Incrível como é difícil compreender que "fazer confusamente" seja o primeiro
e inevitável passo para "fazer com clareza". Daí não serem poucos os que
sucumbem, não por inaptidão, mas por impaciência.
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Caberia, suponho, uma certa indulgência com relação às tolices a
que somos levados por um entusiasmo, um estado de "transbordamento", digamos
assim. Pois a ousadia é sempre fruto de um bem-estar... e já notaram como são comedidos
os tristonhos?
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Procurando nos acercar o mais possível da verdade, temos que
considerar uma tal ordem de nuances e meandros que, por fim, o que ganhamos em exatidão
perdemos em ênfase, e concisão.
Decorre decerto daí o uso indiscriminado das meias-verdades no dia-a-dia (para não falar
no deleite que nos proporcionam a imprecisão e o arbítrio): sem elas, creio, poucos
teriam a pachorra de entabular uma conversa.
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Do cômodo estado de auto-indulgência a que sempre tendemos, aquele do
tronco oco que segue passivamente ao sabor da correnteza, somos içados por dois tipos
antagônicos de criaturas: ou bem as atraentes (as que nos impressionam com alguma sorte
de perfeição, ainda que não saibamos defini-la exatamente), diante das quais sentimos
irresistível necessidade de agir, de modo a atraí-las para nosso campo de gravitação;
ou bem as repugnantes, de desafiadora fealdade, perante as quais cumpre assegurar a
diferença que acreditamos ser.
Pedro Amaral, carioca, 27 anos, filho de família cearense, bacharel em
Filosofia pelo IFCS/UFRJ, tem mestrado em Relações Internacionais pela PUC/RJ. Publicou
o livro "Vívido" em 1995, com prefácio de Antônio Houaiss, que mereceu da
seção "Livros" da revista "Veja" de 01/1097 a seguinte manchete:
"Bom de Verso O jovem Pedro Amaral encanta a crítica e é apontado como a
grande promessa da poesia." Elogiado por Silvano Santiago, Helena Buarque de Holanda
e pelo excelente poeta Manoel de Barros, participou do livro "7+1" com outros
jovens poetas, editado pela Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1997. Deste extraímos os
pensamentos acima, pág. 79.