[ Principal ][ Biografias ][ Releituras ][ Novos escritores ]

© Projeto Releituras
Arnaldo Nogueira Jr



O. Henry

Menu do Autor:

 

Último texto

Os caminhos que tomamos

O. Henry
(William Sidney Porter)


Vinte milhas para oeste de Tucson o rápido parou ao pé de um depósito para tomar água. Além deste líquido, porém, a máquina daquele comboio adquiriu também outras coisas que lhe não convinham.

Enquanto o fogueiro estava baixando a mangueira de alimentação, o Bob Tidball, o Dodson Tubarão e um índio de raça cruzada chamado João Cão Grande treparam para a máquina e apresentaram ao maquinista os orifícios de três canos de revólver. As possibilidades desses orifícios a tal ponto impressionaram o maquinista que ergueu logo ambas as mãos num gesto do gênero do que acompanha a exclamação: "Conta lá!” ·

À ordem brusca do Dodson Tubarão, que era o comandante da força, o maquinista desceu ao chão e desligou a máquina e o tênder. Então o João Cão Grande, empoleirado no carvão, sorriu por trás de dois revólveres apontados ao ajudante e ao fogueiro, lembrando que corressem a máquina cinqüenta metros pela linha abaixo e ali aguardassem novas ordens.

O Dodson Tubarão e o Bob Tidball, desdenhando proceder à limpeza de minério tão baixo como os passageiros, dedicaram-se ao veio magnífico que era o vagão de valores.  Encontraram o guarda envolto na crença firme de que a máquina não estava tomando nada mais forte que água pura. Enquanto o Bob lhe tirava esta idéia da cabeça por meio de uma coronha de revólver, o Dodson Tubarão ocupava-se em ministrar uma dose de dinamite ao cofre do vagão.

O cofre explodiu no sentido de trinta mil dólares, ouro e notas. Os passageiros espreitaram vagamente pelas janelas a ver de onde vinha a trovoada. O condutor puxou a correia que lhe ficou lassa e caída na mão. O Dodson Tubarão e o Bob Tidball, com o espólio numa saca de lona forte, saíram do vagão e correram pesadamente, com suas botas altas, até à máquina.

O maquinista, amuado mas prudente, correu velozmente a máquina, obedecendo às ordens, para longe do comboio parado. Mas antes que isto estivesse feito, o guarda do rápido, tendo despertado do argumento com que o Bob Tidball lhe tinha imposto a neutralidade, saltou do vagão com uma Winchester e entrou no jogo. O sr. João Cão Grande, empoleirado no carvão, perdeu a vasa pelo processo involuntário de imitar perfeitamente um alvo. O guarda caçou-o. Com uma bala exatamente entre as espáduas, o cavalheiro de cor e indústria caiu para o chão, aumentando assim automaticamente em um sexto o quinhão de cada um dos camaradas.

A duas milhas do depósito deu-se ordem ao maquinista que parasse.

Os ladrões gritaram um adeus de desafio e enfiaram pelo declive abaixo para os bosques que marginavam a linha férrea. Cinco minutos de caminho difícil através de uma mata de chaparral trouxe-os a um bosque mais aberto, onde estavam três cavalos, presos a ramos baixos. Um esperava o João Cão Grande, que nunca mais andaria a cavalo de dia ou de noite. A este animal tiraram os ladrões a sela e o freio, e puseram-no em liberdade. Montaram nos outros dois, estendendo o saco sobre a maçã da sela de um deles, e seguiram depressa mas discretamente através da floresta e por uma garganta primitiva e solitária acima. Aqui o animal que levava Bob Tidball escorregou num pedregulho musgoso e partiu uma das pernas dianteiras. Mataram-no com um tiro na cabeça, e sentaram-se para realizar um conselho de fuga. Seguros por enquanto, em virtude do caminho tortuoso que haviam tomado, já a questão de tempo os não apoquentava tanto. Havia já muitas horas e léguas entre eles e a mais rápida perseguição que se pudesse organizar. O cavalo do Dodson Tubarão, de corda arrastada e freio caído, resfolegava e comia com agrado da erva à margem do riacho da garganta. Bob Tidball abriu o saco, tirou às mãos ambas maços de notas e um saco único de ouro, e riu com uma alegria de criança.

— Olha lá, meu grande pirata — disse ele rindo para Dodson —, bem dizias tu que a coisa se conseguia. Tens uma cabe~ a de financeiro que deixa atrás tudo no Arizona.

— O que é que a gente vai fazer a respeito de um cavalo para ti, Bob? A gente não pode esperar aqui muito tempo. Logo de madrugada, com a primeira luz, os tipos estão na nossa pista.

— Oh, aquele teu bicho tem que levar dois um bocado — respondeu Bob com otimismo. Deitamos a mão ao primeiro bicho que encontrarmos por aí. Caramba, que fizemos bom negócio, hein? Aqui pelos sinais nas cintas e no saco temos trinta mil dólares — quinze mil a cada bico!

— É menos do que eu esperava — disse o Dodson Tubarão, dando pontapés leves nos pacotes. Depois olhou meditativamente para os flancos suados da sua montada.

— O Bolívar, coitado, está quase que não pode mais disse ele devagar —. Que pena que o teu bicho se estropiasse!

— Ninguém tem mais pena do que eu — disse o Bob sem abatimento —, mas o que é que se há de fazer? O Bolívar é rijo, e pode bem com nós dois até arranjarmos outras montadas. Raios me partam, ó Tubarão, mas não me passa da idéia a piada que tem um tipo do leste como tu vir para aqui ensinar-nos a nós do oeste a dar cartas no negócio de salteador! De que parte do leste é que és?

— Estado de Nova Iorque — disse o Dodson Tubarão, sentando-se num toro e mastigando um fio de erva —. Nasci numa herdade do distrito de Ulster. Fugi de casa quando tinha dezessete anos. Foi um acaso eu vir para oeste. Eu ia pela estrada fora com a roupa numa trouxa a caminho de Nova Iorque, da cidade. A minha idéia era ir para lá e ganhar muito dinheiro. Uma tarde cheguei a um ponto onde a estrada fazia garfo, e eu não sabia por que caminho havia de tomar, estive para aí meia hora a estudar o caso, e depois tomei pelo da esquerda. Nessa noite mesmo fui dar ao acampamento de um circo do oeste que andava dando espetáculos nas várias terras, e segui para oeste com eles. Muitas vezes tenho pensado se não teria dado em qualquer coisa muito diferente se tivesse tomado o outro caminho.

— Hum, a minha idéia é que davas mais ou menos no mesmo — disse Bob Tidball, com uma filosofia alegre —. Não são os caminhos que a gente toma, é o que está dentro de nós, que faz que a gente dê no que vem a dar.

O Dodson Tubarão levantou-se e encostou-se a uma árvore.

— Tomara eu que aquela tua montada se não tivesse estropiado, Bob — tornou a dizer, com uma certa tristeza.

— E dois! — concordou o Bob —. Era um belo bicho. Mas o Bolívar tira-nos aos dois da alhada. Olha lá, e o melhor é a gente ir-se pondo a mexer, hein? Vou meter isto tudo outra vez no saco, e ala para outra terra!

O Bob Tidball repôs o espólio no saco, e apertou a boca deste, com força, com uma corda. Quando levantou a cabeça a coisa mais notável que viu foi o cano da pistola do Tubarão visando-lhe sem tremer o centro da testa.

— Deixa-te de piadas, rapaz — disse o Bob sorrindo —. A gente tem é que se pôr a mexer.

— Está quieto — disse o Tubarão —. Tu não te vais pôr a mexer para parte nenhuma, Bob. Tenho pena de to dizer, mas não há saída senão para um de nós. O Bolívar, coitado, está muito cansado, e não pode levar dois.

— Temos sido camaradas, eu e tu, Tubarão, há uns três anos — disse o Bob com sossego —. Muita e muita vez arriscou a gente a vida juntos. Sempre te tenho tratado às direitas, e julgava que eras um homem. Já ouvi coisas que contavam de ti, de como tinhas matado um ou dois homens de uma maneira esquisita, mas nunca acreditei. Ora agora, se estás a brincar comigo, desvia lã a pistola e vamo-nos embora. Mas se queres atirar, atira, filho de um lacrau!

A cara de Dodson Tubarão tinha uma expressão de profunda mágoa.

— Não imaginas que pena eu tenho — suspirou ele — a respeito daquele desastre que aconteceu ao teu cavalo, Bob. A expressão no rosto do Dodson mudou de repente para uma de ferocidade fria mista de inexorável cupidez. A alma do homem mostrou-se de repente uma cara sinistra à janela de uma casa honrada.

E, na verdade, nunca Bob Tidball se poria mais a mexer para parte nenhuma. Falou a pistola do amigo falso, enchendo a garganta de um estrondo que os seus muros devolveram indignadamente. E o Bolívar, cúmplice inconsciente, levou depressa para longe o último dos salteadores do rápido sem ter que "levar dois".

Mas à medida que o Dodson Tubarão galopava parecia que os bosques se esfumavam e desapareciam; o revólver na mão direita converteu-se no braço curvo de uma cadeira de mogno: a sela estava extremamente estofada, e ele abriu os olhos e viu seus pés, não em estribos, mas pousados alto na ponta de uma secretária rica.

Estou contando aos senhores que o Dodson, da Dodson & Decker, corretores de Wall Street, abriu os olhos. Peabody, o empregado de confiança, estava de pé a seu lado, hesitando em falar. Lá em baixo havia um ruído confuso de rodas, e ao pé o sussurro acariciador de uma ventoinha elétrica.

— Hum, Peabody — disse o Dodson, piscando os olhos . Então não adormeci! Tive um sonho muito curioso. O que é que há?

— É o sr. Williams, sr. Dodson, de Tracy & Williams, que está ali fora. Vem liquidar aquilo daquelas ações. A alta caiu-lhe em cima, lembra-se o sr. Dodson?

— Sim, lembro-me. Como está isso cotado hoje, Peabody?

— Cento e oitenta e cinco, sr. Dodson.

— Então é isso que ele paga.

— O sr. Dodson dá licença... — disse Peabody, com uma certa hesitação —. Desculpe-me falar nisso, mas estive a falar com o Williams. Ele é um velho amigo seu, e o sr. Dodson pode-se dizer que tem na mão todo este papel. Pensei se o sr...., isto é, pensei que o sr. talvez se não lembrasse que ele lhe vendeu o papel a noventa e oito. Se ele liquida ao preço do mercado, vai-se-lhe tudo quanto tem e ainda por cima, coitado, tem que vender a casa, e a mobília e tudo, para lhe poder entregar as ações.

A expressão no rosto do Dodson mudou de repente para uma de ferocidade fria mista de inexorável cupidez. A alma do homem mostrou-se de repente como uma cara sinistra à janela de uma casa honrada.

— Cento e oitenta e cinco é que ele paga — disse o Dodson —. O Bolívar não pode levar dois.


O. Henry
(1862-1910) era o pseudônimo usado por William Sydney Porter, um dos maiores contistas americanos do século e um dos autores mais populares do seu tempo. Nasceu na Carolina do Norte de família culta e abastada. A mãe morreu tuberculosa quando ele tinha três anos. Criado por uma tia, começou como aprendiz de boticário aos quinze anos e emigrou depois para o Texas, com sintomas de tuberculose. Casou e empregou-se como caixa num Banco, tentando ao mesmo tempo escrever comédia. Comprou um jornal, The Rolling Stone, que faliu pouco depois. Porter foi acusado de desfalque no Banco e fugiu para as Honduras, de onde regressou passados três anos para a cabeceira de sua mulher moribunda. Preso durante quatro anos numa penitenciária do Ohio, começou a escrever sob o pseudônimo de O. Henry. Saído da prisão, passou a viver em Nova Iorque, e embora extremamente popular, viveu o resto da vida recluso, no terror de ser reconhecido como William Sydney Porter, acabando por morrer alcoólico e na miséria. O. Henry foi autor original e fecundo, chegando a escrever praticamente um conto por semana. Entre suas obras estão "As sendas do destino", "No coração do Oeste" e "A voz da cidade".


O texto acima foi traduzido por
Fernando Pessoa, expoente da literatura portuguesa, e publicado nas “Plaquetas da Oficina”, co-edição da Oficina do Livro Rubens B. de Moraes e Imprensa Oficial-SP, Editora Giordano – São Paulo, 2002.

 

[ Principal ][ Biografias ][ Releituras ][ Novos escritores ]

© Projeto Releituras — Todos os direitos reservados. O Projeto Releituras — um sítio sem fins lucrativos — tem como objetivo divulgar trabalhos de escritores nacionais e estrangeiros, buscando, sempre que possível, seu lado humorístico,
satírico ou irônico. Aguardamos dos amigos leitores críticas, comentários e sugestões.
A todos, muito obrigado. Arnaldo Nogueira Júnior.
® @njo