O Amistoso
Rachel de Queiroz
Os visitantes ou adversários, convidados para aquela partida amistosa do chamado esporte
bretão, chegaram festivamente num caminhão ornado de arcos e guirlandas. Sim, no começo
tudo são flores. Flores e palmas, discursos, garrafas de cerveja, e os cartolas, que se
distinguem dos demais presentes pelos bonitos ternos domingueiros, gravatas, chapéus de
seda, como convém a legítimos paredros.
Não havendo no campo instalações de vestiário, os craques descem do carro já
devidamente uniformizados camisa de azul-turquesa, meias e chuteiras, sim,
chuteiras regulamentares, que isso é jogo de fato e não pelada de moleques.
Deficiências, se as há, é no campo propriamente dito, que seria ótimo se não sofresse
de uma depressão bem no seu centro geométrico, exatamente onde se costuma riscar aquele
grande círculo de giz. E como essa praça de esportes se situa numa baixada, sempre que
chove apresenta o aspecto de um prato fundo cheio de água e quando não é água
é lama.
Naquele dia, felizmente, era apenas lama, e pouca. E sob os aplausos da assistência,
tanto mais animada porque gratuita (ainda é um problema a resolver, esse da assistência
em campo aberto, sem possibilidades de bilheteria). Juiz, jogadores, cartolas, reúnem-se
um pouco de lado, pois que os paredros estão de sapatos novos e aquela supracitada lama
os assusta um pouco; faz-se o toss, os visitantes pegam o lado sul que é o melhor,
o presidente dos locais dá graciosamente o primeiro chute. Começou a partida!
1.° TEMPO
Xaveco, mulato, brevilíneo de canelas
arqueadas, revela imediatamente a sua classe de grande artilheiro: tem fôlego, tem
velocidade, tem cada tiro direito ou canhoto tanto faz que arranca aplausos
frenéticos da torcida. Outra grande figura em campo é o goleiro dos visitantes. E o jogo
vai indo muito bem, bola para lá e para cá, passe, cabeçada, chute a gol, gol
não, gol não, passou por cima da trave. O couro vai para Bira, Bira perde para um
galalau amarelo dos "estrangeiros", o galalau perde para Zico, Zico passa para
Lucas, que perde para o capitão dos visitantes, um louro de gorro de meia. Aí Xaveco
interfere na raça, toma a bola, o louro tranca, Xaveco dá-lhe uma carga, o louro acha
ruim, revida, o juiz apita, os dois se agarram e por trás chega Bira, que é gordo e
violento, e larga um pontapé no terço inferior da coluna vertebral do louro. Fecha-se o
tempo, o juiz apita, a assistência pula a cerca e invade o campo, o pau começa a comer,
mormente nas costas dos forasteiros, o juiz retira-se e se encosta à cerca, aguardando
aparentemente que os ânimos serenem. Quem interfere são os paredros, austeros e
educados, com as suas gravatas ao vento, chamam asperamente os craques à ordem, expulsam
a assistência, interpelam o juiz, que relutantemente volta ao seu posto; aos poucos os
craques se acomodam, o juiz apita, os paredros recolhem-se. O jogo recomeça.
Mas parece que o incidente estimulou os visitantes, que dão para jogar milhões. São uns
húngaros. O time local perde terreno, o galalau passa a marcar Xaveco, que não dá mais
uma dentro. E o diabo do louro tornou-se proprietário do balão, marca um gol de saída,
depois o seu "secretário", um crioulinho ligeiro que é uma faísca, marca o
segundo tento; e aí Xaveco, desesperado (talvez dentro da área penal), atira uma
canelada terrível no galalau, derruba-o, avança no crioulo, larga-lhe o salto da
chuteira por cima do dedão, o crioulo grita, o louro acode, Xaveco já completamente
louco lhe dá um tapa na cara, o juiz apita, uns gritam foul outros gritam penalty,
e um engraçado diz que foi só hands, já que Xaveco apenas meteu a mão na lata
do loureba.
O juiz continua apitando, parece que vai mesmo marcar o penalty. E um torcedor
local puxa o revólver, dizendo que aquele penalty só se for passando por cima de
algum cadáver. O juiz nessa altura se declara cheio com a partida e larga o apito ali
mesmo. Um paredro fala que ele será expulso do quadro de árbitros e o juiz dá troco,
que quadro de árbitros uma ova. Mas um dos bandeirinhas voluntários logo se apossa do
apito, passa a dirigir o pessoal com surpreendente autoridade e, quando se vê, o jogo
começa outra vez. Vai macio, vai de valsa, é um minueto, até que consultados os
cronômetros verifica-se que acabou o primeiro half time, passando-se ao
recesso para em seguida dar início ao
2 ° TEMPO
que não houve, segundo passo a expor.
Pois não vê que no Distrito havia uma queixa contra Bira queixa dada por certa
donzela que deixara de o ser por artes do craque. Bira escondera-se e só agora aparecia
em público, atendendo a apelos da torcida, por tratar-se de amistoso importantíssimo.
Mas a polícia, que não tem bandeira, aproveitara a ocasião e, antes que o réu pirasse,
dava-lhe voz de "esteje preso".
A assistência, entretanto, que de nada sabia, cuidou que a prisão se prendia à queixa
dos visitantes por causa do pontapé de há pouco. E vendo Bira ser arrastado campo a
fora, irrompeu num sururu dos diabos, vaiando as visitas com buus e nomes feios; as quais
visitas, que tomavam Coca-Cola encostadas à cerca, vendo-se atingidas não só pelos
doestos como por pedaços de pau e tijolo, revidaram com as garrafas de refrigerante. O
tempo fechou outra vez. Os polícias largaram o preso e se meteram no conflito. E quando
os de fora começavam a apanhar feio, o motorista deles teve uma idéia: encostou o
caminhão bem perto e tocou a buzina. A turma entendeu logo (ou quem sabe já era manobra
habitual em "amistosos"?) e de um em um foram deslizando da briga e subindo para
o carro. O que sei é que, quando os locais deram pela coisa, os inimigos já partiam numa
nuvem de poeira, abandonando na pressa um dos seus paredros, malferido, com o sangue
escorrendo do nariz e o belo terno roto.
Bira, igualmente, aproveitara a confusão para ir saindo de manso; agachado numa moita,
lá em cima do morro, ficou a espiar o tintureiro chegar, encostar e, de um em um,
recolher os remanescentes da refrega. E só saiu do esconderijo tarde fechada, quando no
campo completamente deserto uma garça vinda do Jequiá sobrevoava o alagado, bicando
restos das flores do buquê ofertado pelos visitantes.
[Ilha, 1954]
Texto extraído do livro "O Melhor da Crônica Brasileira 1", José
Olympio Editora - Rio de Janeiro, 2000, pág. 56.
17/11/2000
90º. aniversário da autora.
Rachel de Queiroz: sua vida e sua
obra estão em "Biografias".
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