Alvinho, bom palpite
Plínio Marcos
O Alvinho encarava um batente que não era mole. Se virava mais que
charuto em boca de bêbado por uma grana muito mixuruca, que mal dava
pra ele escorar os repuxos. Coisa que não é mole, hoje em dia, com a
vida custando os olhos da cara como anda. Muito nego se abilola.
Principalmente se o pinta é casado e tem montes de filhos pra
sustentar. Às vezes, entra em bobeira e sai falando sozinho. E esse
era o lance do Alvinho. Cheio de bronca com a sinuca de bico em que
estava, ficava pelos botecos cavernosos e biroscas escamosas fazendo
o maior quás-quás-quás da paróquia:
— Estou na piorada. Sei que estou. Mas um dia vira o jogo. Tem que
virar. Do jeito que está não pode ser. Vê eu? Mino linha de frente,
me atucanando nessa zorra encardida. Tá direito? Tá, não. Eu,
Alvinho boa cuca, cheio de embaixada, perdido aqui nessa joça.
Entregue às traças. A perigo perpétuo. Um dia tem que mudar.
E como esse papo que ele engrenava não dizia nada a ninguém, o jeito
era ele mesmo continuar charlando:
— Nasci pra ser tratado a pão-de-ló. E, no entanto, estou só comendo
capim pela raiz. Não dá pedal. Um dia me arrumo. Nem que precise
fazer uma desgraça.
Claro que era conversa de bêbado. Nem o mais loque dos ouvintes
botava fé. Estava tão escancarado que o bafo de boca do Alvinho era
só desabafo que a curriola nem se tocava. E assim foi por anos e
anos a fio. O Alvinho, na volta do trampo, parava na tendinha,
enchia a fuça de cachaça e chorava as pitangas. Mas até araruta tem
seu dia de mingau. Certa tarde, o Alvinho piou na parada e só deu um
alô:
— Manda a penúltima.
O português do boteco fez a vontade do freguês. Botou a pinga, o
Alvinho virou num gole e deu uma dica que fundiu a cuca de muito
xereta:
— Inté. Vou cuidar de mim, que tou na bica pra ficar rico. E, sem
maiores explicações, se picou. Largou a patota se badalando no seu
destino:
— Não gostei dessa história do Alvinho.
— Nem eu. Ele não é de sair daqui antes das nove.
— Não vai ele, com essa mania de se acertar, entrar em canoa furada.
— Que ele pode fazer?
— Sei lá. Com essa mania de ficar rico, ele pode aprontar.
— Quê? Meter a mão grande em cima dos outros?
— E não pode querer sair por aí?
— Não ele. O Alvinho é de coisa nenhuma.
— Já vi muito papagaio enfeitado endoidar e fazer façanha.
— Isso eu também vi. Mas deixa andar. A cabeça dele é o seu guia. Se
arrumar sarna, que se coce.
Mas não tinha chaveco nenhum na esperança do Alvinho. Acontece que,
naquela semana, inaugurava a Loteria Esportiva. E como todo o povão
das quebradas do mundaréu, desde onde o vento encosta o lixo até
onde o vagau pisa devagarinho, o Alvinho via naquele babado a chance
de tirar o pé do lodo. E, na cisma firme, se vidrou na loteria. Dali
pra frente, até deixou de beber. Nem estrilava mais. Seu negócio era
saber quem era o A.B.C. do escambau, o Lagarto da Barra do Catimbó,
Nacional do fim da linha e tal e coisa. Então, era tentar a sorte.
Sacrificava a família, deixava os mumus sem gororoba, mas arriscava
seu palpite. Se alguém botava areia, ele descurtia:
— Que nada! Um dia eu faço treze pontos. Um dia dá eu na cabeceira.
E tem um negócio: se eu beliscar uma nota, que nem precisa ser
grande, pode ser dividida com um gango, eu nunca mais fico duro.
Podem crer. Eu sei de mim. Se meu orixá me valer, eu faço e
aconteço. Juro por essa luz que me ilumina.
E por nada desse mundo saía da cola. Estava rente. Fazia doze, onze,
nunca menos de dez pontos. E, com essas e outras, o bruto sofria.
Torcia. Passava o fim de semana inteiro com um brinco de malandro
pendurado na orelha. Só de radinho de pilha, conferindo o resultado.
E, remando a catraia em águas barrentas, o Alvinho ficava plantado
na boca de espera.
E ficou nesse chove-não-molha até que veio o teste 44. Fanático como
era, o Alvinho manjou o cartão e urrou. Se pudesse fazer três
triplos, era barbada. Não teria erro. Contou sua grana e se
apavorou: só tinha dois pixulés muito sem-vergonhas. No desespero,
saiu caitituando pra cima do seu irmão e do seu cunhado. Azucrinou
tanto os parentes que conseguiu dobrá-los. Conseguiu a bufunfa,
apostou. Ficou na moita e se deu bem. Treze pontos. Uma glória!
Treze pontos. Porém (e sempre tem um porém), mais novecentos e
sessenta e oito negos, além dele, fizeram os treze pontos. A parte
que lhe tocou foi de treze mil e novecentas jiripocas. Como teve que
rachar por três, ficou com quatro milhos e caqueiradas. Quase nada.
Mas, pra ele, que era salário-mínimo, era uma fortuna. E, sem se
afobar, anunciou pros cupinchas:
—Como falei, nunca mais vou ficar duro.
E, mesmo a moçada do pedaço estranhando, o Alvinho meteu os peitos.
Jogou o emprego pro alto. Comprou uma bicheira Buick 58, se encheu
de roupas e virou outro Alvinho. Se embandeirou. Estava sempre à
vontade. Sem ter que levantar cedo pra trabalhar, o pinta ficou um
alegrão. E, de tanta folga que ele tinha, despertou inveja. Os
bochichos começaram:
— Pombas! Quatro milhos dá pra tanto luxo?
— Sei lá. Eu nunca tive.
— Já faz tempo que ele ganhou na loteria.
— Pra tu ver. Já dava pra ter torrado a bufunfa.
— Principalmente gastando como gasta.
— E sem trampo.
— Deixa ele. Está com a vida que pediu a Deus.
E tanto o povaréu cortou o assunto que a pala bateu nas antenas de
um cachorrinho. O cagüeta alertou o tira que era seu chapa. O tira
precisava mostrar serviço e se botou na campana do Alvinho. O
pesqueiro dele era maconha. Sem rodeio, o tira deu a dura. Flagrou o
vencedor da loteria com a boca na botija. E foi cana dura.
No aperto, o Alvinho se abriu:
— Sabe como é. Arrumei a grana, me botei no comércio. Agora, ele vai
puxar um tempão na galera gelada. Talvez dê pra ele se mancar que
grana em bolso de otário atrapalha paca.
Plínio Marcos de Barros nasceu em Santos (SP) em 29 de setembro de 1935. Filho
de família modesta, não gostava de estudar e terminou apenas o curso primário. Foi
funileiro, sonhou ser jogador de futebol, serviu na Aeronáutica e chegou a jogar na
Portuguesa Santista, mas foram as incursões ao mundo do circo, desde os 16 anos, que
definiram seus caminhos. Aos 19 anos, já fazia o palhaço Frajola e pequenos papéis como
ator em diversas companhias circenses e de teatro de variedades. Atuou em rádio e também
na televisão local em Santos.
Em 1958, conhece a jornalista e escritora modernista Pagu Patrícia Galvão. Ela e
seu marido Geraldo Ferraz, também jornalista e escritor, abriram os horizontes
intelectuais dos jovens atores envolvidos no movimento de teatro amador de Santos,
inclusive Plínio, apresentando-lhes textos de dramaturgia moderna.
Nesse mesmo ano, impressionado pelo caso verídico de um jovem currado na cadeia, escreve
"Barrela", cuja carreira seria premonitória da vida profissional do autor: por
sua linguagem ela permaneceria proibida durante 21 anos.
Em 1960, com 25 anos, está em São Paulo, atuando inicialmente como camelô. Logo estaria
trabalhando em teatro, como ator, administrador, faz-tudo em grupos como o Arena, a
companhia de Cacilda Becker, o teatro de de Nídia Lycia. Desde 1963, produz textos para a
TV de Vanguarda, programa da TV Tupi, na qual também atua como técnico. No ano do golpe
militar, faz o roteiro do show "Nossa gente, nossa música". Em 1965, consegue
encenar "Reportagem de um tempo mau", colagem de textos de vários autores, que
fica um dia em cartaz.
Sob o signo da Censura, Plínio Marcos viverá até os anos 80 sem fazer
concessões, sendo intensamente produtivo e sempre norteado pela cultura popular.
"Dois perdidos numa noite suja" (1966), "Navalha na carne" (1967),
"O abajur lilás" (1969) são sistematicamente perseguidos. Ele luta pela
expressão com peças musicais como "Balbina de Iansã" (1970) e "Noel
Rosa, o poeta da Vila e seus amores" (1977).
Escreve nos jornais Última Hora, Diário da Noite, Guaru
News, Folha de S. Paulo (cadernos "Folhetim" e "Folha
Ilustrada") e Folha da Tarde e também na revista Veja, além
de colaborar com diversas publicações, como Opinião, Pasquim,
Versus, Placar e outras. Em forma de livro, publica suas peças,
os contos de Histórias das quebradas do mundaréu (1973) e o romance
Querô, uma reportagem maldita (1976), depois adaptado para o teatro. O
argumento original de A rainha diaba (1974) consegue chegar às telas.
Depois do fim da Censura, Plínio volta a impressionar com o romance
Na barra do Catimbó (1984), peças como Madame Blavatsky (1985),
textos de teatro infantil, a noveleta e depois peça O assassinato do anão do
caralho grande (1995). Paralelamente, cresce sua presença como palestrante em
várias cidades do país: ele chega a fazer 150 palestras-shows por ano, vestindo negro,
com um bastão encimado por uma cruz e a aura mística de leitor de tarô espécie
de nova "personagem de si mesmo", como fora antes a imagem do palhaço.
Traduzido, publicado e encenado em francês, espanhol, inglês e alemão; estudado em
teses de sociolingüística, semiologia, psicologia da religião, dramaturgia e filosofia
em universidades do Brasil e do exterior; Plínio Marcos recebeu os principais prêmios
nacionais em todas as atividades que abraçou em teatro, cinema, televisão e literatura,
como ator diretor escritor e dramaturgo.
Desde sua morte aos 64 anos em São Paulo, em 19 de novembro de 1999, as homenagens ao
autor e o interesse em torno de sua obra só fizeram crescer, alcançando suas parcerias
musicais com alguns dos mais importantes nomes do samba paulista, bem como novas montagens
e filmagens de seus textos. Ao mesmo tempo, seu nome foi adotado para batizar prêmios e
espaços culturais pelo país afora inclusive o Teatro Nacional Plínio Marcos, de
Brasília.
O texto acima e as informações sobre o autor foram extraídas do livro
"Histórias das quebradas do mundaréu", Mirian Paglia Editora de Cultura Ltda.
- São Paulo, 2004, págs. 153. Sua publicação é uma homenagem ao
autor, que estaria completando 70 anos no dia 29/09/2005.
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