Último
texto
Colheita
Nélida Piñon
Um rosto proibido desde que crescera. Dominava as paisagens no modo ativo de agrupar
frutos e os comia nas sendas minúsculas das montanhas, e ainda pela alegria com que
distribuía sementes. A cada terra a sua verdade de semente, ele se dizia sorrindo. Quando
se fez homem encontrou a mulher, ela sorriu, era altiva como ele, embora seu silêncio
fosse de ouro, olhava-o mais do que explicava a história do universo. Esta reserva
mineral o encantava e por ela unicamente passou a dividir o mundo entre amor e seus
objetos. Um amor que se fazia profundo a ponto de se dedicarem a escavações, refazerem
cidades submersas em lava.
A aldeia rejeitava o proceder de quem habita terras raras. Pareciam os dois soldados de
uma fronteira estrangeira, para se transitar por eles, além do cheiro da carne amorosa,
exigiam eles passaporte, depoimentos ideológicos. Eles se preocupavam apenas com o fundo
da terra, que é o nosso interior, ela também completou seu pensamento. Inspirava-lhes o
sentimento a conspiração das raízes que a própria árvore, atraída pelo sol e exposta
à terra, não podia alcançar, embora se soubesse nelas.
Até que ele decidiu partir. Competiam-lhe andanças, traçar as linhas finais de um mapa
cuja composição havia se iniciado e ele sabia hesitante. Explicou à mulher que para a
amar melhor não dispensava o mundo, a transgressão das leis, os distúrbios dos
pássaros migratórios. Ao contrário, as criaturas lhe pareciam em suas peregrinações
simples peças aladas cercando alturas raras.
Ela reagiu, confiava no choro. Apesar do rosto exibir naqueles dias uma beleza esplêndida
a ponto de ele pensar estando o amor com ela por que buscá-lo em terras onde dificilmente
o encontrarei, insistia na independência. Sempre os de sua raça adotaram comportamento
de potro. Ainda que ele em especial dependesse dela para reparar certas omissões fatais.
Viveram juntos todas as horas disponíveis até a separação. Sua última frase foi
simples: com você conheci o paraíso. A delicadeza comoveu a mulher, embora os diálogos
do homem a inquietassem. A partir desta data trancou-se dentro de casa. Como os caramujos
que se ressentem com o excesso da claridade. Compreendendo que talvez devesse preservar a
vida de modo mais intenso, para quando ele voltasse. Em nenhum momento deixava de
alimentar a fé, fornecer porções diárias de carpas oriundas de águas orientais ao seu
amor exagerado.
Em toda a aldeia a atitude do homem representou uma rebelião a se temer. Seu nome
procuravam banir de qualquer conversa. Esforçavam-se em demolir o rosto livre e sempre
que passavam pela casa da mulher faziam de conta que jamais ela pertencera a ele.
Enviavam-lhe presentes, pedaços de toicinho, cestas de pêra, e poesias esparsas. Para
que ela interpretasse através daqueles recursos o quanto a consideravam disponível, sem
marca de boi e as iniciais do homem em sua pele.
A mulher raramente admitia uma presença em sua casa. Os presentes entravam pela janela da
frente, sempre aberta para que o sol testemunhasse a sua própria vida, mas abandonavam a
casa pela porta dos fundos, todos aparentemente intocáveis. A aldeia ia lá para
inspecionar os objetos que de algum modo a presenciaram e eles não, pois dificilmente
aceitavam a rigidez dos costumes. Às vezes ela se socorria de um parente, para as compras
indispensáveis. Deixavam eles então os pedidos aos seus pés, e na rápida passagem pelo
interior da casa procuravam a tudo investigar. De certo modo ela consentia para que vissem
o homem ainda imperar nas coisas sagradas daquela casa.
Jamais faltou uma flor diariamente renovada próxima ao retrato do homem. Seu semblante de
águia. Mas, com o tempo, além de mudar a cor do vestido, antes triste agora sempre
vermelho, e alterar o penteado, pois decidira manter os cabelos curtos, aparados rentes à
cabeça decidiu por eliminar o retrato. Não foi fácil a decisão. Durante dias
rondava o retrato, sondou os olhos obscuros do homem, ora o condenava, ora o absolvia:
porque você precisou da sua rebeldia, eu vivo só, não sei se a guerra tragou você,
não sei sequer se devo comemorar sua morte com o sacrifício da minha vida.
Durante a noite, confiando nas sombras, retirou o retrato e o jogou rudemente sobre o
armário. Pôde descansar após a atitude assumida. Acreditou deste modo poder provar aos
inimigos que ele habitava seu corpo independente da homenagem. Talvez tivesse murmurado a
algum dos parentes, entre descuidada e oprimida, que o destino da mulher era olhar o mundo
e sonhar com o rei da terra.
Recordava a fala do homem em seus momentos de tensão. Seu rosto então igualava-se à
pedra, vigoroso, uma saliência em que se inscreveria uma sentença, para permanecer. Não
sabia quem entre os dois era mais sensível à violência. Ele que se havia ido, ela que
tivera que ficar. Só com os anos foi compreendendo que se ele ainda vivia tardava a
regressar. Mas, se morrera, ela dependia de algum sinal para providenciar seu fim. E
repetia temerosa e exaltada: algum sinal para providenciar meu fim. A morte era uma
vertente exagerada, pensou ela olhando o pálido brilho das unhas, as cortinas limpas, e
começou a sentir que unicamente conservando a vida homenagearia aquele amor mais pungente
que búfalo, carne final da sua espécie, embora tivesse conhecido a coroa quando das
planícies.
Quando já se tornava penoso em excesso conservar-se dentro dos limites da casa, pois
começara a agitar nela uma determinação de amar apenas as coisas venerandas, fossem
pó, aranha, tapete rasgado, panela sem cabo, como que adivinhando ele chegou. A aldeia
viu o modo de ele bater na porta com a certeza de se avizinhar ao paraíso. Bateu três
vezes, ela não respondeu. Mais três e ela, como que tangida à reclusão, não admitia
estranhos. Ele ainda herói bateu algumas vezes mais, até que gritou seu nome, sou eu,
então não vê, então não sente, ou já não vive mais, serei eu logo o único a
cumprir a promessa?
Ela sabia agora que era ele. Não consultou o coração para agitar-se, melhor viver a sua
paixão. Abriu a porta e fez da madeira seu escudo. Ele imaginou que escarneciam da sua
volta, não restava alegria em quem o recebia. Ainda apurou a verdade: se não for você,
nem preciso entrar. Talvez tivesse esquecido que ele mesmo manifestara um dia que seu
regresso jamais seria comemorado, odiaria o povo abundante na rua vendo o silêncio dos
dois após tanto castigo.
Ela assinalou na madeira a sua resposta. E ele achou que devia surpreendê-la segundo o
seu gosto. Fingia a mulher não perceber seu ingresso casa adentro, mais velho sim, a
poeira colorindo original as suas vestes. Olharam-se como se ausculta a intrepidez do
cristal, seus veios limpos, a calma de perder-se na transparência. Agarrou a mão da
mulher, assegurava-se de que seus olhos, apesar do pecado das modificações, ainda o
enxergavam com o antigo amor, agora mais provado.
Disse-lhe: voltei. Também poderia ter dito: já não te quero mais. Confiava na mulher;
ela saberia organizar as palavras expressas com descuido. Nem a verdade, ou sua imagem
contrária, denunciaria seu hino interior. Deveria ser como se ambos conduzindo o amor
jamais o tivessem interrompido.
Ela o beijou também com cuidado. Não procurou sua boca e ele se deixou comovido. Quis
somente sua testa, alisou-lhe os cabelos. Fez-lhe ver o seu sofrimento, fora tão difícil
que nem seu retrato pôde suportar. Onde estive então nesta casa, perguntou ele, procure
e em achando haveremos de conversar. O homem se sentiu atingido por tais palavras. Mas as
peregrinações lhe haviam ensinado que mesmo para dentro de casa se trazem os desafios.
Debaixo do sofá, da mesa, sobre a cama, entre os lençóis, mesmo no galinheiro, ele
procurou, sempre prosseguindo, quase lhe perguntava: estou quente ou frio. A mulher não
seguia suas buscas, agasalhada em um longo casaco de lã, agora descascava batatas
imitando as mulheres que encontram alegria neste engenho. Esta disposição da mulher como
que o confortava. Em vez de conversarem, quando tinham tanto a se dizer, sem querer eles
haviam começado a brigar. E procurando ele pensava onde teria estado quando ali não
estava, ao menos visivelmente pela casa.
Quase desistindo encontrou o retrato sobre o armário, o vidro da moldura todo quebrado.
Ela tivera o cuidado de esconder seu rosto entre cacos de vidro, quem sabe tormentas e
outras feridas mais. Ela o trouxe pela mão até a cozinha. Ele não se queria deixar ir.
Então, o que queres fazer aqui? Ele respondeu: quero a mulher. Ela consentiu. Depois
porém ela falou: agora me siga até a cozinha.
O que há na cozinha?
Deixou-o sentado na cadeira. Fez a comida, se alimentaram em silêncio. Depois limpou o
chão, lavou os pratos, fez a cama recém-desarrumada, tirou o pó da casa, abriu todas as
janelas quase sempre fechadas naqueles anos de sua ausência. Procedia como se ele ainda
não tivesse chegado, ou como se jamais houvesse abandonado a casa, mas se faziam
preparativos sim de festa. Vamos nos falar ao menos agora que eu preciso?, ele disse.
Tenho tanto a lhe contar. Percorri o mundo, a terra, sabe, e além do mais...
Eu sei, ela foi dizendo depressa, não consentindo que ele dissertasse sobre a variedade
da fauna, ou assegurasse a ela que os rincões distantes ainda que apresentem certas
particularidades de algum modo são próximos a nossa terra, de onde você nunca se
afastou porque você jamais pretendeu a liberdade como eu. Não deixando que lhe contasse,
sim que as mulheres, embora louras, pálidas, morenas e de pele de trigo, não ostentavam
seu cheiro, a ela, ele a identificaria mesmo de olhos fechados. Não deixando que ela
soubesse das suas campanhas: andou a cavalo, trem, veleiro, mesmo helicóptero, a terra
era menor do que supunha, visitara a prisão, razão de ter assimilado uma rara
concentração de vida que em nenhuma parte senão ali jamais encontrou, pois todos os que
ali estavam não tinham outro modo de ser senão atingindo diariamente a expiação.
E ela, não deixando ele contar o que fora o registro da sua vida, ia substituindo com
palavras dela então o que ela havia sim vivido. E de tal modo falava como se ela é que
houvesse abandonado a aldeia, feito campanhas abolicionistas, inaugurado pontes, vencido
domínios marítimos, conhecido mulheres e homens, e entre eles se perdendo pois quem sabe
não seria de sua vocação reconhecer pelo amor as criaturas. Só que ela falando
dispensava semelhantes assuntos, sua riqueza era enumerar com volúpia os afazeres
diários a que estivera confinada desde a sua partida, como limpava a casa, ou inventara
um prato talvez de origem dinamarquesa, e o cobriu de verdura, diante dele fingia-se
coelho, logo assumindo o estado que lhe trazia graça, alimentava-se com a mão e
sentia-se mulher; como também simulava escrever cartas jamais enviadas pois ignorava onde
encontrá-lo; o quanto fora penoso decidir-se sobre o destino a dar a seu retrato, pois,
ainda que praticasse a violência contra ele, não podia esquecer que o homem sempre
estaria presente; seu modo de descascar frutas, tecendo delicadas combinações de desenho
sobre a casca, ora pondo em relevo um trecho maior da polpa, ora deixando o fruto
revestido apenas de rápidos fiapos de pele; e ainda a solução encontrada para se
alimentar sem deixar a fazenda em que sua casa se convertera, cuidara então em admitir
unicamente os de seu sangue sob condição da rápida permanência, o tempo suficiente
para que eles vissem que apesar da distância do homem ela tudo fazia para homenageá-lo,
alguns da aldeia porém, que ele soubesse agora, teimaram em lhe fazer regalos, que, se
antes a irritavam, terminaram por agradá-la.
De outro modo, como vingar-me deles?
Recolhia os donativos, mesmo os poemas, e deixava as coisas permanecerem sobre a mesa por
breves instantes, como se assim se comunicasse com a vida. Mas, logo que todas as reservas
do mundo que ela pensava existirem nos objetos se esgotavam, ela os atirava à porta dos
fundos. Confiava que eles próprios recolhessem o material para não deteriorar em sua
porta.
E tanto ela ia relatando os longos anos de sua espera, um cotidiano que em sua boca
alcançava vigor, que temia ele interromper um só momento o que ela projetava dentro da
casa como se cuspisse pérolas, cachorros miniaturas, e uma grama viçosa, mesmo a
pretexto de viver junto com ela as coisas que ele havia vivido sozinho. Pois quanto mais
ela adensava a narrativa, mais ele sentia que além de a ter ferido com o seu profundo
conhecimento da terra, o seu profundo conhecimento da terra afinal não significava nada.
Ela era mais capaz do que ele de atingir a intensidade, e muito mais sensível porque
viveu entre grades, mais voluntariosa por ter resistido com bravura os galanteios. A fé
que ele com neutralidade dispensara ao mundo a ponto de ser incapaz de recolher de volta
para seu corpo o que deixara tombar indolente, ela soubera fazer crescer, e concentrara no
domínio da sua vida as suas razões mais intensas.
À medida que as virtudes da mulher o sufocavam, as suas vitórias e experiências iam-se
transformando em uma massa confusa, desorientada, já não sabendo ele o que fazer dela.
Duvidava mesmo se havia partido, se não teria ficado todos estes anos a apenas alguns
quilômetros dali, em degredo como ela, mas sem igual poder narrativo.
Seguramente ele não lhe apresentava a mesma dignidade, sequer soubera conquistar seu
quinhão na terra. Nada fizera senão andar e pensar que aprendeu verdades diante das
quais a mulher haveria de capitular. No entanto, ela confessando a jornada dos legumes, a
confecção misteriosa de uma sopa, selava sobre ele um penoso silêncio. A vergonha de
ter composto uma falsa história o abatia. Sem dúvida estivera ali com a mulher todo o
tempo, jamais abandonara a casa, a aldeia, o torpor a que o destinaram desde o nascimento,
e cujos limites ele altivo pensou ter rompido.
Ela não cessava de se apoderar das palavras, pela primeira vez em tanto tempo explicava
sua vida, tinha prazer de recolher no ventre, como um tumor que coça as paredes íntimas,
o som da sua voz. E, enquanto ouvia a mulher, devagar ele foi rasgando o seu retrato, sem
ela o impedir, implorasse não, esta é a minha mais fecunda lembrança. Comprazia-se com
a nova paixão, o mundo antes obscurecido que ela descobriu ao retorno do homem.
Ele jogou o retrato picado no lixo e seu gesto não sofreu ainda desta vez advertência.
Os atos favoreciam a claridade e, para não esgotar as tarefas a que pretendia dedicar-se,
ele foi arrumando a casa, passou pano molhado nos armários, fingindo ouvi-Ia ia
esquecendo a terra no arrebato da limpeza. E, quando a cozinha se apresentou imaculada,
ele recomeçou tudo de novo, então descascando frutas para a compota enquanto ela lhe
fornecia histórias indispensáveis ao mundo que precisaria apreender uma vez que a ele
pretendia dedicar-se para sempre. Mas de tal modo agora arrebatava-se que parecia
distraído, como pudesse dispensar as palavras encantadas da mulher para adotar afinal o
seu universo.
Nélida Piñon, jornalista, romancista, contista, professora, é carioca de Vila
Isabel, Rio de Janeiro, RJ. Nasceu em 3 de maio de 1937. Eleita em 27 de julho de 1989
para a Cadeira n. 30, na sucessão de Aurélio Buarque de Holanda, foi recebida em 3 de
maio de 1990, pelo acadêmico Lêdo Ivo.
Foi a primeira mulher, nos mais de 100 anos de existência da ABL, a integrar a Diretoria
e ocupar a presidência da Casa de Machado de Assis, no ano do seu I Centenário.
Sua produção literária está traduzida para países como Alemanha, Itália, Espanha,
União Soviética, Estados Unidos, Cuba e Nicarágua. Contos seus encontram-se publicados
em centenas de revistas e fazem parte de antologias brasileiras e estrangeiras.
Recebeu vários prêmios literários: Prêmio Walmap, pelo romance Fundador (1970);
Prêmio Mário de Andrade, pelo romance A casa da paixão (1973); Prêmio da Associação
Paulista de Críticos de Arte e Prêmio Ficção Pen Clube pelo romance A República dos
sonhos (1985); Prêmio José Geraldo Vieira, da União Brasileira de Escritores de São
Paulo, pelo romance A doce canção de Caetana (1987); Prêmio Golfinho de Ouro, pelo
Conjunto de Obras, conferido pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro (1990); Prêmio
Bienal Nestlé, pelo Conjunto de Obras (1991); Prêmio Internacional de Literatura Juan
Rulfo, o mais importante da América Latina e do Caribe, concedido pela primeira vez a uma
mulher e a um autor de língua portuguesa (1995); Prêmio Menéndez Pelayo, concedido pela
universidade espanhola de mesmo nome, em 2003.
A escritora foi agraciada com o Prêmio Príncipe de Astúrias das Letras de 2005,
concedido pela fundação de mesmo nome, da Espanha.
Obras:
Guia-mapa de Gabriel Arcanjo, romance (1961)
Madeira feita de cruz, romance (1963)
Tempo das frutas, contos (1966)
Fundador, romance (1969)
A casa da paixão, romance (1977)
Sala de armas, contos (1973)
Tebas do meu coração, romance (1974)
A força do destino, romance (1977)
O calor das coisas, contos (1980)
A república dos sonhos, romance (1984)
A doce canção de Caetana, romance (1987)
O pão de cada dia: fragmentos, contos (1994)
A roda do vento, romance infanto-juvenil (1996)
Até amanhã, outra vez, romance (1999)
Cortejo do Divino e outros contos escolhidos, contos (2001)
O presumível coração da América, discursos (2002)
Vozes do deserto, romance (2004)
O ritual da arte, ensaio sobre a criação literária (inédito).
O texto acima foi publicado no livro "Sala das Armas", Editora Record - Rio de
Janeiro, 1997, pág. 263.
|