O assobiador e seu crime
Osvaldo Molles
O papel carbono com formato anatômico estava esperando sua vez de se avistar com o
"majorengo". Um soldado passava, imponente, segurando o fuzil pelo pescoço,
como se segura um ganso morto. Na luz baça da sala, em que a atmosfera podia ser cortada
a navalha, o fumo se erguia da multidão de pardos esperando destino. Ele também lá
estava esperando seu destino, naquela madrugada de sábado em que a garoa andava
envolvendo a treva em celofane fosco.
De repente, o delegado chegou. E começou o desfile dos culpados. Foi quando chegou a hora
da "conversa" com o papel carbono:
Seu nome ?
Zequié de Oliveira !
Como?
Zequié, mais a turma trata eu de Pente Fino.
E o delegado começou a indagar que é que Pente Fino estava fazendo. Nada. Ele não
estava, fazendo nada, quando a tirage chegou e encanou ele, sem mais aviso e
sem nem dar "satisfa". Foi aí que ele enfezou, puxou da "ferramenta de
fazer cadáver" e queria bancar o Prestes Maia, abrindo pelo menos duas avenidas em
cada cara de policial.
Valente, hein? disse o delegado.
Valente ele? não! Até que Pente Fino não tinha nada de valente. É que
ele tinha sido preso de maneira desonesta. Onde é que se viu "tirage" prender
gente que não está fazendo nada? Aí, se adiantou um tira e começou a explicar. Que o
Pente Fino estava numa esquina das Perdizes, às duas da manhã, assobiando como um
desesperado. Então, que eles acharam o assobio muito suspeito e "encanaram"
mesmo.
Mas então discute Pente Fino assobiar na rua é proibido? E a
Constituição? A Constituição não garante a liberdade de palavra? Assobio não é um
jeito que a música tem de ser palavra? Foi por isso que ele se enfezou. Que numa cidade
adiantada como São Paulo, um homem não tem sequer o direito de assobiar?
Mas é que ele estava assobiando de uma maneira muito suspeita, diz o "tira".
Como suspeita? Então emendava Pente Fino na sua linguagem de Barra Funda
"então subiá é cospiração?". Ao que ele sabia, não era. E que demais a
mais, o delegado fizesse aquilo que a justiça mandava. Se achava que ele merecia ficar
"guardado", para "ver o sol nascer quadrado", que fizesse isso. Mas
que crime, ele não tinha cometido nenhum.
O delegado reconhecia, sim, a inocência de Pente Fino. E, afinal de contas,
assobiar não era delito. Podia ir embora em paz. Que fosse. Mas que não assobiasse mais
pela rua, alta madrugada, que podia incomodar a vizinhança.
E lá se foi embora, feliz, o Pente Fino, colocando-se "sempre às ordens" do
delegado e rematando toda a sua história de sábado com uma frase:
Ah... seu dotô... Assubio é lição de violino de pobre!
Osvaldo Molles nasceu em Santos (SP) e, aos 16 anos de idade, iniciou sua
carreira no jornalismo, trabalhando na redação do Diário Nacional e, em
seguida, no São Paulo Jornal e no Correio Paulistano. Viajou pelo
interior do Brasil escrevendo reportagens sobre os nordestinos. Fixou residência em
Salvador (BA), ocasião em que juntou ao grupo fundador de O Estado da Bahia.
De volta a São Paulo (SP), participou do lançamento da Rádio Tupi, iniciando sua
carreira de grande sucesso na radiofonia nacional, que continuou crescente nas rádios
Bandeirantes e Record. Entre suas produções, podemos citar: História das
Malocas, O crime não compensa e a História da literatura
brasileira, levada ao ar durante dois anos consecutivos e que contou com a
colaboração de Oswald de Andrade e Sérgio Milliet, dentre outros. Na TV Record ,
produziu Gente que fala sozinho e outros sucessos, tendo sido agraciado, por
onze anos consecutivos, com o Prêmio Roquete Pinto, além dos Prêmios Tupiniquim (4
vezes), Paulo Machado de Carvalho (melhor programador de 1959) , tendo sido
condecorado com a Medalha de Ouro do Mérito Radiofônico. Com o roteiro do filme
Simão, o caolho, obteve o Prêmio Governador do Estado de São Paulo e o
Prêmio Saci. Poeta, contista e romancista, conquistou o Prêmio Castro Alves e o Prêmio
Cidade do Rio de Janeiro, tendo suas crônicas publicadas nos jornais paulistanos O
Tempo, Folha de São Paulo e Diário da Noite e na revista
Manchete. Alguns críticos diziam ser ele o sucessor, na literatura paulista,
de Antônio de Alcântara Machado.
Do livro Piquenique Classe C, Boa Leitura Editora, São Paulo, sem data, pág.
257, extraímos o texto acima.
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