Coisa de moleques
Ronaldo Bôscoli
Para falar sobre trote "produzido", é preciso pedir licença a Ícaro de
Aguiar, talvez o maior trotista que o mundo já viu. Conseguiu passar trote até em
membros da família imperial brasileira, como d. Pedro e d. João, que, a exemplo dele,
moravam em Petrópolis. Ícaro lia a coluna social dos jornais para ficar informado dos
acontecimentos sociais. Ia, então, para o telefone e marcava, desmarcava, transferia e
adiava jantares, festas, recepções, vernissages, o diabo. Era a maior confusão em
Petrópolis.
Uma vez, descobriu que um comitê de padres, em visita ao Rio de Janeiro, queria conhecer
Petrópolis. Descobriu o telefone da diocese em que os padres estavam hospedados e os
convidou, em nome de d. Pedro, a conhecer o palácio imperial no domingo seguinte. Em
seguida, telefonou para d. Pedro, dizendo-se porta-voz da diocese, e pedindo uma visita ao
palácio de Petrópolis, um palácio, aliás, bem engraçadinho. D. Pedro ficou puto,
ninguém entendia nada, pois um havia convidado o outro e ninguém havia, efetivamente,
convidado ninguém. Fomos com Ícaro para a porta do palácio, especialmente para curtir a
chegada dos padres. Foi aquele mal-estar. Impagável!
No que diz respeito particularmente a mim, participei da produção de um trote que é
candidato forte ao título de maior de todos os tempos. Ibrahim Sued anunciou, com grande
pompa, o casamento de Guido Maciel, dono de um dos mais ricos cartórios do Rio de
Janeiro, sócio de Márcio Braga que, diga-se de passagem, nunca foi bobo
com uma moça que havia sido miss e capa de tudo quanto era revista e se chamava Ângela
Catrambi, hoje senhora de um grande médico, dr. Álvaro Pinheiro Guimarães. Ia ser um
dos grandes acontecimentos sociais do ano, com um coquetel ao ar livre, nos gramados da
casa, para quinhentas pessoas, com um bufê enorme e champanhe francês rolando para todo
mundo. A casa era uma mansão cinematográfica, ao lado do Itanhangá Golf Club, e todos
os grã-finos da cidade foram convidados. Parecia festa de paulista, embora fosse no Rio.
Vamos fazer uma produção sugeri a Manuel Gusmão e à mulher dele, a Cida,
que era craque em passar trote e, animada, assumiu a execução da operação.
Lembrei que a Eliana Pittman era muito vaidosa. A mãe dela, a Ofélia, mais vaidosa
ainda; portanto, seria fácil fazê-las aparecer no casamento sem convite. Cida ligou para
a casa delas, Ofélia atendeu, e explicou-se que o Guido Maciel era um grande admirador da
cantora Eliana Pittman, um fã, e gostaria que ela fizesse um show no casamento, uma coisa
diferente. Imaginem: casamento com show! A Ofélia não era boba, bem que desconfiou, mas
tinha lido a notícia no jornal e ficou logo de olho grande... coluna social era com ela
mesma. Pediu um tempo para dar a resposta. Ficamos, então de ligar depois, para confirmar
ou não.
Em seguida, Cida ligou para a casa do Guido Maciel e mandou chamar a mãe de Ângela
Catrambi, uma típica mãe de miss que, mais feliz do que pinto no lixo, estava eufórica
com o casamento da filha com um homem tão rico e poderoso. Iria descontar uma
promissória.
A senhora é a mãe da Ângela? Minha filha, Eliana Pittman, gostaria de,
humildemente, prestar uma homenagem aos noivos, dar um abraço na Ângela explicou
Cida, fazendo-se passar por Ofélia.
A orgulhosa senhora conhecia Eliana de nome, achou a oferta muito natural e aceitou logo.
Que beleza a Eliana Pittman cantando no casamento! Podem vir.
Em seguida, avisou à filha, que, numa euforia total, também gostou da idéia.
Era um duelo de titãs. Duas mães de miss no mesmo jogo, só podia dar empate. Cida ligou
novamente para Ofélia, que continuou a colocar obstáculos:
Não sei, assim de repente... Temos de localizar os músicos, o problema do
cachê...
Por favor, não me fale em cachê ofendeu-se Cida, no papel de mãe da
noiva. Cachê não tem problema. Que tal trinta mil?
Era uma nota preta. Os olhos de Ofélia devem ter revirado dentro das órbitas. Ir a uma
festança dessas e ainda por cima ganhar essa nota! Era demais. Topou voando.
E com que roupa a Eliana deve ir? quis saber Ofélia.
Naturalmente, uma roupa bem chamativa, bem Broadway.
Tudo bem. Eliana gosta de se apresentar assim.
Então estamos combinadas.
Dá pra imaginar o espanto na entrada triunfal de Eliana, toda emperetecada, e, depois, a
confusão na hora de receber o cachê?
Simplesmente inenarrável, caro leitor.
Ronaldo Fernando Esquerdo e Bôscoli nasceu no Rio de Janeiro em 28/10/1928.
Sobrinho-bisneto de Chiquinha Gonzaga, primo de Bibi Ferreira e do ator Jardel Filho,
portanto sobrinho de Jardel Jércolis, artista de vanguarda do teatro de revista, Ronaldo
tinha no sangue o gosto pelo show business e pela música, caminho que percorreu com
grande sucesso. Produtor e diretor de inúmeros espetáculos, foi um dos pais da bossa
nova e autor, com Roberto Menescal, de inúmeros sucessos musicais que até hoje são
cantados: O barquinho; Ah! Se eu pudesse; Canção que morre no ar; Lobo bobo; Nós e o
mar; Rio; Se é tarde me perdoa; Telefone e Saudade fez um samba, só para citar alguns.
Formava com Luiz Carlos Miéle a famosa dupla Miéli e Bôscoli, e foi,
enquanto vivo, o diretor de todas as apresentações anuais de Roberto Carlos. No campo da
mulheres também foi sucesso. Seus amores, quase sempre ligados à música, foram Nara
Leão, Maysa, Elis (com quem foi casado e teve um filho, João Marcelo Bôscoli), Mila
Moreira e Heloisa de Souza Paiva, sua segunda mulher. Contam que, já quase à morte,
recebeu a visita de Roberto Menescal no hospital onde se encontrava. Ao entrar no quarto,
Menescal ficou arrasado ao ver Ronaldo no fundo da cama, com os braços
abertos em cruz um deles atado ao frasco de soro e o outro, ao de sangue. Mas a
saudação de Ronaldo, com voz fraca e sumida, desarmou-o: "Vai de
branco ou vai de tinto, Menescal?". Antes de falecer, em 1994, prestou
depoimento a Luiz Carlos Maciel e Ângela Ferreira Chaves que se transformou no livro
"Elas e eu: memórias de Ronaldo Bôscoli", Editora Nova Fronteira Rio de
Janeiro, 1994, pág. 30, de onde extraímos o texto acima, publicado no capítulo
originalmente intitulado "Era uma vez..."
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