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Presentes de Natal
Nestor de Holanda
As noites de Natal existem para me mostrar que os anos têm sido arrancados das folhinhas.
E me lembram de que já vou carregando, no corpo, na alma, no coração, as tatuagens do
tempo.
Houve o Natal dos carneirinho manso, que meu pai me deu para ser saudade hoje. Houve o da
flauta, o do velocípede, o da bicicleta.
Depois, o das obras de Júlio Verne.
Mais adiante, o da Enciclopédia e Dicionário Internacional.
Um dia, fui visitar casa amiga. E a empregada me anunciou:
Aí está um rapaz.
Desde então, o Natal se foi transformando em pijamas, camisas, gravatas, lenços.
Noutra visita:
Aí está um moço.
Notem que, no caso, moço é mais velho que rapaz...
Meu Natal passou a faturar abotoaduras, alfinetes de gravata, carteiras de cédulas ou de
níqueis, cintos e agendas.
Agora, quando visito algum amigo, as empregadas me anunciam:
Aí está um senhor.
Quando o dono da casa é cortês, ri:
Que senhor, que nada, Maria. É o Iolando. Entra velho.
O velho em tom fraterno, remoça mais a gente. Acho horrível ser senhor.
Assim, o último Natal me deixou mágoa estranha. Porque pessoa querida, das que sempre me
presentearam no nascimento do Cristo, apareceu com uma caixinha embrulhada em papel
multicolor. Todo alegria, abri o embrulho e a caixinha.
Eram uns suspensórios!...
Nestor de Holanda (Nestor de Hollanda Cavalcanti Neto) nasceu a 1º de dezembro de
1921, em Vitória de Santo Antão, Pernambuco. Em 1941, veio para o Rio de Janeiro, em
busca de horizontes mais largos. Foi redator de A Cena Muda, Revista da Semana,
Brasilidade, Vida, Deca, e das rádios Vera Cruz, Transmissora e Educadora. Trabalhou em
diversos jornais: Folha Carioca, Democracia, O Imparcial, A Noite, Folha do Rio, Shopping
News, Diário Carioca, Última Hora e Diário de Notícias. Revistas: Manchete, A Noite
Ilustrada, Carioca. Estações de Rádio: Clube Fluminense, Cruzeiro do Sul, Clube do
Brasil, Globo, Nacional e Ministério da Educação e Cultura, da qual era redator.
Emissoras de televisão: Continental, Excelsior, Rio. Escreveu muito para teatro, desde
revistas como A Bomba da Paz, Está em Todas, TV para Crer e Terra do Samba, a comédias
como Um Homem Mau e A Bruxa. Produziu mais de uma centena de composições populares, como
Quem Foi?, Seu Nome Não é Maria, Xém-ém-ém ( que figurou na trilha sonora de um filme
dos Estúdios Disney), Periquito da Madame, Último Beijo, Muito Agradecido, Eu Sei que
Ele Chora, Meu Mundo é Você, e fez parceiras com Ari Barroso, Ismael Neto, Haroldo Lôbo
e outros musicistas que deixaram saudades. Foi um dos fundadores da SBACEM, da SADEMBRA e
filiado à Sociedade Brasileira de Autores Teatrais e à Associação Brasileira de
Imprensa ABI. Graças a seu estilo leve, bem-humorado, de marcante penetração
popular, Nestor de Holanda figura entre os escritores que mais venderam no Brasil, e
esteve entre os mais traduzidos. Livros seus, como Diálogo Brasil-URSS, O Mundo Vermelho,
Sossego, Rua da Revolução, Jangadeiros, A Ignorância ao Alcance de Todos, Itinerário
da Paisagem Carioca e outros figuram entre os recordistas de venda, alguns com edições
sucessivas, sendo que o último lhe rendeu o título de Cidadão Carioca, por decisão da
Assembléia Legislativa do Estado da Guanabara. Foi casado, desde 1947, com dona Kezia
Alves de Hollanda Cavalcanti. O casal teve dois filhos, Nestor e Maria Marta. Eis,
portanto, em rápidas linhas, a história desse autor. Um homem que viveu, exclusivamente,
de escrever. Jamais exerceu a função que não dependesse, tão-só, de sua pena. E,
quando completou 32 anos de atividades na imprensa, viu sair a edição comemorativa do
fato, em dois volumes, numa realização da BRADIL, com a seleção de trabalhos de sua
seção "Telhado de Vidro", na qual se destaca o bom humor do cronista diário,
o cronista que, apesar das viagens que empreendeu ao exterior, não deixa de cantar as
quatro cidades nas quais mais tempo viveu: Vitória de Santo Antão, Recife, Olinda e o
Rio de Janeiro
Nestor de Holanda faleceu em 14 de novembro de 1970, na cidade do Rio de
Janeiro.
Bibliografia:
ROMANCES:
Sossego, Rua da Revolução Irmão Pongetti Editores, 1961
Jangadeiros Editora Letras e Artes, 1964
CRÔNICAS:
Ah! Saudade Engraçada! (Prêmio Orlando Dantas, do Diário de Notícias, Livraria São
José, 1962)
Estórias de Bom Humor (Cariocas) Editora Letras e Artes, 1965
Telhado de Vidro Volume I e II Bradil, 1967
TEATRO:
Um Homem Mau Editora Brasilidade, 1943
A Bruxa Irmãos Pongetti Editores, 1962
HUMORISMO:
A Ignorância ao Alcance de Todos Editora Letras e Artes, 1ª Edição em 1963,
2ª. 3ª, 4ª e 5ª em 1964 e 6ª edição em 1965.
O Puxa-Saquismo ao Alcance de todos Editora Letras e Artes, 1ª edição em 1963,
2ª em 1964 e 3ª em 1965.
Seja Você um Canibal Editora Letras e Artes, 1964
O Decúbito da Mulher Morta Editora Conquista, 1970.
REPORTAGENS:
O Mundo Vermelho Irmãos Pongetti Editores, 1ª edição em 1961, 2ª em 1962 e 3ª
em 1963.
Itinerário da Paisagem Carioca Editora Letras e Artes, 1965
ENTREVISTAS:
Diálogo Brasil-URSS Editora Civilização Brasileira, 1ª edição em 1960 e 2ª
edição em 1962.
ENSAIOS:
Como Seria o Brasil Socialista? Editora Civilização Brasileira, 1963.
MEMÓRIAS:
Memórias do Café Nice (Subterrâneos da Música Popular e da Vida Boêmia do Rio de
Janeiro) Editora Conquista, 1ª edição em 1969 e 2ª edição em 1970.
ADAPTAÇÃO:
A Ilíada, de Homero, para a juventude. Edições deOuro, 1970.
E na União Soviética:
Brasil, edição da Academia de Ciências de Moscou, em 1963, escrito com Oscar Niemeyer,
Nelson Werneck Sodré, Edison Carneiro, Di Cavalcanti, Dias Gomes, Astrojildo Pereira,
Arnaldo Estrêla, Alex Viany, Sergio Guerra Duarte e Quirino Campofiorito.
O texto acima nos foi gentilmente enviado pela filha do autor, Maria Marta, e foi
publicado no livro "Telhado de Vidro Vol.I", Bradil Rio de
Janeiro, 1967, pág. 78.
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