A caminho do céu

Osvaldo Orico


O avião supersônico cortava o espaço acolchoado de nuvens, levando num dos bancos o bispo de Olinda.

Sentado calmamente na poltrona, Dom Heldésio olhava aquelas camadas de algodão atapetarem o espaço por onde deslizava a aeronave. Chão de nuvens.

Sentia-se longe do mundo e das misérias terrenas, relendo seu livro de orações. Ah! aquele livro! Ele o ajudava a distanciar se da mesquinhez dos homens, aproximando-o de Deus.

De vez em quando suspendia a leitura dos versículos e entretinha-se com a paisagem espacial, como se estivesse caminhando para o céu.

E por falar em céu, que lindo seria aproximar se dele, tocá-lo, senti-lo, apalpá-lo com a mão ou com os olhos!

Estava certo de que o Senhor lhe permitiria, mais cedo ou mais tarde, essa graça, ainda em vida. E por que não? Tantas coisas acontecem no domínio do sobrenatural que não seria vaidade nem ousadia esperar que, ungido pela divindade, o bispo também viesse a experimentar a satisfação de conhecer o céu, sem deixar a terra.

Para isso trabalhava como ninguém, envidando todos os esforços para a conquista de um mundo justo, sem riquezas excessivas nem misérias alarmantes. Um mundo equilibrado. Comedido. Razoável. O mundo de que falam as Escrituras. Sem ricos miseráveis. Nem pobres maltrapilhos.

E Dom Heldésio considerava:

"A Igreja, a nova Igreja, está perto desse objetivo. Já deu umas sacudidelas na burguesia, acordando-a para as novas realidades do tempo. Os últimos Papas puseram-se de acordo com os jovens sacerdotes, enveredando pelo caminho das reformas e querendo que a pobreza seja atenuada e a riqueza dividida."

É verdade que, por pensar assim, era suspeitado por algumas patentes, que viam nele um marxista de sotaina, a inventar coisas que excitavam os camponeses e punham de sobreaviso os senhores de engenho. Que importava, porém?

Dom Heldésio sentia-se um homem livre, protegido pela batina e pelo solidéu. Gostava de falar, de deitar entrevista, de ocupar as manchetes dos jornais. Isso ajudava a missão pastoral de que estava investido: que os ricos fossem menos arrogantes e os pobres mais bem aquinhoados.

Relendo os Evangelhos, encontrava neles farto apoio para suas teses. Desejava a união de todos para o bem de cada um. Cristo havia prevenido aos apóstolos que a Casa, se dividida, não ficaria de pé.

Suspendeu o raciocínio para olhar mais uma vez os caminhos celestiais que o avião ia devorando com as hélices.

De repente, estremeceu. Fixou-se mais, a fim de certificar se. Esfregou os olhos para assegurar se de que não estava dormindo, de que tudo não passava de um mal-entendido visual. Sonhava?

Estendeu um olhar perquiridor num desafio à realidade. E viu. Viu o que os outros passageiros menos curiosos e mais indiferentes não haviam visto: um dos motores do avião com a hélice parada no ar.

Assustou-se, mas se conteve. Não tinha o direito de levar aos outros suas apreensões. Disfarçou a inquietação. Levantando-se calmamente do banco, tomou o caminho da cabina do comandante. Lá chegando, olhou a estrada de nuvens que se descortinava à sua vista. E saudou os pilotos, com a maior naturalidade.

— Então, amigos, a viagem vai excelente, não é assim? O comandante respondeu-lhe, confiante:

— Ótima.

— Está se vendo. Tempo agradável. Céu de brigadeiro. O avião desliza como se patinasse no gelo. A quantas horas estamos de Recife?

— Temos ainda duas horas e meia para aterrissar.

— Duas horas e meia? — repetiu assustado o sacerdote. E benzeu-se.

— Por quê, Reverendíssimo? A travessia não lhe está agradando?

— Longe disso - retrucou o bispo. — Estou achando-a magnífica. Para aplicar seu qualificativo, ótima.

Depois, olhando de frente o bimotor com uma das hélices paradas:

- Ainda que mal lhe pergunte, meu comandante, a hélice do lado direito não funciona, ou sou eu que estou vendo mal?

— O senhor está vendo muito bem. Um dos motores deixou de responder duas horas depois de havermos levantado vôo. Estando praticamente à metade do caminho, achei preferível seguir viagem, em vez de voltar ao ponto de partida.

— Correto. Tenho de estar ainda hoje em Recife para uma reunião dos bispos do Nordeste. Um atraso no horário poria por terra meus planos e meu programa. Temos de discutir teses ligadas diretamente à angústia das nossas populações rurais. E a minha ausência do Sínodo valeria como um caso de calamidade pública.

— Certamente, Excelência.

— E o motor parado não atrasa a viagem nem oferece perigo?

— Atrasar, atrasa; mas não corremos maior risco, porque o outro está em perfeitas condições de funcionamento. Responde à maravilha.

— Ainda bem. Gratíssimo pela informação. Sou eu, talvez, o único passageiro que se deu conta da pane no motor Isso mesmo porque cometi a imprudência de olhar para fora. Feio pecado a curiosidade! Se não estivesse abelhudando tudo como de meus hábitos, não estaria agora sobressaltado, a contar minutos para a chegada.

O comandante voltou a tranqüilizá-lo, falando da segurança do aparelho, da bonança do tempo, e Dom Heldésio retomou seu lugar, não sem antes correr a cortina da janela do avião, causa do susto que levara e dos perigos que continuavam a perturbar-lhe a imaginação.

Deixou-se cair no assento como uma pluma. Nem a pesada batina preta conseguia aumentar o volume e os gramas do angélico pastor, tênue, quase diáfano em sua fragilidade corporal.

Na iminência de um desastre, poderia sobrevoar como um arcanjo, livrando-se nas nuvens, tão espiritual era a sua condição humana. Dir-se-ia feito de gaze e de seda, como as estrelas de presépio ou de casca de ovo como os enfeites das árvores Natal.

Se o avião tombasse, era quase certo vê-lo flutuar no espaço à maneira dos cosmonautas, que saem das cápsulas espaciais e ficam pisando estrelas, indiferentes à lei da atração da Terra.

Apesar da estrutura celestial que o singularizava entre os companheiros de viagem, pesadões e adiposos, Dom Heldésio conseguiu conciliar o sono.

Em torno dele, os companheiros distraídos e indiferentes, cada qual carregando com o peso do corpo sua bagagem de pecados. Lendo ou ressonando, nenhum tivera a curiosidade de espiar para fora e notar o motor parado.

Observando a perfeita tranqüilidade de todos, sentia-se responsável pelo destino de trinta vidas pelo menos. Isso o fez voltar à cabina do comandante e recomeçar o diálogo:

— Não imagina, meu amigo, como suas palavras me confortaram e tranqüilizaram. Sinto-me outro. Passo o tempo a dormir; mas o tempo não quer passar. Se não fosse indiscrição, gostaria de saber quantos minutos ainda nos afastam de Recife.

— Temos ainda hora e meia de viagem.

— Hora e meia, comandante?

— Aproximadamente.

— A travessia se faz mais longa do que imaginava. Paciência. Não levaria a mal que lhe fizesse mais uma pergunta?

— Por quem é, monsenhor! Estou inteiramente às suas ordens.

— Se bem me lembro, o meu comandante me disse que a falta daquele motor (o do lado direito) não lhe causava maiores apreensões...

— Exato.

— E, ainda que possa passar por importuno, desejaria saber um pormenor.

— Disponha de mim, monsenhor.

— Sei que viajamos bem sem o motor do lado direito; mas, comandante, se, por acaso (que Deus tal não permita), viesse a parar também o outro motor?

O piloto olhou para o co-piloto, a pedir-lhe que o arrancasse do embaraço. Que o tirasse daquela sinuca.

Voltou-se para o bispo, procurando com o intervalo inspirar-se na resposta:

— Monsenhor quer saber se, por fatalidade, viesse a falhar também o outro motor do aparelho, que aconteceria?

— Exatamente.

— Aconteceria, Excelência, chegarmos mais cedo ao céu, conduzidos pela sua mão.

Talvez o comentário do bispo fosse este:

— Comandante, brincadeira tem hora.

Mas um desmaio providencial interrompeu a confissão, levando o sacerdote para outros mundos menos perigosos. Caiu novamente como uma pluma sobre uma das poltronas da cabina do comando, assistido pelos pilotos, que lhe tomavam o pulso, preferindo deixá-lo na paz de um sonho com os querubins.

Assim ficou o resto da viagem, evadido do aparelho, orando em silêncio pelos pecadores que ali ficavam desatentos ao que acontecia.

Enquanto o pastor dormia, milagrosamente voltou a funcionar o motor da direita e, ajudado pelos ventos, o avião ganhava espaço com as duas hélices girando como moinhos desembestados no ar...


Osvaldo Orico, (29/12/1900 19/02/1981), nasceu em Belém, PA, tendo sido professor, diplomata, poeta, contista, romancista, biógrafo e ensaísta. Foi eleito em 28 de outubro de 1937 para a Cadeira nº. 10, na Academia Brasileira de Letras. Exerceu diversos cargos relacionados ao magistério e à cultura. Serviu como diplomata em Santiago do Chile, Buenos Aires, Haia e Beirute; foi delegado adjunto na Unesco, conselheiro comercial da Embaixada do Brasil na Espanha e na Bélgica; deputado federal pelo Estado do Pará; ministro para Assuntos Econômicos na ONU; ministro do Brasil junto à Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura, com sede em Paris.

Era membro do Instituto Histórico do Pará; da Academia Portuguesa da História; da Academia das Ciências de Lisboa; da Real Academia Espanhola e da Academia da Latinidade, de Roma.

É pai da famosa artista brasileira Vanja Orico.

Dele disse Jorge Amado: “Em todas as narrativas perpassa o riso do autor, divertindo-se com as peripécias da vida, da vida política ou da vida da gente pobre e trabalhadora, nem por pobre menos pícara...”

Obras:

Dança dos pirilampos, poesia (1923); Coroa dos humildes, poesia (1924); Arte de esquecer, ensaio (1927); Grinalda, poesia (1928); O melhor meio de disseminar o ensino primário no Brasil, ensaio (1928); Vida de José de Alencar, biografia (1929); Contos e lendas do Brasil, folclore (1929); Mitos ameríndios, folclore (1929); O demônio da Regência, ensaio (1930); O tigre da Abolição, biografia (1931); Evaristo da Veiga e sua época, biografia (1931); O Condestável do Império, biografia (1933); Contos da Mãe Preta (estórias do folclore adaptadas à leitura das crianças), s.d.; Histórias de Pai João (estórias do folclore adaptadas à leitura de crianças), s.d.; Viagem de Papá Noel, conto (1934); Mãe da Lua, folclore (1934); Silveira Martins e sua época, biografia (1935); Vocabulário de crendices amazônicas, folclore (1937); Seiva, romance (1937); Vinha do Senhor, contos (1939); A saudade brasileira, estudo (1940); Joana Maluca, contos (1940); Mundo ajoelhado, contos (1942); Da forja à Academia, memórias (1954); Brasil, capital Brasília, edição trilíngüe: em português, francês e inglês (1950); Feitiço do Rio, poesias, edição bilíngüe: em português e francês (1958); Marabaxo, contos (1960); Rui, o mito e o mico Réplica à obra da calúnia (1965); Grãos da sabedoria, ensaio (1965); Cozinha amazônica: uma autobiografia do paladar (1972); Don Juan ou o demônio do sexo, ensaio (1973); O feiticeiro de São Borja: o fino da bossa no humor de Getúlio Vargas, biografia (1976); José de Alencar. Patriarca do romance brasileiro, ensaio (1977; 2a ed., revista, de Vida de José de Alencar.); Camões e Cervantes: semelhanças da vida e dessemelhanças da obra, ensaio (1980). A vida imita os contos – póstumo - (1995).

(Fonte: Academia Brasileira de Letras)


Texto extraído do livro “A vida imita os contos”, Editora Record – Rio de Janeiro, 1995, pág. 82. Nele, pode-se perceber que o autor se refere a Dom Hélder Câmara, a quem chama de Heldésio.

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