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Arnaldo Nogueira Jr



Nestor de Holanda


Tibúrcio

Nestor de Holanda


Acreditava em tudo que lhe diziam. Ninguém era mais crédulo, mais confiante. O Andaraí em peso o conhecia como a figura mais ingênua do bairro.

Desde pequeno, Tibúrcio ficou assim, talvez por ter sido educado de catecismo à mão, aprendendo a distinguir o mal do bem, para manter-se fiel a princípios sãos.

Em tudo Tibúrcio acreditava.

Bom-de-bola, jogava como centroavante do Nabucodonosor Futebol Clube. Os adversários sabiam de sua permanente boa intenção. Muitas vezes, quando atacava o último reduto do time contrário — e sempre o fazia perigosamente, veloz como um torpedo, a driblar com agilidade de raio — alguém da defesa inimiga, para evitar que ele marcasse o gol, mentia:

— O juiz já apitou o impedimento.

Tibúrcio acreditava. E largava a bola...

Havia os cavalheiros que, todas as noites, se reuniam numa esquina da Rua Ernesto Sousa, para contar estórias fantásticas. Narravam casos de assombração, de visões formidáveis, aparições da meia-noite nas encruzilhadas, mula-sem-cabeça, lobisomem. Todos riam das invencionices. Mas Tibúrcio acreditava.

Até em pequenas coisas, como a presença da mosca do sono, a tsé-tsé, no Andaraí, Tibúrcio acreditava.

Viveu sempre na maior credulidade.

Trocou as vadiagens de rapaz por um emprego público. O centroavante se transformou em oficial administrativo. Mas aquela indefectível boa-fé continuou regendo-lhe; todos os passos, à frente de seu destino.

Na repartição, divertiam-se às suas custas:

— O elevador caiu.

Tibúrcio acreditava. E somente ele subia pelas escadas...

— Os bondes estão parados.

Tibúrcio acreditava. E regressava a pé, até prova em contrário...

— Hoje é ponto facultativo.

Tibúrcio acreditava. E sofria o desconto da falta, no ordenado...

Casou-se. Teve harmoniosa vida no lar.

Se confiava em todos e em tudo, por que não haveria de confiar na Esmeralda, bonita pedra preciosa que conheceu na Taba de Tupã, centro de umbanda dos mais conceituados da Pavuna? Esmeralda recebia o caboclo Sete Estalos, seu guia-de-cabeça e orixá de fé do Tibúrcio. Foi Sete Estalos quem determinou:

— Daqui a sete luas quero ver o filho casado com o meu cavalo.
O cavalo, como ficou dito, era a Esmeralda. Em qualquer coisa que ela dizia como sendo Sete Estalos, Tibúrcio acreditava. E se no caboclo Tibúrcio acreditava, como desobedecer a uma ordem sua?

Na sétima lua, Tibúrcio e o cavalo já eram marido e mulher.

O jovem par foi residir no Andaraí, no mesmo casarão em que Tibúrcio vivia com os pais. Depois de casada, porém, Esmeralda deixou de freqüentar a Taba de Tupã, a fim de não ter que ir, todas as semanas, à longínqua Pavuna. Em conseqüência, Sete Estalos passou a atender o casal em domicílio. E quando o marido sentia falta das sessões, Esmeralda recebia o caboclo e Tibúrcio acreditava.

Veio o primeiro filho, cinco meses depois do casamento. Sempre que Tibúrcio contava o tempo, Esmeralda fazia novos cálculos por cima dos dele e Tibúrcio acreditava. Suas contas provavam que o menino veio de sete meses e Tibúrcio acreditava. Aliás, era interessante ouvir Esmeralda falar do parto, porque ela explicava que Sete Estalos achara melhor a criança vir antes do tempo, uma vez que sete era o número principal da umbanda e fazia parte do nome do guia. E Tibúrcio acreditava.

Por esse motivo, deram o nome de Setembrino ao primogênito — o mesmo nome do dono do Armazém Trás-os-Montes, um luso senhor, de largos bigodes, o qual Esmeralda convidou para padrinho do pimpolho, na qualidade de representante de Sete Estalos. E quando diziam que era em virtude de tanto conviver com o padrinho que o pequeno Setembrino estava ficando parecido com o grande, Tibúrcio acreditava.

Esmeralda, durante longo tempo, foi a senhora mais popular do Andaraí. Se outras donas do bairro evitavam cumprimentá-la, os barbados tudo faziam para vê-la de perto. Morena e apetitosa, seus vestidos eram os mais notados porque ninguém os usava tão colantes. E quando ela explicava que vestido justo era moda, Tibúrcio acreditava.

Depois de Setembrino, os filhos decidiram vir de nove em nove meses. Sete Estalos achava que a família devia aumentar e Tibúrcio acreditava. O estado normal de Esmeralda passou a ser de gravidez. Mal saía um, entrava outro, E ela engordava e os vestidos ficavam apertados.

Todavia, a vida não ficou muito cara para Tibúrcio. A prole crescia, mas cada filho ganhava como padrinho um dos bons comerciantes do Andaraí. Manuel, o segundo, foi batizado pelo farmacêutico; Célia pelo açougueiro; Gilda pelo verdureiro; Catarina pelo senhorio; Catarino pelo lojista; e Gabriel pelo gerente da agência funerária Deus Salve a América. Assim, quando Tibúrcio falava em dinheiro para as despesas de roupa, comida ou aluguel, Esmeralda explicava por que não era necessário:

— Nossos compadres dão tudo aos afilhados.

Tibúrcio acreditava.

Não raro, Esmeralda chegava a casa tarde da noite. E contava um enredo:

— O ônibus chocou-se com um poste.

Tibúrcio acreditava.

— O dentista me fez esperar horas, só para mudar um algodãozinho.

Tibúrcio acreditava.

— O trânsito está inteiramente interrompido.

Tibúrcio acreditava.

Acreditava sempre. Nasceu para acreditar. Tudo que lhe diziam era sagrado:

— Sua esposa é uma santa.

Tibúrcio acreditava.

Homem feliz. Bom. Puro de alma. Amigo geral. E, principalmente, excelente chefe de família.

Basta dizer que os meninos o chamavam, manhosamente:

— Papai?... Papai!...

E Tibúrcio acreditava.


Nestor de Holanda
(Nestor de Hollanda Cavalcanti Neto) nasceu a 1º de dezembro de 1921, em Vitória de Santo Antão, Pernambuco. Em 1941, veio para o Rio de Janeiro, em busca de horizontes mais largos. Foi redator de A Cena Muda, Revista da Semana, Brasilidade, Vida, Deca, e das rádios Vera Cruz, Transmissora e Educadora. Trabalhou em diversos jornais: Folha Carioca, Democracia, O Imparcial, A Noite, Folha do Rio, Shopping News, Diário Carioca, Última Hora e Diário de Notícias. Revistas: Manchete, A Noite Ilustrada, Carioca. Estações de Rádio: Clube Fluminense, Cruzeiro do Sul, Clube do Brasil, Globo, Nacional e Ministério da Educação e Cultura, da qual era redator. Emissoras de televisão: Continental, Excelsior, Rio. Escreveu muito para teatro, desde revistas como A Bomba da Paz, Está em Todas, TV para Crer e Terra do Samba, a comédias como Um Homem Mau e A Bruxa. Produziu mais de uma centena de composições populares, como Quem Foi?, Seu Nome Não é Maria, Xém-ém-ém ( que figurou na trilha sonora de um filme dos Estúdios Disney), Periquito da Madame, Último Beijo, Muito Agradecido, Eu Sei que Ele Chora, Meu Mundo é Você, e fez parceiras com Ari Barroso, Ismael Neto, Haroldo Lôbo e outros musicistas que deixaram saudades. Foi um dos fundadores da SBACEM, da SADEMBRA e filiado à Sociedade Brasileira de Autores Teatrais e à Associação Brasileira de Imprensa — ABI.
Graças a seu estilo leve, bem-humorado, de marcante penetração popular, Nestor de Holanda figura entre os escritores que mais venderam no Brasil, e esteve entre os mais traduzidos. Livros seus, como Diálogo Brasil-URSS, O Mundo Vermelho, Sossego, Rua da Revolução, Jangadeiros, A Ignorância ao Alcance de Todos, Itinerário da Paisagem Carioca e outros figuram entre os recordistas de venda, alguns com edições sucessivas, sendo que o último lhe rendeu o título de Cidadão Carioca, por decisão da Assembléia Legislativa do Estado da Guanabara. Foi casado, desde 1947, com dona Kezia Alves de Hollanda Cavalcanti. O casal teve dois filhos, Nestor e Maria Marta. Eis, portanto, em rápidas linhas, a história desse autor. Um homem que viveu, exclusivamente, de escrever. Jamais exerceu a função que não dependesse, tão-só, de sua pena. E, quando completou 32 anos de atividades na imprensa, viu sair a edição comemorativa do fato, em dois volumes, numa realização da BRADIL, com a seleção de trabalhos de sua seção "Telhado de Vidro", na qual se destaca o bom humor do cronista diário, o cronista que, apesar das viagens que empreendeu ao exterior, não deixa de cantar as quatro cidades nas quais mais tempo viveu: Vitória de Santo Antão, Recife, Olinda e o Rio de Janeiro
Nestor de Holanda faleceu em 14 de novembro de 1970, na cidade do Rio de Janeiro.

Bibliografia:

ROMANCES:
Sossego, Rua da Revolução — Irmão Pongetti Editores, 1961
Jangadeiros — Editora Letras e Artes, 1964

CRÔNICAS:
Ah! Saudade Engraçada! (Prêmio Orlando Dantas, do Diário de Notícias, Livraria São José, 1962)
Estórias de Bom Humor (Cariocas) — Editora Letras e Artes, 1965
Telhado de Vidro —Volume I e II — Bradil, 1967

TEATRO:
Um Homem Mau — Editora Brasilidade, 1943
A Bruxa — Irmãos Pongetti Editores, 1962

HUMORISMO:
A Ignorância ao Alcance de Todos — Editora Letras e Artes, 1ª Edição em 1963, 2ª. 3ª, 4ª e 5ª em 1964 e 6ª edição em 1965.
O Puxa—Saquismo ao Alcance de todos — Editora Letras e Artes, 1ª edição em 1963, 2ª em 1964 e 3ª em 1965.
Seja Você um Canibal — Editora Letras e Artes, 1964
O Decúbito da Mulher Morta — Editora Conquista, 1970.

REPORTAGENS:
O Mundo Vermelho — Irmãos Pongetti Editores, 1ª edição em 1961, 2ª em 1962 e 3ª em 1963.
Itinerário da Paisagem Carioca — Editora Letras e Artes, 1965

ENTREVISTAS:
Diálogo Brasil—URSS — Editora Civilização Brasileira, 1ª edição em 1960 e 2ª edição em 1962.

ENSAIOS:
Como Seria o Brasil Socialista? — Editora Civilização Brasileira, 1963.

MEMÓRIAS:
Memórias do Café Nice (Subterrâneos da Música Popular e da Vida Boêmia do Rio de Janeiro) — Editora Conquista, 1ª edição em 1969 e 2ª edição em 1970.

ADAPTAÇÃO:
A Ilíada, de Homero, para a juventude. — Edições deOuro, 1970.

E na União Soviética:

Brasil, edição da Academia de Ciências de Moscou, em 1963, escrito com Oscar Niemeyer, Nelson Werneck Sodré, Edison Carneiro, Di Cavalcanti, Dias Gomes, Astrojildo Pereira, Arnaldo Estrêla, Alex Viany, Sergio Guerra Duarte e Quirino Campofiorito.


O texto acima, gentilmente enviado pela filha do autor, Maria Marta, foi publicado no livro "Telhado de Vidro - Vol. II", Bradil — Rio de Janeiro, 1967, pág. 182.

 

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