Amor é amor
Plínio Marcos
Mulher gamada é fogo. Elas, quando se vidram e se amarram num homem, são capazes de
fazer das tripas coração pra defender seus interesses. Uma mulher apaixonada se
transforma dos pés à cabeça. Se é classuda, cai da panca e, sem vacilar apronta os
maiores salseiros. Se é acanhada, endoida e não regateia pra fazer um escândalo. Esse
lance de que a mulher mesmo muito ligada num homem e tal e coisa, se enruste e se fecha em
copas porque tem categoria é papo furado. Mulher que deixa o amor no barato não está
toda na parada. Que nada! Às vezes, está por solidão, por simpatia, por conveniência e
os cambaus. Nunca por gama. É isso. Não tem erro. Sou eu que afirmo, e de mulher eu
entendo. Mas deixa isso de lado. O que quero contar e o que pesa na balança é a
história da Dilma Fuleira e da Celeste Bicuda, duas flores da Barra do Catimbó que se
unharam e se dentaram por amor ao Ariovaldo Piolho, um vagau de pouca presença física,
mas de muita embaixada. Ele lidava com seu rebanho com mil e um macetes e, por essas e
outras, sempre foi muito considerado pelo mulherio. É verdade que esse perereco se deu
nas quebradas do mundaréu, onde o vento encosta o lixo e as pragas botam os ovos, mas, se
acontecesse nos salões da mais fina gente da sociedade, não me causava nenhum espanto.
Mulher é mulher em qualquer lugar. Mestre Zagaia, velho cabo-de-esquadra que navegou sem
bandeira por muita água barrenta e que bateu perna à toa pelos caminhos mais escamosos,
esquisitos e estreitos do roçado do bom Deus, viu quizilas de assombrar negos de patuá
forte, embrulhou sua solidão em muito lençol encardido e escancarou nas Tabuadas das
Candongas uma dica sobre o assunto:
Depois dos panos arriados, o espetáculo é sempre o mesmo.
E, se Mestre Zagaia falou, tá falado. Mulher é sempre mulher. E a Dilma Fuleira e a
Celeste Bicuda também são, embora à primeira vista não pareçam. Sabe como é. Elas
nasceram lesadas da sorte e só pegaram a pior. Bagulho catado no chão da feira nunca fez
bem à beleza de ninguém.
Porém (e sempre tem um porém), não foi a condição de bagulho que impediu que elas
tivessem grandes ilusões a respeito de amor. E o galã dos sonhos das duas era, como já
disse, o Ariovaldo Piolho. Esse vagau se serviu das duas sem a mínima cerimônia. Foi ali
na base do agrião. Como as duas estavam a fim dele, o danado negociou. Fez valer a velha
e tinhosa lei da oferta e da procura. Se fingia de morto e esperava pra ver quem
comparecia no seu enterro.
Como quem não quer nada, pegava a grana na mão da Dilma, cumpria a obrigação e ia
buscar os pixulés com a Celeste. E se o dinheiro compensava, não deixava ela em falta.
Até que o caldo engrossou.
Bateu sujeira. O doutor delerusca resolveu acabar com o pesqueiro das piranhas e a Dilma
Fuleira e a Celeste Bicuda se viram no papo-de-aranha. Escaparam da cana, mas o
faturamento caiu às pamparras. E, no meio disso tudo, o Ariovaldo Piolho sentiu o aroma
da perpétua. Vagau escolado por muitos anos de janela é sempre cem por cento
profissional. Sem pagório, deixou as mulheres na saudade. E se deu o esquinapo.
A Dilma Fuleira achou que o Piolho não queria nada com ela porque estava enredado pela
Celeste Bicuda. Procurou a rival e, sem conversa, deu-lhe uma tremenda biaba. A Celeste
Bicuda era encardida. Encarou, mas não deu nem pra saída. A Dilma Fuleira era gordona e
alta. A Celeste, baixinha e só pele e osso. Teve que apanhar e correr. Porém, como não
era de engolir nada enrolado, a Celeste Bicuda tramou a forra. Foi na macumba levar o nome
da Dilma Fuleira pra sua mãe-de-santo enterrar no cemitério. Feita a façanha, a Celeste
Bicuda se botou a boquejar nos botecos. Garantia pra quem duvidasse que a Dilma Fuleira ia
murchar até morrer. E não faltou fuxiqueiro pra ir rapidinho envenenar a Dilma. E ela,
que já estava atolada até o gogó no pântano, acreditou que a bananosa toda que curtia
era devido à mandinga da Celeste. Se picou de raiva e jurou pela luz que a iluminava que
ia pegar a inimiga e dar pancada até ela desenterrar seu nome. E foi pra guerra.
A Dilma encontrou a Celeste no seu barraco e nem pediu licença. Entrou na força bruta e
foi botando pra quebrar. De repente, a Celeste Bicuda deu uns gritos, uns pulos pro alto
e, quando desceu, era uma fera batusquela. Passou a mão numa enxada e tocou o
bumba-meu-boi no lombo da Dilma, que se viu obrigada a dar pinote. Mas a Celeste foi na
captura e derrubou o barraco da Dilma a enxadada. Em desespero e apavorada com a fúria da
Celeste Bicuda, a Dilma se refugiou na casa do Piolho. A Celeste não tomou conhecimento.
Aliás, ainda ficou mais endoidada de ver a rival junto do homem da sua gama. Aumentou o
escarcéu.
O Ariovaldo, sem se afobar saiu de fininho e chamou a polícia. A cana chegou e ferrou a
Celeste e a Dilma. No Distrito, a Celeste falou que não tinha nada com a briga. Foi o exu
da sua crença que encarnou nela pra acabar com a Dilma. A Dilma, de zoeira, entregou tudo
como era. Disse pro doutor que a bronca era por causa do Piolho, que estava na fita como
testemunha. O delegado quis saber se o Piolho tinha emprego. Não tinha. Entrou em pua e
as mulheres foram dispensadas. Mas continuam pelejando por amor. Uma visita o vagau às
quartas-feiras; a outra, aos domingos. E todas as duas levam o santo dinheirinho de
presente pro Ariovaldo Piolho, o bom amante.
Plínio Marcos de Barros nasceu em Santos (SP) em 29 de setembro de 1935. Filho
de família modesta, não gostava de estudar e terminou apenas o curso primário. Foi
funileiro, sonhou ser jogador de futebol, serviu na Aeronáutica e chegou a jogar na
Portuguesa Santista, mas foram as incursões ao mundo do circo, desde os 16 anos, que
definiram seus caminhos. Aos 19 anos, já fazia o palhaço Frajola e pequenos papéis como
ator em diversas companhias circenses e de teatro de variedades. Atuou em rádio e também
na televisão local em Santos.
Em 1958, conhece a jornalista e escritora modernista Pagu Patrícia Galvão. Ela e
seu marido Geraldo Ferraz, também jornalista e escritor, abriram os horizontes
intelectuais dos jovens atores envolvidos no movimento de teatro amador de Santos,
inclusive Plínio, apresentando-lhes textos de dramaturgia moderna.
Nesse mesmo ano, impressionado pelo caso verídico de um jovem currado na cadeia, escreve
"Barrela", cuja carreira seria premonitória da vida profissional do autor: por
sua linguagem ela permaneceria proibida durante 21 anos.
Em 1960, com 25 anos, está em São Paulo, atuando inicialmente como camelô. Logo estaria
trabalhando em teatro, como ator, administrador, faz-tudo em grupos como o Arena, a
companhia de Cacilda Becker, o teatro de de Nídia Lycia. Desde 1963, produz textos para a
TV de Vanguarda, programa da TV Tupi, na qual também atua como técnico. No ano do golpe
militar, faz o roteiro do show "Nossa gente, nossa música". Em 1965, consegue
encenar "Reportagem de um tempo mau", colagem de textos de vários autores, que
fica um dia em cartaz.
Sob o signo da Censura, Plínio Marcos viverá até os anos 80 sem fazer
concessões, sendo intensamente produtivo e sempre norteado pela cultura popular.
"Dois perdidos numa noite suja" (1966), "Navalha na carne" (1967),
"O abajur lilás" (1969) são sistematicamente perseguidos. Ele luta pela
expressão com peças musicais como "Balbina de Iansã" (1970) e "Noel
Rosa, o poeta da Vila e seus amores" (1977).
Escreve nos jornais Última Hora, Diário da Noite, Guaru
News, Folha de S. Paulo (cadernos "Folhetim" e "Folha
Ilustrada") e Folha da Tarde e também na revista Veja, além
de colaborar com diversas publicações, como Opinião, Pasquim,
Versus, Placar e outras. Em forma de livro, publica suas peças,
os contos de Histórias das quebradas do mundaréu (1973) e o romance
Querô, uma reportagem maldita (1976), depois adaptado para o teatro. O
argumento original de A rainha diaba (1974) consegue chegar às telas.
Depois do fim da Censura, Plínio volta a impressionar com o romance
Na barra do Catimbó (1984), peças como Madame Blavatsky (1985),
textos de teatro infantil, a noveleta e depois peça O assassinato do anão do
caralho grande (1995). Paralelamente, cresce sua presença como palestrante em
várias cidades do país: ele chega a fazer 150 palestras-shows por ano, vestindo negro,
com um bastão encimado por uma cruz e a aura mística de leitor de tarô espécie
de nova "personagem de si mesmo", como fora antes a imagem do palhaço.
Traduzido, publicado e encenado em francês, espanhol, inglês e alemão; estudado em
teses de sociolingüística, semiologia, psicologia da religião, dramaturgia e filosofia
em universidades do Brasil e do exterior; Plínio Marcos recebeu os principais prêmios
nacionais em todas as atividades que abraçou em teatro, cinema, televisão e literatura,
como ator diretor escritor e dramaturgo.
Desde sua morte aos 64 anos em São Paulo, em 29 de novembro de 1999, as homenagens ao
autor e o interesse em torno de sua obra só fizeram crescer, alcançando suas parcerias
musicais com alguns dos mais importantes nomes do samba paulista, bem como novas montagens
e filmagens de seus textos. Ao mesmo tempo, seu nome foi adotado para batizar prêmios e
espaços culturais pelo país afora inclusive o Teatro Nacional Plínio Marcos, de
Brasília.
O texto acima e as informações sobre o autor foram extraídas do livro
"Histórias das quebradas do mundaréu", Mirian Paglia Editora de Cultura Ltda.
- São Paulo, 2004, págs. 105e 177/8.
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