A primeira coisa que dele teve foi a ameaça de sua morte. Uma ameaça através de seus
guinchos, gaitadas, pios, rugidos, uivos, assobios, da a algaravia por ele usada para a
sedução. Era possível um ser tão esta obsessão pela morte?
Ela acha que o amou desde esse primeiro momento, embora não esse amor, esse seu sim à
vida ao saber-lhe a ex-futura morte, e esse se dar tanto, o se dar todo, até demais. Era
possível, tão exclusivista, amar dando assim, tão selvagem, tão espontâneo, se dando
a todos: um crucificar. Imaginou ser ele o mar para não sofrer. Por ser o mar de todos e
assim, que outro jeito teria senão aceitar um tal requintado primitivo.
Um amor sem quase nada de particular, forte e violento mas quase impessoal, algo de amplo,
sem espaço ou tempo, como por um mito ou coisa arquetípica. Amor seria isso? Então era
isso amar? Amor não era. Era é paixão. A paixão não lhe era estranha, antes velha
companheira. Mas a paixão com tal violência a assustava um pouco, como antes o medo da
vida, ainda que não mais agora. E a paixão era um tanto trágica. Assim a aceitava: com
esforço,com dor, mas também com gozo.
Caça ou caçador, quem era? Aparentemente era ele o caçador, com tantos meneios mais a
sedução, a estanha tensão de não poder passar tempo sem tocá-la. Era uma
impossibilidade não tocá-la dizia ele saber-lhe levemente a pele, a
quentura e o morno da carne pressionada para mais tarde conhecer coisas mais rudes e
tensas. Era ele o caçador. Mas quem lançou senão ela o que deflagrou tudo, uma
distraída provocação sensual sobre as coxas de Pelé? Nem ela soube se teria sido
intencional, mas falou assim, de como eram belas as coxas de Pelé, o que o intrigou. Como
tão grande timidez deixava escapar tal insolência?
Não se teria sabido o esplêndido animal que era à falta deste esplêndido animal que
via agora e que, à primeira vista, a ameaçava e se ameaçava para ela com a proximidade
passada de sua morte. E essa morte não vista, apenas entrevista, já passada, era a
grande ameaça para que ela conhecesse sua real vida e quem ela realmente era a partir do
conhecimento dessa fera.
King Kong ela pensou , vou chamá-lo assim, assim vou chamar a fera que me
dará vida, como uma nova mãe-terra, a força animal até então desconhecida, a força
primeira que, tomada nos dentes como o seu bocado primevo, a faria florescer e aceitar a
vida com seus jogos, seus acertos e armadilhas. O perigo? E, era o perigo. Mas também a
vida, a vida com suas espadas, seu cheiro acre e álacre, seu bafo feroz e comovente.
De uma vez que lhe dissera o nome que secretamente lhe dava, houve o espanto: mas não
combina com você, que é minha Mona Lisa. Ela sorriu sem dizer nada, pensando: mas é de
você que falo. Como fazê-lo entender? E era preciso? Uma fera é uma fera - e pronto.
Nada de fazê-lo entender o que ele é. King Kong. Claro que era uma insolência. Só que
agora fazia parte do jogo. Era tão fácil perceber. Não tinha ele só a maciez da polpa,
também possuía as unhas. Mais que isso: as garras. A boca não era só um fruto do mato,
toda polpa, úmida e abrangente, toda língua. Era também dentes, as presas afiadas,
esplêndidas mandíbulas.
Um ser amorável essa fera, mas também de aguda crueldade e um tanto sádico, seu corpo
marcado a fogo (o da paixão) como as reses que têm dono: dois K ardiam-lhe na anca.
Poderia ela amar uma tal mistura de prazer e de perigo? Mas era já impossível
retroceder. Seduzida pela fera, já não podia se reconquistar a si mesma. Agora que sabia
seu corpo através do outro, seu espelho. Era a guerra, a paz dos abismos e da beira do
desfiladeiro dos que nascem do furor da paixão, do lamber de sua língua rubra. King
Kong: o êxtase e o horror. Rodeado de mandacarus, de cactos.
Olga Savary nasceu em Belém do Pará, em 21 de maio de 1933, e é
carioca por adoção. Escritora (poeta, contista, romancista, crítica e ensaísta),
tradutora e jornalista, tem inúmeros livros publicados, tendo sido agraciada com vários
dos principais prêmios nacionais de literatura, entre eles o Prêmio Jabuti de Autor
Revelação, pelo livro Espelho Provisório, concedido pela Câmara Brasileira do Livro
(1971), o Prêmio de Poesia, pelo livro Sumidouro, concedido pela Associação Paulista de
Críticos de Arte (1977), e o Prêmio Artur de Sales de Poesia, concedido pela Academia de
Letras da Bahia pelo livro Berço Esplêndido (1987).
Traduziu mais de 40 obras de mestres hispano-americanos (Borges, Cortázar, Fuentes,
Lorca, Neruda, Octavio Paz, Semprún, Vargas Llosa e outros), e os mestres japoneses do
hai-kai, (Bashô, Buson e Issa).
Correspondente de revistas culturais no Brasil e no exterior, organizou várias antologias
de poesia, entre as quais a maior e mais completa já editada no Brasil, para a Secretaria
Municipal de Cultura Fundação RioArte / Rio de Janeiro. Representou o Brasil no
Poetry International (1985), congresso mundial realizado em Roterdã. Sua obra está
presente em diversas antologias brasileiras e internacionais.
A Antologia de Poesia da América Latina, editada na Holanda em 1994, com apenas 18 poetas
inclusive dois prêmios Nobel: Neruda e Paz inclui Olga Savary entre os
maiores poetas do continente. Além de seu trabalho profissional integralmente dedicado à
literatura desde 1947, Olga Savary tem presença ativa em instituições culturais
e comunitárias: é membro titular do Pen Clube (associação mundial de escritores,
vinculada à Unesco), da Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e Direitos Humanos
da ABI (Associação Brasileira de Imprensa) e do Instituto Brasileiro de Cultura
Hispânica. Foi presidente do Sindicato de Escritores do Estado do Rio de Janeiro em
1997-98. Por serviços relevantes prestados à cultura nacional, foi escolhida
"Mulher do Ano" pelo jornal O Globo, em 1975, e pela Secretaria Municipal de
Cultura de São Paulo, em 1996.
Na poesia radicalmente feminina de Olga Savary, o vigor poético se alia a uma
profunda brasilidade. As raízes culturais brasileiras estão presentes ao longo de sua
obra, inclusive no uso sistemático de palavras em tupi, língua original falada em
Pindorama, depois Brasil. Com as comemorações dos 500 anos da descoberta do Brasil, nada
mais justo e oportuno, portanto, do que a homenagem que a Fundação Biblioteca Nacional
(em parceria com a Universidade de Mogi das Cruzes e a MultiMais Editorial) fez a Olga
Savary, com a edição de sua Obra Reunida em Repertório Selvagem.
Bibliografia:
Espelho Provisório (poemas), 1970
Sumidouro (poemas), 1977
Altaonda (poemas), 1979
Magma (poemas), 1982
Natureza Viva, (poemas), 1982
Hai-Kais (poemas), 1986
Linha D'água (poemas), 1987
Berço Esplendido (poemas), 1987
Retratos (poemas), 1989
Rudá (poemas), 1994
Éden Hades (poemas), 1994
Morte de Moema (poemas), 1996
Anima Animalis (poemas), 1996
O Olhar Dourado do Abismo (contos), 1997
Repertório Selvagem - Poesia Reunida, 1998
Publicado no livro O olhar dourado do abismo, o texto acima foi selecionado
por Ítalo Moriconi como um dos Cem melhores contos brasileiros do século,
Editora Objetiva Rio de Janeiro, 2000, pág. 464.