Conhecia o gosto da palavra medo, conhecia o cheiro da palavra medo, o som da palavra não
tendo primazia sobre ela. Tinha a vocação dos abismos e não sabia.
Ainda não entendera ao certo se a possibilidade maior estava no primitivo, nas coisas
primitivas, ou no requinte. Porque fundamental era o mistério, e mistério nos dois
havia.
Ela estava na restinga, o capim chegava-lhe aos tornozelos como poderia atrevidamente
tocar-lhe o alto das coxas, o mar vinha na salsugem até seu corpo numa espécie de andar
como o coleante andar das serpentes. Nunca vira olhar mais sensual, mais direto, mais
provocador e animal do que esse olhar úmido e duro a um só tempo, cheio de desejo dela,
mas sem ternura alguma: sou teu inimigo, te matarei de prazer e não terei piedade. O
olhar dourado do abismo, o olhar
cor-de-mel-da-paixão-puramente-animal-sem-a-menor-ternura, urgente, na restinga.
Homem algum a tinha olhado assim antes, tão friamente, com essa frialdade de posse. De
imediato, esse olhar criou um elo quase arquetípico entre os dois, uma cumplicidade.
Ninguém jamais a tinha olhado assim e assim penetrado esse ponto perdido de sua
consciência de ser também, súbita e violentamente, um animal, com esse magma a rugir
nas entranhas como um animal no cio.
Como teria ele entrado de seu inconsciente para a clareira de sua consciência? Depois de
Gamiane?
Este olhar: a figuração de um sonho? Apanhada na armadilha, os pontos nevrálgicos da
paixão em seu corpo os pés em primeiro lugar, quase oriental que era, a nuca, o
longo do dorso, a parte de fora das ancas, o interior das coxas, a vulva - foram tomados
como uma fortaleza de assalto por este olhar. Toda uma sarça ardente, sentia-se também
um animal.
Sua consciência se esvaía, estranha e febril, como uma rápida perda da memória. Nunca
tivera sido tão fêmea como então, refletida nesse olhar.
Feras agora, os músculos de ambos estavam retesados, possessos. Sua sede? Um castelo de
águas? Só abrasamento e fúria essa atração. Bode, planto em ti um jardim de crinas e
de espantos.
O olhar mais sexy que tinha visto. O olhar dourado do abismo. E era de um bode.
Olga Savary nasceu em Belém do Pará, em 21 de maio de 1933, e é
carioca por adoção. Escritora (poeta, contista, romancista, crítica e ensaísta),
tradutora e jornalista, tem inúmeros livros publicados, tendo sido agraciada com vários
dos principais prêmios nacionais de literatura, entre eles o Prêmio Jabuti de Autor
Revelação, pelo livro Espelho Provisório, concedido pela Câmara Brasileira do Livro
(1971), o Prêmio de Poesia, pelo livro Sumidouro, concedido pela Associação Paulista de
Críticos de Arte (1977), e o Prêmio Artur de Sales de Poesia, concedido pela Academia de
Letras da Bahia pelo livro Berço Esplêndido (1987).
Traduziu mais de 40 obras de mestres hispano-americanos (Borges, Cortázar, Fuentes,
Lorca, Neruda, Octavio Paz, Semprún, Vargas Llosa e outros), e os mestres japoneses do
hai-kai, (Bashô, Buson e Issa).
Correspondente de revistas culturais no Brasil e no exterior, organizou várias antologias
de poesia, entre as quais a maior e mais completa já editada no Brasil, para a Secretaria
Municipal de Cultura Fundação RioArte / Rio de Janeiro. Representou o Brasil no
Poetry International (1985), congresso mundial realizado em Roterdã. Sua obra está
presente em diversas antologias brasileiras e internacionais.
A Antologia de Poesia da América Latina, editada na Holanda em 1994, com apenas 18 poetas
inclusive dois prêmios Nobel: Neruda e Paz inclui Olga Savary entre os
maiores poetas do continente. Além de seu trabalho profissional integralmente dedicado à
literatura desde 1947, Olga Savary tem presença ativa em instituições culturais
e comunitárias: é membro titular do Pen Clube (associação mundial de escritores,
vinculada à Unesco), da Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos
da ABI (Associação Brasileira de Imprensa) e do Instituto Brasileiro de Cultura
Hispânica. Foi presidente do Sindicato de Escritores do Estado do Rio de Janeiro em
1997-98. Por serviços relevantes prestados à cultura nacional, foi escolhida
"Mulher do Ano" pelo jornal O Globo, em 1975, e pela Secretaria Municipal de
Cultura de São Paulo, em 1996.
Na poesia radicalmente feminina de Olga Savary, o vigor poético se alia a uma
profunda brasilidade. As raízes culturais brasileiras estão presentes ao longo de sua
obra, inclusive no uso sistemático de palavras em tupi, língua original falada em
Pindorama, depois Brasil. Com as comemorações dos 500 anos da descoberta do Brasil, nada
mais justo e oportuno, portanto, do que a homenagem que a Fundação Biblioteca Nacional
(em parceria com a Universidade de Mogi das Cruzes e a MultiMais Editorial) fez a Olga
Savary, com a edição de sua Obra Reunida em Repertório Selvagem.
Bibliografia:
Espelho Provisório (poemas), 1970
Sumidouro (poemas), 1977
Altaonda (poemas), 1979
Magma (poemas), 1982
Natureza Viva, (poemas), 1982
Hai-Kais (poemas), 1986
Linha D'água (poemas), 1987
Berço Esplendido (poemas), 1987
Retratos (poemas), 1989
Rudá (poemas), 1994
Éden Hades (poemas), 1994
Morte de Moema (poemas), 1996
Anima Animalis (poemas), 1996
O Olhar Dourado do Abismo (contos), 1997
Repertório Selvagem - Poesia Reunida, 1998
Texto extraído da revista EleEla, edição de Julho de 1993, onde a escritora
colaborava no espaço denominado Página 69. Mais uma participação do amigo
João Antônio Bührer, o Rato de Sebo, e de seus Arquivos
Implacáveis. Visitem seu blog: Grafolalia.