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A troca
Osvaldo Orico
Foi justamente à mesma hora, já tarde da noite, que as primeiras dores do parto levaram
as duas mulheres a procurar a maternidade local para dar à luz. Encontraram-se na
portaria, acompanhadas dos maridos, e cumprimentaram-se como boas amigas, confidenciando
uma à outra:
Creio que a criança não demora a nascer. Pulei da cama assustada, porque me deu a
impressão de que saía de um momento a outro. Senti uns pontapés e umas pontadas, como
se quisesse escorregar de qualquer jeito.
Eu também. Não me agüentava mais. O meu não demora muito a chegar
Por felicidade ou infelicidade de ambas, só havia duas camas vagas no hospital. Todos os
quartos da clínica estavam ocupados; mas não era o caso de discutir alojamentos. E as
duas amigas concordaram em ficar perto uma da outra, na mesma enfermaria: Eulália,
branca, vinte e seis anos, bonita, cabelos castanhos ondulados, casada com Juvenal, de
pele clara e cabelos louros, simpático, insinuante; e Eufrásia, alta, esguia, morena
(dessas que se costuma chamar bem-apanhadas), com uma pigmentação que não deixava de
torná-la atraente e apetecível, casada com um mulato de boa aparência, o Adelino,
bem-dotado fisicamente, capaz de competir num torneio de homens de cor com o Harry
Bellafonte ou Breno Melo. Nos bons tempos de Carmem Jones e Orfeu Negro.
A enfermeira de plantão, Dona Nair, não poderia ser mais diligente e responsável.
Agasalhou-as da melhor maneira, aconselhando-as com sua longa experiência:
Deitem-se aqui. Vou prevenir o médico e pôr em ordem a sala de operações.
Desconfio muito que, antes da madrugada, as crianças vão nascer.
Tinha razão. Duas ou três horas depois, quase ao mesmo tempo, Eulália, a parturiente
branca, de cabelos castanhos e lisos, tinha a seu lado um bebê de chocolate. Um bebê que
contrastava com a brancura do ventre de onde tinha saído; e Eufrásia, a morena tostada
(de duvidosa herança capilar), aconchegava ao seio uma criança clara, que não fazia pendant
com a pele da barriga em que havia sido gerada.
Os pais entreolharam-se surpresos, aceitando constrangidos, a contragosto, o capricho da
natureza, que se esmerara em dotá-los de maneira tão desigual e desencontrada. Até
mesmo perversa. Como era possível escorrer de um ventre macio e alvo uma criança esconsa
e escura? Que dava o que pensar. E o que é pior o que falar.
E de uma pele morena, quase canela, fazer brotar um lírio, um bogari?
O assunto era para intrigar.
Os dois homens coçaram a cabeça: que diriam os visitantes, os vizinhos e os conhecidos,
quando Eulália e Eufrásia mostrassem as crianças que a cegonha lhes havia trazido? Os
pais tinham razão para estar apreensivos. Aquilo ia dar bode. E servir de piada, de
facécia e de chacota para as linguarudas da vizinhança.
Mal refeitas do abalo da maternidade, as duas mulheres não haviam tido ainda vagar para
um exame mais detido da situação em que se encontravam. Mostravam-se aparentemente
satisfeitas, sem atentarem na conformação, no aspecto e na cor dos recém-nascidos.
Parecia-lhes tudo normal. Principalmente porque o espaço que as separava uma da outra
não permitia que avistassem as crianças.
Só os dois homens, intrigados com o fato, continuavam a interrogar se, iniciando um
processo de desconfiança que Juvenal foi o primeiro a permitir, ao abordar a enfermeira.
Ouça cá, Dona Nair Esses bebês nasceram ao mesmo tempo ou em horas diferentes? .
Diferença de vinte a trinta minutos um do outro respondeu ela.
Apelando para o tato, para a habilidade na conversa, Juvenal arriscou a pergunta
indiscreta:
Tem certeza de que não houve troca, por acaso, na hora de entregar a cada mãe seu
filho?
Compreendo bem aonde o senhor que chegar; mas não lhe fique a menor dúvida. Eu
mesma recebi a criança morena, dei banho nela, pesei, vesti e a coloquei no bercinho,
junto de sua senhora. Para que a visse ao despertar Meia hora depois, mais ou menos, fiz o
mesmo com o outro recém-nascido, colocando-o ao lado da esposa deste outro senhor, que
já tinha voltado a si. Como vê, nenhuma possibilidade de confusão. Tudo decorreu
normalmente.
E, ante a perplexidade dos dois maridos, rematou meio ofendida e estomagada:
Tenho dez anos de prática nesta enfermaria. Nunca se registrou aqui nenhum caso
que provocasse desconfiança dos casais e fizesse recair suspeitas sobre minha pessoa. O
menino moreno é filho da moça clara; e o branquinho nasceu da senhora morena. Podem
ambos ficar certos do que digo.
A franqueza até certo ponto rude com que lhes falou a enfermeira não deu
fôlego aos dois homens para prosseguir na indagação do ocorrido. Calaram-se,
resignados. Embora apreensivos com o desfecho da paternidade, que os brindara com uma
surpresa capaz de dar o que falar
***
Eulália e Eufrásia ficaram meio
atônitas quando se inteiraram daquela molecagem da natureza. Sobretudo a primeira, que
já tinha em casa dois filhos brancos do marido. Como iria explicar o nascimento do
terceiro, com aquela cor diferente, olhinhos pretos, bem diferente dos outros? Já
Eufrásia recebeu menos chocada o seu recém-nascido. Pareceu-lhe até natural que a vida
lhe houvesse concedido o privilégio de ter um branquinho na família. Não havia tantos
casos assim pelo mundo? E, como a justificar o nascimento da criança, explicava aos
íntimos:
Eu rezei tanto pra melhorar a raça! O Adelino, apesar de mulato, sempre quis ter
um filho claro. Diz ele que seu avô era português, e sangue puxa sangue. Tem sobrinhos
de cabelos louros. Agora não vai ficar pra trás na família. Porque também lhe dei um
filho branco. E capaz de sair louro como os primos.
A satisfação de Eufrásia doía em Eulália. Custava-lhe aceitar essa confusão de
sangue e de cor, desconfiando no íntimo de que um engano ocasional houvesse permitido a
troca das crianças. A enfermeira, madurona e míope, bem poderia haver se equivocado na
hora, alterando o quadro da natalidade. Ou alguém por ela. O próprio médico, chamado
às pressas para uma cesariana, podia não ter atentado na troca. Tudo era possível.
Deixando a enfermaria após o resguardo, cada uma das mães levou com seu rebento uma
filosofia de vida: Eulália, preocupada e insatisfeita com aquele moreninho turvo e
oxidado que o destino colocara em seu caminho, criando-lhe um problema difícil de
explicar; e Eufrásia, radiante da vida pela intervenção do sobrenatural no nascimento
do novo herdeiro.
Com o andar do tempo, as diferenças de comportamento entre as duas, longe de se aliviarem
com a convivência e a ternura das crianças, geraram situações insustentáveis, que
acabaram na ruptura de relações entre os dois casais, até antes unidos por uma
intimidade e achegados por uma confiança sem limites.
***
A coisa veio a piorar ainda mais quando a
vila tomou conhecimento de que Dona Nair, a enfermeira-chefe da clínica, endoidara. E
que, tendo perdido o nexo das coisas, se recolhera a um hospital para um tratamento
rigoroso. Aí recomeçaram as desconfianças de que, num momento de crise, anterior à sua
enfermidade, pudesse, realmente, haver trocado os recém-nascidos, dando à Eulália o
filho de Eufrásia. E vice-versa.
A primeira voltou a reconsiderar o caso, desprezando a teoria dos caprichos da natureza,
para colocar a evidência da pele acima de todos os arranjos e desculpas de que se valem
os sábios para justificar o impossível. Se a enfermeira deixara a clínica por andar mal
da cabeça, seu desequilíbrio devia remontar à época do nascimento das crianças.
Eu não te dizia, Juvenal, que aquela mulher, com aquela cara enfezada, não era
boa da bola? Estás vendo agora que eu estava com a razão. Estamos criando o filho de
Eufrásia. O nosso está com ela. Que mulata pernóstica! Não se manca de andar pelas
ruas com um menino branco, fingindo que é dela. Que te parece?
O marido ouvia os protestos da esposa, mas preferia silenciar. Guardava na memória as
palavras com que Dona Nair lhe replicara ás inconveniências, quando pusera em dúvida
sua conduta na hora do parto. Não esquecia também o fato de que o médico assistente
nunca desmentira a enfermeira. Logo, tinha de aceitar os fatos e receber as coisas como
haviam ocorrido, com grande desapontamento para a esposa, que exigia dele uma reação no
sentido de trazerem para o lar o filho truncado.
***
Limitado a princípio às questiúnculas
entre dois casais desavindos, a verdade é que o caso do menino branco virou bola de neve.
De uma simples querela em família, degenerou em celeuma, transformando-se em questão
municipal. Dos cochichos e xingações recíprocas, transformou-se em manchete de jornal,
em comentário de rádio. E, espraiando-se por toda parte, varou as associações
médicas, os centros de pesquisa, desafiando nas grandes cidades os programas de
televisão.
A teimosia de Eulália fez da rival uma vítima, dividindo e apaixonando as opiniões.
Ninguém mais ficou indiferente ao assunto, que passou a empolgar a todos que dele tomavam
conhecimento. Enquanto os maridos ficavam na zona da sombra, apagados e sumidos, Eulália
e Eufrásia subiam na crista da onda, como duas heroínas de novela. Onde quer que
chegasse a notícia do conflito, dividiam-se as opiniões; mas era evidente que a figura
de Eufrásia começava a ganhar a simpatia pública pela tenacidade e coragem com que
defendia o direito de ter um filho branco e louro, que contrastasse com os irmãos mulatos
e mestiços.
Onde quer que chegasse a notícia do conflito entre as duas mães, acendiam-se os debates.
E pipocavam os comentários e palpites. Uns achavam razoável a reivindicação de
Eulália, pela circunstância especial de ser ela a mãe branca, esposa do homem claro, a
quem devia pertencer o garoto oferecido à outra, na confusão do parto. Outros,
entretanto, em sua maioria, capitulavam diante das razões invocadas por Eufrásia para
manter a posse do menino louro. Principalmente pela sua atitude humana em face do pleito.
Enquanto a mãe branca se obstinava em retomar o menino louro a qualquer custo,
menosprezando a criança mestiça, a mãe escura, revelando sentimentos acima dos
preconceitos de cor, aceitava mansamente a posse de ambos:
Se ela não quer ou não gosta do filho que teve, o problema não é meu. Enjeite o
garoto. Ponha ele na minha porta. Mande ele à minha casa que eu crio.
Essa maneira generosa de comportar se garantia Eufrásia no julgamento da maior parte das
pessoas. Quanto maior era a campanha que sofria por parte da outra, mais líquido parecia
o seu direito á conservação do tesouro que a vida lhe oferecera.
Não, não abdicaria jamais da obrigação de cuidar e de criar o filho que lhe entregara
a enfermeira. O caso, levado aos tribunais, consumia laudas e laudas de papel em pareceres
e sentenças. Cada juiz emitia a sua. E o processo não parava. Ia de uma alçada para
outra, sem que se chegasse a um resultado satisfatório e positivo. Ora o advogado de uma
parte obtinha a vitória e o menino louro pendia para a posse da mãe branca. Ora o
advogado da outra parte reabria a querela e a mãe escura ficava com a guarda da criança.
Não aparecia um Salomão capaz de reeditar a sabedoria dos templos bíblicos e oferecer
ao pleito a sentença conciliadora que atestasse a maternidade verdadeira.
***
Os meninos já estavam crescidinhos
quando alguém lembrou que, na localidade, existia um judeu muito esperto, dono de uma
loja de fazendas e agiota nas horas vagas. Apesar de chamar-se Davi, era mais conhecido
pelo nome de Salomão. Justamente pela sabedoria de seus julgamentos e pela astúcia de
suas decisões. Nenhum magistrado, por mais experiente que fosse, levava vantagem sobre
ele na maneira de concluir com quem estava a razão. Ou quem incidia em erro. Cansadas de
baterem à porta dos tribunais, de fazerem escândalo em torno da troca das crianças, as
duas mães, depois de resistirem bastante à interferência de amigos e parentes,
concordaram em ouvir e acatar o que o Salomão lojista lhes dissesse a respeito da posse
discutida.
O novo árbitro aceitou a difícil investidura, sob a condição de examinar todos os
antecedentes do caso e ouvir separadamente os maridos e as esposas. Para formar um juízo
seguro e imparcial. Pôs os litigantes em regime de confessionário, chamando ainda outras
testemunhas para a elucidação completa do assunto. A devassa a que procedeu foi tão
rigorosa que toda gente começou a fazer fé nas conclusões que levariam o novo Salomão
a proferir sua sentença. Depois de muitas semanas de investigação, o judeu comunicou
às partes em conflito que o processo terminara, que havia encontrado a solução do
problema que tanto afligira as duas mães. Estava disposto a manifestar-se. Exigia,
porém, como preliminar para a leitura da sentença, que as duas mães comparecessem ao
ato, levando as crianças que representavam os pomos de discórdia. Que, em sua companhia,
viessem os dois esposos. E que se comprometessem a acatar, de qualquer forma, a sentença
proferida.
***
No dia marcado para o encontro das partes
conflitantes, acorreu à loja do Salomão toda a gente bisbilhoteira da vila. Não houve
ninguém que não quisesse saber a conclusão a que ele chegara no litígio as duas
famílias. Com surpresa geral, só não estavam no recinto da decisão os dois casais
desavindos e as crianças contestadas. Longe de chocar-se com a ausência, o judeu parecia
tranqüilo e bem-humorado com a falta.
E se eles não vierem perguntavam os curiosos , a decisão não vai
sair?
Não.
Por quê?
Porque é um sinal de que os dois casais já a aceitaram. Não precisam vir aqui.
A sentença do Salomão fora como o ovo de Colombo. Bastava quebrar a casca para ficar de
pé. Houvera, realmente, uma troca. Mas não de filhos; de maridos.
Isso, nove meses antes do parto.
Osvaldo Orico, (29/12/1900 19/02/1981), nasceu em Belém, PA, tendo
sido professor, diplomata, poeta, contista, romancista, biógrafo e ensaísta. Foi eleito
em 28 de outubro de 1937 para a Cadeira nº. 10, na Academia Brasileira de Letras. Exerceu
diversos cargos relacionados ao magistério e à cultura. Serviu como diplomata em
Santiago do Chile, Buenos Aires, Haia e Beirute; foi delegado adjunto na Unesco,
conselheiro comercial da Embaixada do Brasil na Espanha e na Bélgica; deputado federal
pelo Estado do Pará; ministro para Assuntos Econômicos na ONU; ministro do Brasil junto
à Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura, com sede em
Paris.
Era membro do Instituto Histórico do Pará; da Academia Portuguesa da História; da
Academia das Ciências de Lisboa; da Real Academia Espanhola e da Academia da Latinidade,
de Roma.
É pai da famosa artista brasileira Vanja Orico.
Dele disse Jorge Amado: Em todas as narrativas perpassa o riso do autor,
divertindo-se com as peripécias da vida, da vida política ou da vida da gente pobre e
trabalhadora, nem por pobre menos pícara...
Obras:
Dança dos pirilampos, poesia (1923); Coroa dos humildes, poesia (1924); Arte de esquecer,
ensaio (1927); Grinalda, poesia (1928); O melhor meio de disseminar o ensino primário no
Brasil, ensaio (1928); Vida de José de Alencar, biografia (1929); Contos e lendas do
Brasil, folclore (1929); Mitos ameríndios, folclore (1929); O demônio da Regência,
ensaio (1930); O tigre da Abolição, biografia (1931); Evaristo da Veiga e sua época,
biografia (1931); O Condestável do Império, biografia (1933); Contos da Mãe Preta
(estórias do folclore adaptadas à leitura das crianças), s.d.; Histórias de Pai João
(estórias do folclore adaptadas à leitura de crianças), s.d.; Viagem de Papá Noel,
conto (1934); Mãe da Lua, folclore (1934); Silveira Martins e sua época, biografia
(1935); Vocabulário de crendices amazônicas, folclore (1937); Seiva, romance (1937);
Vinha do Senhor, contos (1939); A saudade brasileira, estudo (1940); Joana Maluca, contos
(1940); Mundo ajoelhado, contos (1942); Da forja à Academia, memórias (1954); Brasil,
capital Brasília, edição trilíngüe: em português, francês e inglês (1950);
Feitiço do Rio, poesias, edição bilíngüe: em português e francês (1958); Marabaxo,
contos (1960); Rui, o mito e o mico Réplica à obra da calúnia (1965); Grãos da
sabedoria, ensaio (1965); Cozinha amazônica: uma autobiografia do paladar (1972); Don
Juan ou o demônio do sexo, ensaio (1973); O feiticeiro de São Borja: o fino da bossa no
humor de Getúlio Vargas, biografia (1976); José de Alencar. Patriarca do romance
brasileiro, ensaio (1977; 2a ed., revista, de Vida de José de Alencar.); Camões e
Cervantes: semelhanças da vida e dessemelhanças da obra, ensaio (1980). A vida imita os
contos póstumo - (1995).
(Fonte: Academia Brasileira de
Letras).
Texto extraído do livro A vida imita os contos, Editora Record Rio de
Janeiro, 1995, pág. 145.
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