Respondendo a uma pesquisa
Pablo Neruda
Você se pergunta: o que se passará com a poesia no ano de 2000? É uma pergunta
embaraçosa. Se esta pergunta me surgisse num beco escuro, de improviso, eu levaria um
susto que Deus nosso Senhor me acuda.
Porque, que sei eu do ano 2000? E sobretudo, que sei da poesia?
Do que estou certo é de que não se celebrará o funeral da poesia nesse próximo
século.
Em todas as épocas a poesia foi dada como morta, ela porém se tem mostrado centrífuga e
sempiterna, se tem mostrado vitalícia, ressuscita com grande intensidade, parece ser
eterna. Com Dante pareceu que terminava. Porém pouco depois Jorge Marinque lançava uma
centelha, espécie de sputinik, que prosseguia cintilando nas trevas. E logo Victor Hugo
parecia arrasar, não ficava nada para os demais. Então o senhor Charles Baudelaire
apresentou-se corretamente trajado de dândi, seguido do jovem Arthur Rimbaud, trajado de
vagabundo, e a poesia começou de novo. Depois de Walt Whitman, que esperança!, já
ficaram plantadas todas as folhas de relva, não se podia pisar no relvado. Não obstante,
veio Maiakovski e a poesia parecia uma casa de máquinas: deram-se assobios, disparos,
suspiros, soluços, ruídos de trens e de carros blindados. E assim prossegue a história.
É claro que os inimigos da poesia sempre pretenderam assestar-lhe uma pedrada num olho ou
um golpe de garrote na nuca. Fizeram-no de diversos modos, como marechais individuais,
inimigos da luz, ou regimentos burocráticos que marcharam com passo de ganso contra os
poetas. Conseguiram a desesperação de alguns, a decepção de outros, as tristes
retificações dos menos. Mas a poesia começou a brotar como uma fonte ou manar como uma
ferida, ou a construir com o braço partido, ou a cantar no deserto, ou a levantar-se como
uma árvore, ou a transbordar como um rio, ou a estrelar-se como a noite nas mesetas da
Bolívia.
A poesia acompanhou os agonizantes e estancou as dores, conduziu às vitórias, acompanhou
os solitários, foi queimante como o fogo, leve e fresca como a neve, teve mãos, dedos e
punhos, teve brotos como a primavera, teve olhos como a cidade de Granada, foi mais veloz
do que os projéteis dirigidos, foi mais forte pelas fortalezas: deitou raízes no
coração do homem.
Não é provável que começando o ano 2000, os poetas encabecem uma sublevação mundial
para que se reparta a poesia. A poesia se repartirá como conseqüência do progresso
humano, do desenvolvimento e do acesso dos povos ao livro e à cultura. Não é provável
que os poetas cheguem a opinar ou a governar, embora alguns deles o estejam fazendo,
alguns muito mal e outros menos mal. Mas os poetas serão sempre bons conselheiros e
cuidado com deixar de ouvi-los. Muitas vezes os governantes têm comunicações públicas
com seus povos. A poesia tem comunicação secreta com os sofrimentos do homem. Há que
ouvis os poetas. É uma lição de história.
É provável que no ano 2000 o poeta mais novidadeiro, mais na moda em toda a parte, seja
um poeta grego que agora ninguém lê e que se chamou Homero.
Eu estou de acordo e com este objetivo vou começar a lê-lo novamente. Vou procurar sua
influencia, branda e heróica, suas maldições e profecias, sua mitologia de mármore e
seus bordões de cego.
Preparando o novo século, tratarei de escrever á maneira de Homero. Não me ficará mal
um estilo tão fabuloso e tão encharcado do mar ilustre.
Logo sairei com algumas bandeiras de Ulisses, rei de Ítaca, pelas ruas. E como os gregos
já terão saído de seus presídios, acompanhar-me-ão também para dar normas do novo
estilo do século XXI.
Pablo Neruda, pseudônimo de Neftalí Ricardo Reyes Basoalto, nasceu a 12 de julho
de 1904, em Parral, no Chile. Prêmio Nobel de Literatura em 1971, sua poesia transpira em
sua primeira fase o romantismo extremo de Walt Whitman. Depois vieram a experiência
surrealista, influência de André Breton, e uma fase curta bastante hermética. Marxista
e revolucionário, cantou as angústias da Espanha de 1936 e a condição dos povos
latino-americanos e seus movimentos libertários. Diplomata desde cedo, foi cônsul na
Espanha de 1934 a 1938 e no México. Desenvolveu intensa vida pública entre 1921 e 1940,
tendo escrito entre outras as seguintes obras: "La canción de la fiesta",
"Crepusculario", "Veinte poemas de amor y una canción desesperada",
"Tentativa del hombre infinito", "Residencia en la tierra" e "Oda
a Stalingrado". Indicado à Presidência da República do Chile, em 1969, renuncia à
honra em favor de Salvador Allende. Participa da campanha e, eleito Allende, é nomeado
embaixador do Chile na França. Outras obras do autor: "Canto General",
"Odas elementales", "La uvas y el viento", "Nuevas odas
elementales", "Libro tercero de las odas", "Geografía
Infructuosa" e "Memorias (Confieso que he vivido Memorias)". Morreu
a 23 de setembro de 1973 em Santiago do Chile, oito dias após a queda do Governo da
Unidade Popular e da morte de Salvador Allende.
Texto extraído do livro Para nascer nasci, Difel Difusão Editorial
S.A. Rio de Janeiro, 1981, gentilmente enviado ao Releituras por nossa amiga
Claudia Machado Tansini, a quem agradecemos.
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