma dessas freiras graduadas. Os rituais do colégio
notadamente as orações em latim ou em francês, e os cantos gregorianos acompanhados
pelo órgão, dos quais todas as alunas participavam nas missas dos domingos
possuíam um esplendor que deixava Dora encantada e fascinada. Mas sempre que pensava no
pai, ela sentia muita saudade e ficava triste.
As alunas tomavam banho em boxes abertos, vestidas com uma camisola de algodão sem mangas
e sem gola. Quando terminavam, uma freira colocava uma toalha aberta na frente do boxe
para a aluna poder tirar a camisola e se enxugar sem que a sua nudez fosse vista; depois a
aluna punha um roupão e subia para o dormitório, se curvava ao lado da sua cama e vestia
meio escondida o uniforme. Era um procedimento trabalhoso e desconfortável que Dora e
muitas meninas realizavam, porém, com boa vontade. Uma vez por semana, no dormitório,
toda menina sentava-se num banco à frente de uma freira, que lhe passava meticulosamente
pela cabeça um pente fino. Não havia piolhos naquele internato.
No colégio Dora conheceu Eunice, que se tornou a sua melhor amiga. E à medida que
cresciam as duas ficaram todo o primário e o ginásio no mesmo colégio interno
se tomaram mais íntimas. Sempre que possível ficavam de mãos dadas, cochichando
e rindo. As freiras chamavam tal comportamento de bêtise e procuravam contê-las, mas sem
recriminá-las por isso. Eunice era órfã, e quem a visitava nos domingos era um
guardião que a tratava com um carinho artificial. Eunice e o seu guardião se agrupavam
com Dora e o pai, nos domingos e também nos dias em que as alunas tinham permissão para
sair do colégio, em companhia dos responsáveis, para passear em Petrópolis. Quando o
curso ginasial terminou elas se abraçaram chorando e disseram que nunca deixariam de se
amar.
Dora e Eunice cursaram o colegial em estabelecimentos de ensino diferentes. Vieram a se
reencontrar na faculdade de direito, anos depois, e reataram com o mesmo vigor a amizade
de antes. Abriram um escritório e advogavam juntas causas pertinentes ao direito da
família. Dora às vezes ia dormir na casa de Eunice, ainda que Ernestino reclamasse
carinhosamente do fato de a filha deixá-lo sozinho com a empregada. Ele sentia-se doente
e planejava se afastar dos negócios. O seu sonho era ver a filha casar e lhe dar um neto
homem, que com o tempo assumisse os negócios e continuasse a tradição da família.
Mas Dora, que se tornara uma mulher de grande beleza, recusava todos os seus pretendentes,
que eram muitos. Saía com eles, ia jantar fora, ia ao cinema, mas, muito recatada,
evitava qualquer intimidade com esses homens, nem mesmo permitia que a beijassem. Um dia o
pai a chamou para ter com ela o que chamou de uma longa conversa. Ernestino disse à filha
que estava indicando um dos seus antigos funcionários para assumir o comando dos
negócios, pois estava se sentindo cada vez mais fraco e o seu médico, depois de um
rigoroso exame, diagnosticara uma doença neurológica progressiva que dentro de alguns
anos, não sabia quantos, o levaria à morte. E ele não queria morrer sem ver a sua filha
casada e sem ter a suprema alegria de ter um neto. Ernestino disse isso com voz
emocionada, segurando na mão da filha. Me promete, ele pediu, assim eu morrerei em paz.
Dora prometeu, mas pediu algum tempo para realizar o desejo do pai.
Nesse dia Dora foi dormir com Eunice. A amiga mandara fazer calças largas de algodão
iguais às que usavam no colégio de freiras, e que não existiam para ser compradas nas
lojas. Vestidas apenas com essas calças, que apesar de toscas, ou talvez por isso,
tornavam ainda mais atraentes os seus corpos delgados, as duas fizeram amor com um ardor
muito intenso. Isso sim, é bêtise, disse Eunice, e as duas riram muito. Depois, Dora
contou a Eunice a conversa que tivera com o pai, acrescentando que ele estava cada vez
mais obstinado em seu desejo de vê-la casada e ter um neto. As duas permaneceram o resto
da noite tomando vinho branco e falando desse assunto, e da frustração de não poder
morar na mesma casa, acordar juntas, cozinhar, viajar, viver juntas o tempo todo das suas
vidas, serem as duas uma família.
Ernestino agora precisava de uma cadeira de rodas para se locomover e um enfermeiro foi
contratado para tomar conta dele. O médico disse que com cuidados adequados Ernestino
poderia viver alguns anos, mas que a sua doença infelizmente não tinha cura, o que Dora
podia fazer era lhe propiciar a melhor qualidade de vida possível, num ambiente
tranqüilo de amor. O passatempo preferido de Ernestino, em casa ou quando ele saia com
Dora em sua cadeira de rodas para passear na praça, era interrogar a filha sobre os seus
pretendentes e escolher o nome que o neto teria. Dora participava dessas conversas
tentando, manter a mesma paciência dos seus tempos de colégio interno, mas não
conseguia deixar de se sentir exausta e infeliz, pois o pai sempre terminava a conversa
dizendo que apenas esperava ela se casar e ter um filho para morrer em paz.
Após cada uma das suas cada vez mais raras noites de bêtise as duas amantes sempre
voltavam a esse tema, como conseguir que Ernestino morresse em paz. E a maneira de
resolver esse delicado e angustiante problema era sempre a mesma, uma solução final, por
elas considerada um gesto de amor absoluto. A morte era sempre uma bênção para os
doentes desenganados.
O enfermeiro, precisava tirar umas férias e em vez de contratar um outro Dora disse que
ela mesma cuidaria do pai. Ernestino se emocionou com o desvelo da filha, que passava os
dias e as noites ao seu lado. E também estava muito feliz, pois Dora prometera que assim
que o pai melhorasse um pouco ela se casaria e teria um filho.
Transcorrido um mês, Ernestino morreu de uma súbita insuficiência respiratória. O
médico confirmou que aquela era mesmo uma doença insidiosa de difícil prognóstico. No
enterro Dora e Eunice choraram muito. O sofrimento de Dora foi tão grande que ela teve
que ser internada num hospital para se recuperar.
Depois, Dora e Eunice foram morar juntas e adotaram um menino a quem deram o nome de
Ernestino. O menino cresceu e as pessoas, os novos amigos que elas fizeram, diziam que ele
era a cara da mãe.
Texto extraído do livro "Histórias de Amor", Cia. das Letras - São
Paulo, 1997, pág. 15.
Colaboração do leitor e amigo do Releituras, Anselmo.
Conheça a vida e a obra de Rubem Fonseca na página "Biografias"
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