[ Principal ][ Biografias ][ Releituras ][ Novos escritores ]

© Projeto Releituras
Arnaldo Nogueira Jr



Osvaldo Molles

 


O assobiador e seu crime

Osvaldo Molles


O papel carbono com formato anatômico estava esperando sua vez de se avistar com o "majorengo". Um soldado passava, imponente, segurando o fuzil pelo pescoço, como se segura um ganso morto. Na luz baça da sala, em que a atmosfera podia ser cortada a navalha, o fumo se erguia da multidão de pardos esperando destino. Ele também lá estava esperando seu destino, naquela madrugada de sábado em que a garoa andava envolvendo a treva em celofane fosco.

De repente, o delegado chegou. E começou o desfile dos culpados. Foi quando chegou a hora da "conversa" com o papel carbono:

Seu nome ?

— Zequié de Oliveira !

— Como?

— Zequié, mais a turma trata eu de Pente Fino.

E o delegado começou a indagar que é que Pente Fino estava fazendo. Nada. Ele não estava, fazendo nada, quando a “tirage” chegou e encanou ele, sem mais aviso e sem nem dar "satisfa". Foi aí que ele enfezou, puxou da "ferramenta de fazer cadáver" e queria bancar o Prestes Maia, abrindo pelo menos duas avenidas em cada cara de policial.

— Valente, hein? — disse o delegado.

Valente — ele? — não! Até que Pente Fino não tinha nada de valente. É que ele tinha sido preso de maneira desonesta. Onde é que se viu "tirage" prender gente que não está fazendo nada? Aí, se adiantou um tira e começou a explicar. Que o Pente Fino estava numa esquina das Perdizes, às duas da manhã, assobiando como um desesperado. Então, que eles acharam o assobio muito suspeito e "encanaram" mesmo.

— Mas então — discute Pente Fino — assobiar na rua é proibido? E a Constituição? A Constituição não garante a liberdade de palavra? Assobio não é um jeito que a música tem de ser palavra? Foi por isso que ele se enfezou. Que numa cidade adiantada como São Paulo, um homem não tem sequer o direito de assobiar?

Mas é que ele estava assobiando de uma maneira muito suspeita, diz o "tira".

Como suspeita? Então — emendava Pente Fino na sua linguagem de Barra Funda — "então subiá é cospiração?". Ao que ele sabia, não era. E que demais a mais, o delegado fizesse aquilo que a justiça mandava. Se achava que ele merecia ficar "guardado", para "ver o sol nascer quadrado", que fizesse isso. Mas que crime, ele não tinha cometido nenhum.

O delegado reconhecia, sim, a inocência de Pente Fino.  E, afinal de contas, assobiar não era delito. Podia ir embora em paz. Que fosse. Mas que não assobiasse mais pela rua, alta madrugada, que podia incomodar a vizinhança.

E lá se foi embora, feliz, o Pente Fino, colocando-se "sempre às ordens" do delegado e rematando toda a sua história de sábado com uma frase:

— Ah... seu dotô... Assubio é lição de violino de pobre!


Osvaldo Molles nasceu em Santos (SP) e, aos 16 anos de idade, iniciou sua carreira no jornalismo, trabalhando na redação do “Diário Nacional” e, em seguida, no “São Paulo Jornal” e no “Correio Paulistano”. Viajou pelo interior do Brasil escrevendo reportagens sobre os nordestinos. Fixou residência em Salvador (BA), ocasião em que juntou ao grupo fundador de “O Estado da Bahia”. De volta a São Paulo (SP), participou do lançamento da Rádio Tupi, iniciando sua carreira de grande sucesso na radiofonia nacional, que continuou crescente nas rádios Bandeirantes e Record. Entre suas produções, podemos citar: “História das Malocas”, “O crime não compensa” e a “História da literatura brasileira”, levada ao ar durante dois anos consecutivos e que contou com a colaboração de Oswald de Andrade e Sérgio Milliet, dentre outros. Na TV Record , produziu “Gente que fala sozinho” e outros sucessos, tendo sido agraciado, por onze anos consecutivos, com o Prêmio Roquete Pinto, além dos Prêmios Tupiniquim (4 vezes), Paulo Machado de Carvalho (“melhor programador de 1959) , tendo sido condecorado com a Medalha de Ouro do Mérito Radiofônico. Com o roteiro do filme “Simão, o caolho”, obteve o Prêmio Governador do Estado de São Paulo e o Prêmio Saci. Poeta, contista e romancista, conquistou o Prêmio Castro Alves e o Prêmio Cidade do Rio de Janeiro, tendo suas crônicas publicadas nos jornais paulistanos “O Tempo”, “Folha de São Paulo” e “Diário da Noite” e na revista “Manchete”. Alguns críticos diziam ser ele o sucessor, na literatura paulista, de Antônio de Alcântara Machado.


Do livro “Piquenique Classe C”, Boa Leitura Editora, São Paulo, sem data, pág. 257, extraímos o texto acima.

 

[ Principal ][ Biografias ][ Releituras ][ Novos escritores ]

© Projeto Releituras — Todos os direitos reservados. O Projeto Releituras — um sítio sem fins lucrativos — tem como objetivo divulgar trabalhos de escritores nacionais e estrangeiros, buscando, sempre que possível, seu lado humorístico,
satírico ou irônico. Aguardamos dos amigos leitores críticas, comentários e sugestões.
A todos, muito obrigado. Arnaldo Nogueira Júnior.
® @njo