Elizabeth Bishop
Uma arte
Pedro Amaral
A arte de perder não é
difícil aprender; tantas coisas parecem feitas com o intento da
perda, que sua perda não é desastre.
Perde algo a cada dia. Aceita o susto de perder a chave da porta, a
hora passada em aflição. A arte de perder não é difícil aprender.
Então pratica perder mais, e mais rápido: lugares e nomes e aonde
pensavas viajar.
Nada disso trará desastre.
Perdi o relógio de minha mãe. E veja! a última, ou penúltima, de
três casas amadas se foi. A arte de perder não é difícil aprender.
Perdi duas cidades, amáveis. E, pior, alguns remos que tive, dois
rios, um continente. Sinto sua falta, mas não é um desastre.
— Até perder você (a voz risonha, o
gesto amado), não posso esconder. E evidente que a arte de perder
não é tão difícil de aprender. Embora a perda (escreva!) pareça
desastre.
Pedro Amaral,
carioca, filho de família cearense, bacharel em Filosofia
pelo IFCS/UFRJ, tem mestrado em Relações Internacionais pela PUC/RJ.
Publicou o livro "Vívido" em 1995, com prefácio de Antônio Houaiss,
que mereceu da seção "Livros" da revista "Veja" de 01/1097 a
seguinte manchete: "Bom de Verso — O jovem Pedro Amaral encanta a
crítica e é apontado como a grande promessa da poesia." Elogiado por
Silvano Santiago, Helena Buarque de Holanda e pelo excelente poeta
Manoel de Barros, participou do livro "7+1" com outros jovens
poetas, editado pela Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1997.
O poema acima foi
extraído do livro "Vívido", Editora Sette Letras 1997 — Rio de
Janeiro, pág. 95.