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Rachel de Queiroz
Foto de Eduardo Simões
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Um caso obscuro
Rachel de Queiroz
Não quero fazer campanha contra quem acredita em espíritos, quem tem visões ou ouve
"avisos". Espiritismo é religião tão respeitável quanto qualquer outra.
Quero apenas prevenir meu amigo leitor contra alguma conversão apressada, porque o fato
é que as forças da terra muitas vezes se misturam com as forças do céu.
O caso que passo a contar como exemplo, naturalmente que e verídico. Se fosse a cronista
inventar um conto, teria que apurar muito mais o enredo e os personagens, dar-lhes
veracidade e complexidade. E, aliás, como ficção ele não teria importância nem
sentido. O seu valor único e a autenticidade.
Certa professora de grupo, minha conhecida, tem uma empregada, senhora cinqüentona, de
cara séria e jeito discreto, natural de Suruí, no Estado do Rio, de onde veio há poucos
meses. E lá em Suruí deixou a mãe cega e enferma, da qual não tinha notícias desde
que viera para a cidade. Analfabeta, não escrevia nem recebia cartas. Essa gente da roça
não acredita muito em correspondência senão para notícias capitais.
Mas um belo dia acordou a empregada, que se chama Joana, chorando, abaladíssima,
queixando-se de estranhas visões. Dizia que passara toda a noite acordada; mas não
pudera chamar ninguém porque com o medo ficara sem fala. Sentira uns assopros no ouvido,
depois lhe sacudiam a cama, como se fosse um terremoto. Por fim vira a mãe, a velhinha
cega, estirada num caixão, metida numa mortalha preta. Toda a manhã a mulher chorou e
lamentou-se. A patroa, penalizada, ofereceu-se para mandar um telegrama pedindo noticias.
Joana porém tinha medo de telegramas:
E mais medo tem minha mãe. Chegando telegrama lá, se ela ainda estiver viva morre
só de susto.
Estavam nisso as coisas quando ao meio-dia aparece na casa da professora um filho homem de
Joana, que também reside na cidade. Trazia na mão um envelope fechado, sem carimbo nem
selo. Era uma carta vinda em mão própria da sua terra, explicou o moço. E como ele
também não sabia ler, pediram à patroa que abrisse e lesse a missiva aliás
curta e comovente.
"Minha irmã como vai esta tem por fim de lhe dizer que a nossa mãe está às portas
da morte já de vela na mão. Joana se apresse sinão não vê mais nossa mãe adeus do
seu irmão Basílio."
Chegando assim aquela carta, após a série de visões noturnas, era impressionante. E a
própria patroa a abrira, excluindo-se assim a possibilidade de conhecimento prévio do
conteúdo. Era uma dessas bofetadas que o mundo dos invisíveis atira aos pobres humanos,
deixando-os cheios de susto e dúvida. Com seus próprios ouvidos escutara a patroa pela
manhã a história do assopro, das sacudidelas na cama, da figura amortalhada no caixão.
Com suas mãos recebera a carta, com seus olhos lera o endereço tremido e oblíquo, e
depois a lacônica má nova. Naturalmente deu imediata licença a Joana para a viagem.
Grande falta lhe faria em casa, mas quem pode pensar em impedir um filho de despedir-se da
mãe, à hora da morte? E deu-lhe mais dinheiro, deu-lhe um vestido preto quase novo,
consultou o horário dos trens, forneceu provisões para a viagem. Não era só caridade
de burguesa progressista que a animava, mas principalmente o interesse do profano por uma
criatura feita instrumento das forças do Incognoscível. E Joana partiu. A patroa ficou
contando a história aos conhecidos; contou por boca e por telefone. Chegou a contar por
carta. Não a repetiu às crianças no grupo só de medo de assustá-las com essas coisas
misteriosas que ficam entre o céu e a terra. O caso era tão simples, tão líquido:
resumia-se apenas a fatos dos quais ela própria era testemunha. E fazia cálculos: a
carta deve ter partido de Suruí na antevéspera, de modo que a velha bem podia estar
mesmo morrendo na hora das visões noturnas de Joana. Ficou a esperar impaciente a volta
da viajante. Sim, porque Joana pediu que o seu lugar fosse conservado, que, consumado
tudo, voltaria. "Nem espero a semana de nojo, patroa. Venho logo depois do
enterro."
E, falando em enterro, rompeu em pranto.
Passados oito dias, chegou Joana, mas ainda com a saia estampadinha de encarnado com a
qual partira, em vez do vestido de seda preta que lhe dera a patroa, prevendo o luto. Sim,
a velha continuava viva. Contou que a mãe estivera de fato muito ruim, vai-não-vai, mas
de repente melhorara. Por isso Joana se demorara mais, até que a melhora parecesse
segura. E voltou a trabalhar como dantes.
Aquela quase ressurreição desorientou a patroa. Afinal, a velha aparecera de mortalha, e
dera o assopro, e sacudira a cama... Mas consultando sobre o assunto os amigos espíritas,
eles lhe explicaram que era assim mesmo, e tanto o espírito encarnado como o desencarnado
poderia mandar "avisos". Falaram mesmo em corpo astral, e a professora se
impressionou muito.
Nesse estado moral ficou, meio abalada, meio crente, até que um dia sucedeu dessas
incríveis, dessas raras coincidências que só acontecem na vida real e nos romances de
fancaria: recebeu a visita de uma amiga a quem também contara a história da visão. A
amiga vinha de propósito lhe narrar a tal coincidência inaudita. Imagine-se que o filho
de Joana por acaso fora trabalhar em sua casa, consertando-lhe o jardim. Lá estava fazia
uma quinzena quando inexplicavelmente desapareceu por uma semana. Passados os oito dias,
voltou, e alegou motivo de moléstia para a ausência.
No jardim, revolvendo os canteiros, podando o fícus, estabeleceu-se entre jardineiro e
patroa esse entendimento normal entre companheiros de trabalho, Ela explicava como queria
o serviço, ele dizia que na casa do Dr. Fulano fazia assim e assim, que enxerto de
mergulha só é bom com lua tal etc. Afinal, ela lhe perguntou que doença fora a sua,
dias antes. O rapaz, que enterrava umas batatas de dália, ficou encabulado. Depois, teve
assim como um assomo de consciência, e explicou:
Patroa, falar a verdade é preciso. Não estive doente não. Mas o caso é que
minha mãe meteu na idéia ir em casa, com vontade de assistir umas ladainhas que rezam
lá no mês de agosto. Como estava num emprego bom, teve medo que a dona-de-casa se
zangasse com uma viagem assim à-toa e não guardasse o lugar para ela, de volta. Então
se combinou comigo, só por causa de não fazer a moça se zangar. Pegou a ter uns sonhos
com a minha avó, enfiava os olhos na fumaça do fogo para sair chorando. Ai eu mandei um
companheiro fazer uma carta chamando, dizendo que a velha estava morrendo, lá no Suruí.
A patroa consentiu logo, naturalmente. Tive que fazer companhia a minha mãe, assistimos
as ladainhas e agora estamos os dois de volta à nossa obrigação...
A moça ficou espantadíssima:
Mas, criatura, como é que sua mãe teve a coragem de chamar assim morte para cima
de sua avó? Vocês não tiveram medo do agouro?
Qual, dona! Uma velha daquela, cega, doente, em cima duma cama, dando trabalho e
consumição a todo mundo, chamar a morte para ela não é agouro; chamar a morte para ela
é mais uma obra de caridade. E dai, agouro que fosse, vê-se bem que não pegou...
O texto acima foi extraído do livro "Quatro Vozes",
Distribuidora Record - Rio de Janeiro, 1998, pág. 35.
Rachel de Queiroz: sua vida e sua obra estão em "Biografias".
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