Balanço
Otto Lara Resende
Por que hei de agradar o rude sofrimento e mais rude torná-lo, na desesperança? Por que
proclamar a tristeza inútil diante das coisas que secretamente e melhor compreendo? Não
falarei do desamparo que finamente aperta os dedos na garganta. Não citarei o sentimento
peculiar aos que têm propensão para o desengano e, mais do que nunca, ao crepúsculo,
sentem-se traídos e ultrajados sem motivo. Não mais me referirei a estados de alma que
nada contêm além de um vazio cinzento e interminável, um abismo de sombra e de
abstrato, onde a tristeza rumina o seu cadáver.
Todos os gestos seriam inúteis. Nada salva e tudo nos perde e atraiçoa. O temor sustenta
minhas interrogações e de repente me sinto só, perdidamente só e anterior a todos,
como se ninguém mais houvesse. Tudo desaparece na refração das águas da memória. Vejo
as imagens deformadas, mas que persistem, fantasmas íntimos. Rio e já não entendo;
choro e me dilacero lentamente no tempo em que tudo está pesadamente mergulhado. Não
grito porque o hábito se forma e o pudor defende. Conheço e entendo. Algumas vezes
adivinho, mas não devasso. O que sabe deve calar-se para não ferir. Se digo, as palavras
nada significam senão 0 prazer de proferi-las e achá-las bem achAdas, não para que
exprimam, mas simples jogo colorido que diverte. Não proporei normas, nem direi o que
abomino. Deu-nos Deus a palavra para melhor silenciar. No inarticulado, me descubro um
homem, com um nome, certos hábitos, fisionomia, alguns cacoetes e muitas possibilidades.
Mas sobretudo vivendo por conta própria. Foi um ato irresponsável confiar-me a mim
mesmo. Meu destino gira nos meus dedos. Não me pertenço e nem me encontro. O tormento da
lembrança, como cãibra, paralisa os gestos e sobrepõe ao que é o que já foi.
Calculadamente percorro o caminho da fatalidade, onde os abismos espreitam e aguardam a
imagem quebrada, e cem vezes traída.
Extraído do jornal "Folha de São Paulo", edição de 05/10/2002, em página
anunciando o lançamento do livro Três Ottos por Otto Lara Resende,
lançamento previsto para dezembro/2002 pelo Instituto Moreira Salles, organização de
Tatiana Longo dos Santos.
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