Vívido

Pedro Amaral


INVENTÁRIO


É a mesma lição
De novo ecoando,
Da qual sempre me escapa
O enunciado.

E, dele esquecido,
Me vejo obrigado
A refazer novamente o inventário
Do que pensava já haver aprendido.


TURISMO

Aonde quer que se vá,
Levar o quanto se é;
Seja qual for o modo
De andar: se ligeiro
Ou pé-ante-pé.

(Aonde quer que se vá,
Decidido ou como-quem-não-quer,
Impossível será não levar
Na bagagem o quanto houver.)

Mais que isso:
Levar consigo,
Indo determinado ou a esmo,
O que há que faz ser possível
No andar, o andar mesmo.


VÍVIDO
(living)

Não senhores não se importunem
com essa indisfarçável tristeza,
tristeza por nada, repentina,
que nada aplaca ou anima.

Não é amarga, não tem ranço,
não empesta o ar nem arrasa,
é como um pássaro batendo asas
pela casa
adentro, já passa.


O MEIO CIRCULANTE

Se é verdade ou invento,
Se é fraco ou pra valer —
Qual o custo, o benefício?
O que há para vender?

As tolices, as delícias,
As vertigens do querer
— A gente perde tanto tempo
Procurando compreender...


ÀS MOÇAS DE FINO TRATO


No que refere aos cuidados com a aparência,
quer me parecer que
a distância entre o requinte e o mau gosto
é aquela que vai
da observância ao engajamento.
No vinho e nas crianças,
A verdade —
Diz o grego, e com propriedade;
Mas, claro, o grego não sabe
Do modo como tu danças.


HOMENAGEM

A moça de minissaia
É como
O sol que nasce na praia
E que, sem nuvens, quase, irradia
A sua luz, alta, clara.

De minissaia, ela é como
A fruta mais que madura
Que um doce raro anuncia
No galho em que se pendura.

Que chova, que o mundo caia:
Ela passa decidida.
A moça de saia é uma vaia
Às intempéries da vida.


Pedro Amaral, carioca, 27 anos, filho de família cearense, bacharel em Filosofia pelo IFCS/UFRJ, tem mestrado em Relações Internacionais pela PUC/RJ. Publicou o livro "Vívido" em 1995, com prefácio de Antônio Houaiss, que mereceu da seção "Livros" da revista "Veja" de 01/1097 a seguinte manchete: "Bom de Verso — O jovem Pedro Amaral encanta a crítica e é apontado como a grande promessa da poesia." Elogiado por Silvano Santiago, Helena Buarque de Holanda e pelo excelente poeta Manoel de Barros, participou do livro "7+1" com outros jovens poetas, editado pela Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1997.

Os poemas acima (exceto "Às moças de fino trato", "7+1", pág. 80) foram extraídos do livro "Vívido", Livraria Sette Letras, Rio de Janeiro, 1995, págs. 15, 31,36, 61 e 73.

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