As águas do rio ficam muito serenas. Nenhum som, nenhuma voz, nada se ouve, como se de
repente um grande sono tivesse baixado sobre o rio e todas as coisas dormitassem.
Abaixo da cintura, sinto-me deslizar pela maciez de musgos, samambaias, mururés e lianas.
Tépida é a água, cálida a sua frescura. Através do espelho negro dos olhos de Potira
consigo ver os peixes de olhos mortiços e escamas faiscantes no fundo das águas. Cobras
peçonhentas, agora inofensivas, descem da terra e trançam entre nossos corpos,
provocando-nos leves arrepios. Grandes e pequenos jacarés arrastam-se uns sobre os
outros, as cobras enfiando-se-lhes pela boca e saindo de suas entranhas como longos
cordões.
Os curumins entram no rio com seus arcos e flechas de brinquedo; correm de um lugar para
outro mirando os peixes que se amparam em quelônios. O mais taludo dos fedelhos
aproxima-se de nós e tenta apalpar os seios de Potira. Faço-lhe uma carranca, mas o
maroto não se afasta, apenas ri com a boca escancarada; vejo guelras em sua garganta.
Potira deixa-se tocar pelo pirralho e pede que eu não me zangue, pois o curumim é apenas
um petitinga, peixe-miúdo. Piracanjuba, peixe-da-cabeça-amarela, é seu
nome.
Uma cunhã ainda muito mucu (nova) vem nadando pelo fundo e se roça em meu
corpo. Potira dá-lhe um beliscão no costado. A cunhã se afasta, os cabelos lisos e
muito compridos esvoaçando-lhe sobre as costas. Bela é a cunhantã, formoso o seu dorso,
porém, em meio à pelugem do púbis, vejo, num átimo de relâmpago, como faca brilhando
entre musgos, um pequeno falo. Potira diz que o homem que se juntar com ela será feliz.
Ixé inti xa recó nha, rerecó uahá (eu não tenho o que você tem),
lamenta-se, apalpando-me o pênis.
Piracanjuba, que entrara na idade em que os curumins se tornam perigosos, desinteressa-se
de Potira e põe-se a seguir a cunhã-mucu.
Uma arraia cinza, de ferrão imenso, chega planando perto de nós; da sua sombra vultos de
gente começam a sair.
Aba-pe aipó? (quem são eles?), pergunto. Potira diz que são os que morreram
afogados no upabanema (lago fedorento). Eles saem do fundo dos rios, retornam
como eram em vida e se dirigem para o céu, pelo clarão das estrelas. No fundo dos olhos
negros de Potira vejo miríades de pontinhos reluzentes. Como isso aconteceu, se há pouco
ainda era manhã?! Inti mahã! Oar pituna! (não! a noite já caiu!), exclama
Potira. Psiu! Ninguém deve acordar o rio, adverte ela. A Mãe-dágua,
quando o rio dorme, senta-se na proa das canoas e penteia seus lindos cabelos à luz do
luar.
Vamos ver a mãe dágua?,convida Potira, em português
surpreendentemente perfeito, pois os homens debaixo dágua, ou em transe, unidos
pela paixão, no sonho ou no desespero, falam a mesma língua. Consigo ver a sua voz
fluindo pela água, em halos transparentes. Fala baixinho, ciciando no meu ouvido. Linda
é a sua voz se infiltrando por entre mururés e lianas; ao ouvi-la, jacarés, peixes e
quelônios adormecem. Estou ligado ao mundo pela sua voz, que me entra pela alma e conduz
a todos os lugares e a lugar nenhum.
Sem pernas, caminhamos em busca da Mãe-dágua, um dentro do outro, no útero fofo
do rio, ligados pelo tênue fio da vida. De repente, Potira pára (ou fui eu que parei?).
Sem olhos vemos o mundo invertido na linha do horizonte. Ou é o mundo que nos vê? Que
bela visão! O rio suspenso na abóbada celeste e o Céu sentado nas águas do rio!
Eu e Potira flutuamos no éter, extasiados, plenos de imensidão, calados, mas nossas
almas falam. Nos olhos de Potira enxergo os tempos antigos, muito antigos, em que o seu
povo morava no teto do Céu. Lá, muito acima, há tudo que se pode desejar. Há
batata-doce, macaxeira, inhame, mandioca, milho, frutos de inajá, banana, caça de toda
variedade e tartarugas da terra, tudo o que se pode comer e imaginar. Sou um guerreiro
experiente e descubro no mato a cova de um tatu. Quero caçar o animal e começo a cavar.
Cavo, cavo o dia todo, até de noite, sem encontrar o tatu. Na manhã seguinte, bem cedo,
vou para o mato, a fim de continuar a cavar. Cavo até de noite, em vão. No quinto dia,
quando estou cavando bem fundo, vejo de repente o tatu-gigante, mas, na ânsia de cavar,
furo a abóbada celeste. O tatu então despenca, vai caindo, caindo, até chegar a Terra.
Acompanho o tatu na queda, mas um vento forte, de tempestade, pega-me e atira-me de volta
para cima, fazendo-me retornar ao Céu, de onde, através do buraco, olho a Terra, lá em
baixo. Distingo uma pequena floresta de buritis, um grande rio e campos imensos. Nostalgia
infinita toma conta de mim; desse mundo distante sinto saudade. Corro para minha aldeia e
conto a novidade: Cavei um buraco no Céu, digo a todos. Como foi que
isso aconteceu?, pergunta um guerreiro. Conto como descobri no mato a cova do
tatu-gigante e comecei a cavar, dia após dia, até furar o firmamento. E onde está
o tatu agora?, querem saber os homens. Rolou para baixo, eu vi ele cair numa
floresta de burutis, respondo. O que faremos agora? Ficamos no Céu ou
descemos para a Terra?, pergunta um dos homens. Falam e pensam por muito tempo, até
que resolvem mudar-se para a Terra. O problema é só como vamos descer para
lá, diz um deles. Um outro sugere: Façamos uma corda comprida de todos os
nossos fios, e cordas de arco de todos os nossos cintos e braceletes; cada homem vá para
sua choça e de lá traga o que tiver em cordões e fitas. Você tem razão, a
corda deve ficar forte, igual à de nossos arcos, retruca outro. Fazemos a corda
comprida e depois a jogamos pelo buraco do Céu. Começamos a descida, mas logo paramos,
pois a corda não é suficientemente comprida para chegar até a Terra. Tristonhos,
voltamos ao Céu. Lá, amarramos muitas outras fitas e cordas para encompridar a corda;
ainda não é o bastante; temos que voltar de novo para prolongar a corda, que, mais uma
vez, não tem o comprimento necessário. Damos nova busca na aldeia, juntamos tudo o que
há em fitas, cordões, cintos e colares; por fim, a corda fica muito comprida. Um homem
sem medo e sem vertigem desce e pisa primeiro na Terra. Vejo-o chegar e amarrar a corda no
tronco de uma árvore gigantesca. Começa a descida de toda a tribo: primeiro os jovens,
depois as mulheres com as crianças, as menores presas a tipóias nas costas das mães; em
seguida, os homens e, por fim, os anciãos. Os que aterrizam partem logo para os campos
imensos. Os jovens, à frente, procuram o caminho para uma nova morada. Temerosos, alguns
hesitam e não acompanham os demais na descida.
Segurando minha mão na descida, Potira solta gritinhos. Vejo um curumim estranho que vem
correndo e, ao ver a corda, corta-a, zombando: Estou cortando a corda para eles
ficarem eternamente lá em cima. Nesse instante, acho que tenho uma vertigem, pois
de nada me lembro. A tribo ficou dividida; uma parte continuou morando no Céu e outra, na
Terra. Onde eu e Potira ficamos?
Na terra, diz Potira.
No céu, digo eu.
O que importa, se estamos juntos? Onde estamos será o nosso Céu. Raios translúcidos
partem de um disco escarlate, metade água metade ar, olho dourado na linha do horizonte.
Dia ou noite, o que será?
Oar pituna. Pituna i roine (a noite caiu, será fria), diz Potira.
Guaraci osem umã; i porang sepiaca (o sol já saiu, é bela a visão dele),
retruco-lhe.
Acanga aiua! Iaci-tatá (louco! é o luar!), diz Potira, divertindo-se com a
minha confusão. Aape iporanga reté (lá é muito bonito), completa a
rapariga.
Não sei por quanto tempo avançamos. Sinto as minhas pernas, a ferida já não dói, mas
estou muito cansado. Potira, ao contrário, parece cheia de energia.
Iaciçuaçu poranga reté! (como a lua cheia está bonita!), exclama.
Poranga mahiê ne iaué! (tão bonita como tu!), retruco.
Afastamo-nos tanto da praia que não enxergo mais a margem; estamos em águas profundas,
mas o piso do rio (ou teto do Céu?) nunca foge dos pés. Jacarés e peixes menores
ficaram para trás. Tainhas, atuns e xaréus são nossos companheiros. Potira segura firme
minha mão e, ágil como um peixe, às vezes, me puxa.
O disco escarlate aos poucos vai se erguendo. Baça é a sua luz, tépido o seu calor.
Gotas dágua escorrem como suor pelo meu rosto e respiro com dificuldade.
Poranga iaci-tatá (lindo é o luar), diz Potira, adiantando-se à maneira dos
golfinhos. De repente pára e olha-me.
Que visão enlouquecedora: Potira dentro da Lua!
Iuri Iké! (vem cá!), ela me chama.
Estranho, muito estranho, Potira parece outra. Seu rosto redondo fica do tamanho da Lua e
seus olhos refletem uma luz mortiça.
Iuri Iké! Esiquiié umem! (vem cá! não tenhas medo!), ela me anima.
Hesito. O rosto esfogueado da cunhantã, suas narinas dilatadas e a língua que umedece os
lábios como se estivesse com sede atemorizam-me. Pego-lhe as mãos, nossos dedos se
entrelaçam e os corpos unidos balouçam com as ondas.
De longe, muito longe, chegam-me vozes, muitas vozes, vozes muito antigas. As vozes frias
dos mortos; as vozes dos vivos que gesticulam em volta dos castelos suplicando comida e
agasalho; vozes portuguesas do Alentejo fluindo no ar trêmulo das manhãs; vozes
hebraicas que imprecam e pregam; vozes inglesas que murmuram e soluçam; vozes brasileiras
que suplicam e amaldiçoam; trêmulas vozes dÁfrica procurando o sentido do mundo;
vozes de Dante: Misere di me, gridai a lui qual che tu sii, od ombra od omo
certo!; e o poeta que se agarra à última quimera para não enlouquecer,
dizendo-me: Atenta, amigo, para a modulação da voz, aprende a sua condensada
chama, ali onde há de acender algum claro sentido, a menos que te bastem as estacas do
ruído. As muitas vozes que perseguem nosso dia com suas águas turvas, suas lâminas, as
que sempre esquecerás antes que calem e a que lembrarás por sua acesa chama; a voz da
amada, lasciva e profana, a voz do nada, a voz muda, e a que te engana. No meio de
tudo, a voz de Potira murmurando: Potira nde rausuba (Potira te ama). Mas o
primeiro naco assado da minha carne a danada vai comer com volúpia, por amor, para que
eu, desfazendo-me em suas entranhas, fique entranhado para sempre em sua alma. Gosto dela
mesmo assim: Potira fazendo sua própria vontade, Potira espetando seu próprio corpo,
Potira mordendo-me com caninos de jaguarete, Potira unhando-me com unhas de suçuarana.
Nhaêpepô-oaçu, meu matador, lasca já meu crânio com o ibirapema. Potira, pequena
antropófaga, podes comer-me com prazer que doce ventura ter teu corpo por
sepultura!
De dentro da Lua, Potira me olha e enxerga o meu pensamento. Pingos de mel brotam-lhe dos
olhos, adocicando-me o sofrimento. Uma auréola de pétalas circunda-lhe o rosto,
embriagando com seu perfume o mundo. Fico zonzo, já não tenho pernas, nem braços nem
corpo. A terra sumiu, a água sumiu e todos os bichos aquáticos desapareceram. Sem olhos,
sem boca e sem ouvidos, apenas penso, ou penso que penso, pois não lembro das palavras,
já não penso, apenas pressinto e sinto, um vulto entrando na cabana.
Nicodemos Sena nasceu no dia 8 de julho de 1958, em Santarém, Pará, Amazônia
brasileira. Passou parte de sua infância entre os índios maués, na região de fronteira
entre os estados do Pará e Amazonas, experiência que para sempre o marcaria. Em 1977,
veio para São Paulo, onde se formou em Jornalismo, pela PUC-SP (Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo), e em Direito, pela USP (Universidade de São Paulo).
Em 1999, estreou com o romance A espera do nunca mais uma saga
amazônica (Editora Cejup, Belém, PA, 876 páginas).
Em 2000, A espera do nunca mais conquistou o Prêmio Lima Barreto/Brasil 500
Anos, da União Brasileira de Escritores (UBE/Rio de Janeiro).
Seu segundo romance, A noite é dos pássaros (Editora Cejup, 136 pág.,
2003), foi primeiramente publicado em forma de folhetim, no jornal O Estado do
Tapajós (Pará, Brasil) e na revista eletrônica portuguesa TriploV.
Foi publicado no Dossier Amazónico, na revista literária portuguesa Construções
Portuárias (nº01, 2002), no qual um trecho de A noite é dos pássaros
foi incluído, ao lado de importantes escritores da Amazônia, como Max Martins, João de
Jesus Paes Loureiro, Vicente Franz Cecim, Age de Carvalho, Benedicto Monteiro e Benedito
Nunes.
Fragmentos de A noite é dos pássaros foram publicados nas revistas
Palavra em Mutação (nº 02, 2003) e Storm-Magazine, ambas de
Portugal. Em 2003, A noite é dos pássaros conquistou o prêmio Lúcio
Cardoso, da Academia Mineira de Letras, e, em 2004, Menção Honrosa no prêmio José Lins
do Rego, da União Brasileira de Escritores (UBE/Rio de Janeiro).
Seus romances mereceram comentários em grandes jornais do Rio de Janeiro, São Paulo,
Belo Horizonte, Salvador, Goiânia, Brasília e Belém do Pará (O Globo,
O Estado de São Paulo, Jornal da Tarde, Estado de
Minas, Hoje em Dia, A Tarde, O Liberal,
Jornal Opção, Caderno Brasília) e da Cidade do Porto, em
Portugal (O Primeiro de Janeiro).
Sobre sua ficção já se manifestaram importantes críticos e escritores brasileiros,
entre os quais Antonio Olinto, Nelly Novaes Coelho, Olga Savary, Fábio Lucas, Oscar
DAmbrosio, Antonio Carlos Secchin, Dirce Lorimier Fernandes, Ronaldo Cagiano, Acyr
Castro, Manoel Hygino dos Santos, Nelson Hoffmann, Carlos Nejar, Caio Porfírio Carneiro,
Tanussi Cardoso e Adelto Gonçalves.
O escritor vem sendo considerado a revelação da literatura amazônica nos últimos anos,
tornando-se verbete na Enciclopédia de Literatura Brasileira, direção de
Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa (edição conjunta da Global Editora, Fundação
Biblioteca Nacional, DNL, Academia Brasileira de Letras, 2ª edição, 2001). A obra
ficcional de Nicodemos Sena expressa o conflito étnico cultural entre dois mundos
o do colonizador europeu e o do índio autóctone. Por seu estilo vigoroso e a
temática inspirada na vida das populações marginalizadas da Amazônia (índios e
caboclos), a crítica já comparou esse romancista da Amazônia a grandes ficcionistas
brasileiros, como Graciliano Ramos, João Ubaldo Ribeiro, Mário de Andrade e Érico
Verissimo, e a importantes ficcionistas latino-americanos, como o paraguaio Augusto Roa
Bastos e o peruano José María Arguedas. O escritor reside atualmente em Caraguatatuba,
São Paulo, Brasil, onde, durante o ano de 2004, finalizou o seu terceiro romance, A
mulher, o homem e o cão.
O texto acima, enviado pelo autor, foi publicado no Dossier Amazónico promovido pela
revista Construções Portuárias (Lisboa, 2002).
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