Irmãs
Odylo Costa, filho
O arraial todo vive do barro, mas é um jeito de viver como qualquer outro, não desonra.
Quando nasci não era assim, sei, o canavial se estendia até a beira do rio, o canavial
de meu avô... Parte da casa grande caiu não faz muito tempo, mas as paredes principais
continuam de pé. Já a conheci vazia de gentes graúdas, minhas tias e minha Mãe no
mundo quase calado daquelas despovoadas paredes grandes, sobrevivendo mas para sobreviver
se despossuindo pouco a pouco das terras de outrora, do que restava delas. Não direi que
comíamos terra, mas era como se comêssemos... Nunca passei necessidade de doer fundo,
mas de mim somente conheci pobreza, elas ainda tiveram seda para vestir, peru nos
domingos, matalotagem todo mês, não sei qual a sorte pior. Minha Mãe, coitada,
atravessou a vida toda num sonho. Quando meu pai apareceu, ainda estava nos laços de
fita, chapéu de palha, sela de banda, cavalo esquipador. Casaram depressa, mas as terras
ricas acabaram ainda mais depressa nas mãos dele, os brejos vendidos, todos ou quase
todos, sobrou apenas chapada e areia, uns cocais que andaram dando renda quando o babaçu
subiu. Ele um dia desapareceu no oco do mundo, nem ao menos escrever nunca mandou
telegrama ou bilhete que fosse. Minhas tias Honorata e Adriana jamais soube ou quis saber
como nem quando brigaram, mas acho ou pelo menos desconfio que foi na disputa pelo
forasteiro. Ganhou minha Mãe, e às vezes penso que antes não ganhasse porque não teria
sido tão infeliz mas se não ganhasse estaria eu aqui para contar a história? Homem de
fora parecia rico e distinto, colete e corrente de relógio, as três o queriam, do
entrevero silencioso (e feroz) entre as rivais não declaradas é que as outras duas
saíram rompidas, ou se não foi nele foi então que se adubou o terreno para as
discussões futuras, violentas até o desespero, por uma nonada que sugeria imaginações
sem fim. Quantas vezes me lembro de passar a noite insone ou acordar no meio dela, menina
assustada, com o xingamento desmedido, desapoderado! Foi quando minha mãe amalucou,
coitadinha, e o Dr. Esteves ainda quis levá-la para o sanatório dele, mas depressa se
viu que era loucura mansa, laço de fita, chapéu de palha. Minhas tias tentaram manter a
casa sem fome, tia Honorata fazendo doce, tijolo de leite e buriti, rebuçado,
chapéu-de-couro, bolo doce, até beiju e cuscuz de manhãzinha, tia Adriana costurando
para fora, arrancando rendas delicadíssimas das almofadas, gastando dedos no bastidor.
Aí já não se falavam de todo ou, mais exato, não se falavam diretamente.
"Quando alguém quiser almoçar, posso tirar o almoço", dizia uma. E a outra:
"Quando alguém quiser tirar o almoço, boto a toalha e os pratos." Eu
subia nos mamoeiros para apanhar mamão verde e pisava coco para chapéu-de-couro,
espetava alfinete no papelão para traçar o caminho dos bilros que os dedos fariam
dançar adoidados, corria de uma para outra das irmãs, amava ambas, franguinha magra
,entre aqueles ódios fraternais. Minha Mãe olhava, sentava-se, vestia as fitas, ajeitava
o chapéu, saía para correr casas amigas. Ainda fui levar encomendas na cidade, da outra
banda do rio. Passava-se aperto, mas fome, não. "Quando alguém quiser pagar a
quitanda, tem dinheiro debaixo do pano rendado do tabuleiro. Quando
alguém quiser mandar consertar o poço, já podemos pagar, entro com duzentos mil
reis.
Começaram a chegar outras gentes de fora, para um loteamento de José Paraense na beira
do rio. Descobriram o barro. Um paulista rodou o primeiro torno, acendeu a primeira lenha.
apanhou a primeira fornada. Nasceu o arraial.
Matricularam-me no grupo. Atravessava toda manhã de canoa, voltava no sol do meio dia.
Gostava de andar limpa. Já ia entendendo as coisas. Muitas vezes, quando me estirava na
rede para dormir, mal e mal recordando na cabeça as lições da escola (tinha gosto),
pedia a Deus que naquela. Noite não houvesse clamor de raivas, invenções ou
suspeitas das tias nem minha Mãe cantasse em seu violão amores mortos até a lua sumir.
Envelheciam. A corcunda de tia Honorata se pronunciava cada vez mais, o moreno escuro do
rosto parecia afundar em noite, o que era trigueiro enegrecia; a brancura do tia Adriana
se esvaía em leite, transpareciam pelos braços veias azuladas em desenhos fugidios; os
cabelos de minha Mãe eram às vezes trançados por uma das irmãs, qualquer das duas...
"Se alguém . não vai cuidar da cabeleira de laiá... "
"Alguém que faça o que quiser com laiá..."
Descobriram também elas o barro. Qual achou primeiro? Não sei. Ambas. A toa. Foi
inevitável. Se onde fora terra dos pais todos viviam de barro, este que tirava, aquele
que carregava, outro que mercava, e os mestres ,que tornavam, e os meninos que levavam ao
mercado da beira do rio, por que se gastarem na panela e na almofada?
Carreguei, eu mais uns meninos da outra calçada da rua, filhos de Seu Antonio
Felix, o primeiro peso. Seu Anastácio emprestou o forno enquanto se fazia o lá de casa.
Não meti as mãos na massa de argila. Elas é que desde o primeiro instante a tomaram nos
dedos, amassaram como se desde os cueiros não tivessem feito outra coisa. Para que torno
e molde? Não produziram quartinhas, vasos, pratos. Moringa, é verdade, uma vez rodaram
uma, o próprio Seu Anastácio emprestou o torno, mas essa era diferente, uma roda oca de.
barro com um pé e uma garganta, coisa de dois palmos, tudo superfície para o vento
esfriar, teve muita procura mas só produziam com relutância, por encomenda, quando os
demais barristas, que respeitavam a invenção, se negavam a produzir.
Sem se falarem se entendiam. Presepes nasciam inteiros, a família santa, bichos e
pastores, reis e castelos. O que uma começava, outra completava. Tia Honorata era melhor
na forma humana, o olho do tia Adriana concebia melhor os modelos animais. As mãos sujas
de barro... As minhas ficaram sempre limpas, me dava um arrepio só de pensar no visgo.
Às vezes imaginava pesadelos, uma briga de agarração entre elas com aqueles dedos
pingando terra. Mas nunca jamais, Deus seja louvado! Nem consigo próprias falavam. Uma
vinha com seu pincel, punha o azul, a outra teimava, metia o amarelo, olha que verde de
repente! "Alguém fez um Santo Antônio muito bonito. Se fizer um São
Francisco modelo uns passarinhos pra cabeça e pros ombros. "A vaquinha
de alguém é a mais graciosa deste ano, parece até a Bonitona que era o capricho de
Papai... ·
Um dia, sem dizer palavra, minha mãe apanhou o tabuleiro, arrumou as peças, um tanto da
tia Honorata, o mesmo tanto da tia Adriana, me pegou pela mão, atravessamos o rio, fomos
vender do outro lado, no mercado da cidade.
Virou rotina. Não tinha mais moleque discutindo conta, fazendo intriga entre as irmãs.
Na esquina do mercado, onde fez ponto, falavam a minha Mãe dos amores de minha Mãe,
diziam-lhe que o Doutor João queria casar, estava apaixonado, marcavam datas. Eu ficava
com os olhos em sangue, o rosto em fogo, ela porém não se zangava mais, ria até,
conferia o troco direitinho; e não sei até que ponto acreditava ou imaginava acreditar,
se é que não simulava tudo. Ás vezes penso que a doidice se é que era doidice
não passava de fingimento. E a esquisitice das irmãs talvez fosse mais verdadeira
que aquela fantasia toda de maluca mansa, risonha...
Esquisitice, mas na casa havia uma limpeza geral que não parecia nascida do barro.
Ás vezes eu amanhecia com medo, vai ser hoje: um esbarrão sem querer joga a mão de uma
contra os barros da outra, ou alguma inveja, artistas eram, artista sempre tem desses
humores, mesmo artista pobre lidando com barro quanta vez quer dar mais do que pode, cai
dentro de si mesmo lá em baixo, briga à toa. Nunca houve nada.
As três me vestiam agora melhor, fui para a Escola Normal, há muito não ia com minha
Mãe à feira do barro (já existia uma), ela no tabuleiro era ajuda e não mais cuidado
grande, nem remédios tomava, cuidado era eu, coitadas. Mas não lhes dava desgosto,
passei sempre e com boas notas, até prêmio tive. Quando chorava me escondia no quintal
ou chorava na rua metida num beco porque as três adivinhavam logo o motivo, era sempre
falarem mal delas. Nunca chorei por nenhum rapaz, nunca tive namorado porque namorado me
lembrava a doidice de minha Mãe e o desatino, os malfeitos todos de meu Pai. Mas saberem
que chorara por elas sempre as deixava tristes, a mim mais moda; e era por elas sempre que
chorava.
Mas não se pense que a paz se fazia em tomo de mim. Não quer dizer que à noite não
precisasse mais de rezar. A guerra de Honorata e Adriana envelhecera, não acabara; o
violão de minha Mãe desafinava agora um pouco, mas a voz era sempre forte, e a lua
ressuscitava as magoadas canções... Eu é que estava ficando moça e Deus tinha mais
ouvido. para a moça de hoje do que para a menina de outrora. Ou eu dormia depressa,
perdida nos meus próprios sonhos, cansada da labuta com os cadernos, já começava a
escrever, e não ouvia os assombrados do casarão.
Logo no dia da formatura ia se dar aquele desastre! Quase adivinhei de longe, meu
coração bateu tumtumtum, ia me pulando pela boca, mal precisei reconhecer minha Mãe,
não me quiseram deixar chegar perto da esquina, mas o tabuleiro caído, o sangue
derramado, os barros aos pedaços, o carro que atropelou nunca se teve notícia exata,
nunca se soube ou se quis saber, justiça de Deus andará a caminho. Minha Mãe! Não me
lembro de carícia de suas mãos na minha pele mas de seus olhos me espiando muito. Uma
vez ia por os dedos nos meus cabelos, tirou assustada, "dá má sorte" não sei
se disse ou se imagino que disse. Mas ouço ainda sua voz cantando passadas paixões
perdidas, modinhas tão tristes, quando não coisas sem sentido:
"Cameleão subiu a palácio,
foi falar com o Presidente.
Foi coisa que nunca vi
cameleão falar com gente."
Uma vez lhe jogaram um cameleão nos
pés, mas isso foi malvadeza de gente mandando moleque.
As duas outras não se falaram nem quando o corpo de minha Mãe saiu para o cemitério.
Nem quando Joaquim Tibúrcio se ofereceu para os pagamentos mais imediatos, e não
precisava fazer porque não era parente nem aderente. Cada uma por sua vez e em separado
respondeu que não carecia. Em separado quem chegava falava a cada uma, embora as duas
estivessem lado a lado, mal comparando era como se um homem deixasse duas viúvas
inimigas.
Tive uma esperança de paz no cemitério, depois da missa de sétimo dia. Apareceram uns
parentes longe, gentes das nossas raças, mas não do lado de meu Pai. Tia Honorata puxou
o terço, houve um silêncio, depois a voz de tia Adriana se alteou sozinha respondendo,
em seguida é que as outras se juntaram.
Mas foi dando aquela tristeza nelas, o barro às vezes endurecia nas mãos paradas. Não
choravam. Choro bastava o meu, que não precisava agora de se esconder. Consolavam-me,
cada uma por sua vez.
Tia Honorata morreu na quinta feira. Tia Adriana correu quando a viu sentar-se na rede,
num grito longo, a mão no peito acarinhando a dor da morte.
Minha irmã! Minha irmã! Por amor de Deus! Deus que me perdoe!
No outro dia também ela estava morta.
Achei-a de manhã. Mas não foi suicídio. Tinha o terço enrolado na mão. Era Filha de
Maria.
Se o senhor quiser comprar o que resta da casa, lhe vendo. Muitas paredes de taipa
resistiram todo esse tempo, a ponte vai passar aqui perto. O casarão ainda tem quintal
grande, dá uma reforma excelente. Veja que portas enormes. Eu é porque não tenho razão
para continuar aqui, nunca pus mão em barro. Só não lhe vendo os pertences de minha
Mãe, as coisas delas, os barros que ficaram feitos, aquele São Francisco com os ombros
cobertos de asas.
Odylo Costa, filho, nasceu em São Luis do Maranhão em 1914. Veio para o
Rio de Janeiro quando tinha 15 anos e se transformou num dos mais importantes
jornalistas de sua época. Aos cinqüenta anos escreveu a novela A Faca e o
Rio (1965), sua primeira obra de ficção. Em 1971, lançou o livro de poesias
Cantiga Incompleta. O livro Os Bichos no Céu, com versos para
crianças, foi lançado em 1972 e foi ilustrado por sua mulher, Nazareth. Interessado nos
problemas do menor e do excepcional, deu testemunho sobre sua filha, portadora desse mal,
na plaquete A menina que tinha o nome de minha Mãe. Foi eleito para a
Academia Brasileira de Letras, em 20/11/1969, onde ocupou a cadeira nº 15, sucedendo a
Guilherme de Almeida.
O escritor faleceu no dia 19 de agosto de 1979.
Outras obras:
Graça Aranha e outros ensaios (1934)
Livro de poemas de 1935, poesia, em colaboração com Henrique Carstens (1936)
Distrito da confusão, crônicas (1945)
Tempo de Lisboa e outros poemas, poesia (1966)
Maranhão: São Luís e Alcântara (1971)
Notícias de amor, poesia (1974)
Fagundes Varela, nosso desgraçado irmão, ensaio (1975)
Boca da noite, poesia (1979)
Um solo amor, antologia poética (1979)
Meus meninos e outros meninos, artigos (1981).
Texto extraído da revista Ficção, Editora Ficção Ltda. Rio de
Janeiro, exemplar nº 7, de Julho de 1976, pág. 12.
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