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Arnaldo Nogueira Jr



Nuno Júdice

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Último texto

Arte poética com citação de Hölderlin

Nuno Júdice



O poema lírico nasceu de uma roseira. Não
digo que fosse a rosa de cima, aquela que todos
... olham, primeiro que tudo, pensando
em cortá-la para a levarem consigo. É
a rosa nem branca nem vermelha, a rosa pálida,
vestida com a substância da terra
a que toma a cor dos olhos de quem a fixa, por
acaso, e ela agarra, como se tivesse
mãos abstractas por dentro das suas folhas.

Colhi esse poema. Meti-o dentro de água,
como a rosa, para que flutuasse ao longo de um rio
de versos. O seu corpo, nu como o dessa mulher
que amei num sonho obscuro, bebeu a seiva
dos lagos, os veios subterrâneos das humidades
ancestrais, e abriu-se como o ventre da
própria flor. Levou atrás de si os meus olhos,
num barco tão fundo como a sua própria
morte.

Abracei esse poema. Estendi-o na areia
das margens, tapando a sua nudez com os ramos
de arbustos fluviais. Arranquei os botões
que nasciam dos seus seios, bebendo a sua cor
verde como os charcos coalhados do outono. Pedi-lhe
que me falasse, como se ele só ainda soubesse
as últimas palavras do amor.


(Metáfora contínua de um único sentimento).


Nuno Júdice (Mexilhoeira Grande, 29 de Abril de 1949) é um ensaísta, poeta, ficcionista e professor universitário português.

Licenciou-se em Filologia Românica pela Universidade de Lisboa e obteve o grau de Doutor pela Universidade Nova, onde é Professor Catedrático, apresentando, em 1989, uma dissertação sobre Literatura Medieval. Conselheiro Cultural da Embaixada de Portugal e Diretor do Instituto Camões em Paris, publicou antologias, edições de crítica literária, estudos sobre Teoria da Literatura e Literatura Portuguesa e mantem uma colaboração regular na imprensa. Divulgador da literatura portuguesa do século XX, lançou, em 1993, Voyage dans un siècle de Littérature Portugaise. Organizou a Semana Europeia da Poesia, no âmbito da Lisboa '94 - Capital Europeia da Cultura.

Poeta e ficcionista, a sua estréia literária deu-se com A Noção de Poema (1972). Em 1985 receberia o Prêmio Pen Clube, o Prêmio D. Dinis da Casa de Mateus, em 1990. Em 1994 a Associação Portuguesa de Escritores, distinguiu-o pela publicação de Meditação sobre Ruínas, finalista do Prémio Europeu de Literatura Aristeion. Assinou ainda obras para teatro e traduziu autores como Corneille e Emily Dickinson.

Foi diretor da revista literária Tabacaria, editada pela Casa Fernando Pessoa e Comissário para a área da Literatura da representação portuguesa à 49ª Feira do Livro de Frankfurt. Tem obras traduzidas em Espanha, Itália, Venezuela, Inglaterra e França.


Obras publicadas

Poesia

A Noção de Poema (1972)
O Pavão Sonoro (1972)
Crítica Doméstica dos Paralelepípedos (1973)
As Inumeráveis Águas (1974)
O Mecanismo Romântico da Fragmentação (1975)
Nos Braços da Exígua Luz (1976)
O Corte na Ênfase (1978)
O Voo de Igitur num Copo de Dados (1981)
A Partilha Dos Mitos (1982)
Lira de Líquen - Prémio de Poesia do Pen Clube (1985)
A Condescendência do Ser (1988)
Enumeração de Sombras (1988)
As Regras da Perspectiva - Prémio D. Dinis (1990)
Uma Sequência de Outubro - Comissariado para a Europália (1991)
Obra Poética 1972-1985 (1991)
Um Canto na Espessura do Tempo (1992)
Meditação sobre Ruínas - Prémio da APE (1995)
O Movimento do Mundo (1996)
Poemas em Voz Alta - com CD de poemas ditos por Natália Luiza (1996)
A Fonte da Vida (1997)
Raptos (1998)
Teoria Geral do Sentimento (1999)
Poesia Reunida 1967-2000 (2001)
Pedro lembrando Inês (2002)
Cartografia de Emoções (2002)
O Estado dos Campos (2003)
Geometria variável (2005)
As coisas mais simples (2006)
A Matéria do Poema (2008)
O Breve Sentimento do Eterno (2008)
Guia de Conceitos Básicos (2010)

Ficção

Última Palavra: «Sim» (1977)
Plâncton (1981)
A Manta Religiosa (1982)
O Tesouro da Rainha de Sabá - Conto Pós-Moderno (1984)
Adágio (1984)
A Roseira de Espinho (1994)
A Mulher Escarlate, Brevíssima (1997)
Vésperas de Sombra (1998)
Por Todos os Séculos (1999)
A Árvore dos Milagres (2000)
A Ideia do Amor e Outros contos (2003)
O anjo da tempestade (2004)
O Enigma de Salomé (2007)
Os Passos da Cruz (2009)
Dois Diálogos entre um padre e um moribundo Coimbra, Angelus Novus, 2010.
O Complexo de Sagitário, Lisboa, Dom Quixote, 2011.

Ensaio

A Era de «Orpheu» (1986)
O Espaço do Conto no Texto Medieval (1991)
O Processo Poético (1992)
Portugal, Língua e Cultura - Comissariado para a Exposição de Sevilha (1992)
Voyage dans un Siècle de Littérature Portugaise (1993)
Viagem por um século de literatura portuguesa (1997)
As Máscaras do Poema (1998)
B.I. do Capuchinho Vermelho (2003)
A viagem das palavras: estudo sobre poesia (2005)
A certidão das histórias (2006)
O ABC da Crítica (2010)

Teatro

Antero - Vila do Conde (1979)
Flores de Estufa (1993)
Teatro, Lisboa Artistas Unidos/Cotovia, (2005)
O Peso das Razões, Lisboa, Artistas Unidos/Cotovia (2009)

Edições críticas e antologias

Novela Despropositada de Frei Simão António de Santa Catarina, o Torto de Belém (1977)
'Poesia de Guerra Junqueiro (1981)
Sonetos de Antero de Quental (1992)
Poesia Futurista Portuguesa, Faro 1916-1917 (1993)
Cancioneiro de D. Dinis (1998)
Infortúnios trágicos da Constante Florinda, de Gaspar Pires de Rebelo (2005)


Referências


Gonçalves, Ilena Luís Candeias. Escritores Portugueses do Algarve. Edições Colibri, Lisboa, 2006

Fonte: Wikipédia

O texto acima foi extraído do livro A fonte da vida, Lisboa, Quetzal Editores, 1997.

 

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